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quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Hospital Colônia foi símbolo de higienismo, diz diretora de "Holocausto Brasileiro"


Daniela Arbex lança filme sobre manicômio de Barbacena (MG) onde 60 mil pessoas morreram em 70 anos de funcionamento


no Brasil de Fato

 
Capa do livro "Holocausto Brasileiro", da jornalista Daniela Arbex / Daniela Arbex

Neste domingo (20) estreou o documentário Holocausto Brasileiro no canal MAX, produzido pela HBO e dirigido pela jornalista Daniela Arbex, autora do livro homônimo. O documentário, assim como o livro-reportagem, conta a história do Hospital Psiquiátrico Colônia, um manicômio que se localizava em Barbacena (MG), e que, em 70 anos de funcionamento (de 1903 a 1980), foi responsável por maus tratos e violações que levaram mais de 60 mil pessoas à morte.
O livro de Arbex, perturbador em seu conteúdo mas cuidadoso em sua abordagem, foi publicado pela editora Geração e consagrado com o 2º lugar no 56º Prêmio Jabuti, em 2014, como melhor livro reportagem. 
Na obra, a jornalista conseguiu localizar e entrevistar ex-funcionários e sobreviventes do manicômio, que viviam em condições insalubres, sofrendo com abandono maus tratos sistemáticos, como ter de se alimentar de ratos, beber água do esgoto ou receber eletrochoques constantemente.
"Eu fiquei muito emocionada pelo fato de que as imagens [publicadas na Revista Cruzeiro em 1961] me remetiam a um campo de concentração, e pelo fato de eu não saber nada disso. Eu me perguntava como as pessoas não sabiam disso. Então, tentei buscar sobreviventes do hospital para ir atrás da história", contou Arbex, em entrevista exclusiva ao Brasil de Fato.

O Hospital Colônia ficou conhecido por receber não apenas pacientes com transtornos mentais mas por ser um símbolo de higienismo e segregação social. Grande parte dos pacientes internados não estava sequer doente: alguns eram portadores de deficiências físicas; outros, pessoas em situação de rua, órfãos, ou excluídos da sociedade. A autora e diretora defende o argumento de que as pessoas internadas no Colônia eram condenadas à morte.


Experiência


Este é o primeiro trabalho audiovisual de Arbex, pós estudar e escrever sobre a saúde mental no Brasil há pelo menos 20 anos, tendo participado de uma série de reportagens sobre hospitais psiquiátricos da região de Juiz de Fora (que foram fechados posteriormente).
"A minha maior preocupação era quem faria e como seria feito, porque teria que ter muita delicadeza e cuidado. Eu tinha muita preocupação e queria acompanhar esse processo. (…) O desafio era transportar para a tela toda a emoção do livro, porque é uma linguagem completamente diferente. Eu nunca tinha feito, mas tive do meu lado pessoas muito experientes", avaliou.

Confira a entrevista na íntegra:
Brasil de Fato - Por que a ideia de transformar o livro em um documentário? Quais foram os desafios e as mudanças para adaptar para o audiovisual?
Daniela Arbex - Na verdade, a ideia é de 2013 quando eu lancei o livro. Daí, a HBO fez uma proposta. Me ligaram interessados em comprar os direitos do livro para fazer um filme um mês depois do lançamento do livro, em junho de 2013, e a gente começou a conversar.
Minha maior preocupação era quem faria e como seria feito, porque teria que ser feito com muita delicadeza e cuidado. Eu tinha muita preocupação e queria acompanhar esse processo. Até que veio o convite deles para que a gente produzisse, e a gente conseguiu fazer tudo, participar de todo o processo.
Eu acho que o livro não esgota o filme e o filme não esgota o livro. O desafio era transportar para a tela toda a emoção do livro, que era impactante e consagrado, mas continuar tratando desse assunto com o cuidado que tratou no livro. Também foi um desafio porque é uma linguagem completamente diferente.
Eu nunca tinha feito, mas tive do meu lado pessoas muito experientes: o Armando Mendz, que dirigiu o filme comigo; o Fábio Cabral, que foi o montador; o diretor de fotografia Mauro Pianta… Uma equipe muito experiente que acabou complementando as habilidades.
Eu tenho uma prática de contação de histórias, e eles têm as partes técnicas. Então, acho que o desafio foi não perder essa emoção, não pesar a mão, porque eu não queria que a história fosse mais dramática do que já é.
A gente teve muito cuidado, desde o momento das entrevistas, a forma como a equipe se colocou no set de filmagem. Ficamos praticamente invisíveis ali, exatamente para contar a história deles. 

Como você conheceu a história do Hospital Colônia e de onde surgiu a ideia da pesquisa e da reportagem?
Eu tive acesso em 2009 às fotos que foram feitas dentro do Hospital em 1961pelo fotógrafo Luiz Alfredo, da Revista Cruzeiro. Eu estava conversando com um psiquiatra da minha cidade e ele me mostrou um livro que tinha sido editado com recursos do governo do estado e que tinha parte dessas imagens. Ele tinha sido editado pra falar do passado do hospital e de como as coisas mudaram.
Aí, a partir dessas imagens, eu fiquei muito emocionada de que elas me remeterem a um campo de concentração e pelo fato de eu não saber nada disso. Eu me perguntava: 'como as pessoas não sabiam nada disso'.
Então, tentei buscar sobreviventes do hospital para ir atrás da história, mas eu não queria qualquer sobrevivente e sim os fotografados pelo Luiz Alfredo. Como fui buscar as pessoas 50 anos depois das fotografias, as chances de encontrar alguém vivo era muito pequena, mas a gente conseguiu identificar 20 pessoas. A partir disso, a história começou a ser contada.

Sabemos que a situação dos hospitais psiquiátricos mudou muito desde as décadas retratadas no livro, mas ainda peca muito em relação à violação de direitos humanos. Você acredita que, desde o lançamento do livro em 2013, houve alguma influência na discussão da luta antimanicomial? Teve algum avanço nesse sentido?
Com certeza, eu acho que a contribuição dele foi imensa para colocar de novo no centro do debate público todas as questões relacionadas à saúde mental no Brasil. Eu acho que o livro produz a memória da saúde mental no Brasil e dá voz a pessoas socialmente mudas, que nunca tinham sido ouvidas ou procuradas, nunca tinham falado sobre o que passaram, e que falaram pela primeira vez através do livro.
A gente percebe o impacto dele pelo fato de ele estar sendo adotado desde 2013 nos currículos das faculdades de Psicologia, Direito e Comunicação. A história dele dialoga com essas áreas. É muito interessante, porque foi um trabalho que foi feito exatamente para dar voz para essas pessoas, ver o quanto isso mobilizou o país. Então, realmente eu não posso ser modesta a esse ponto. O livro teve esse papel.

O que mais te surpreendeu ou chocou durante todo o processo de produção do livro e do documentário?
Essa história é toda muito chocante. Foram momentos muito difíceis, revelações muito graves. No processo do livro, eu vivi um momento na apuração das reportagens que eu tinha acabado de ser mãe e estava entrevistando mulheres que tiveram seus filhos arrancados. Foi muito duro.
O filme pra mim são muitos momentos incríveis, porque ele foi se desenvolvendo diante das câmeras. A gente imaginava que as pessoas falariam alguma coisa, e as pessoas nos surpreendiam com outras mais impressionantes.
Teve o caso de um personagem que encontrou a mãe dele no hospital, o que foi absolutamente "por acaso". Não gosto desta palavra, mas ele encontra a mãe no hospital, e isso é muito impressionante. A equipe ficou muito chocada e, quem não estava filmando naquele momento, saiu de cena para chorar.
O filme foi sendo construído ali diante das câmeras, o que foi muito bacana mas também surpreendente, quando a gente vê as revelações que foram feitas, a naturalidade com que as pessoas contam o que faziam e deixavam de fazer, a rotina do hospital… Isso superou todas as expectativas que a gente tinha em relação às entrevistas.

Há previsão de o documentário ir para os cinemas?
Ainda não. Eu acho que a gente vai participar de festivais primeiro. Nos inscrevemos no Festival do Rio de Janeiro… Acho que esse vai ser um caminho natural dos filmes. A questão da TV aberta eu acho que não posso falar sobre, já que é a HBO que cuida da parte comercial do filme, mas neste momento não tem nenhuma negociação nesse sentido.