Semianalfabeta, Vanilda, de 33 anos, mora em um casebre de madeira no município de Cerro Azul, no Vale do Ribeira, e sobrevive graças ao dinheiro que recebe do Bolsa Família. Apesar disso, a Assembleia depositou, entre 2004 e 2009, R$ 1,2 milhão na conta dela – num indicativo de que pode ter sido usada como “laranja” num esquema de desvio de recursos públicos do Legislativo.
O HSBC informou à reportagem estar investigando o caso e reconheceu já ter encontrado indícios de fraude na movimentação da conta bancária aberta em nome de Vanilda Leal. Em nota oficial distribuída pela assessoria de imprensa, o banco informa que a “conclusão ainda preliminar indica que a conta pode ter sido aberta de maneira fraudulenta” – ou seja, sem o conhecimento da própria Vanilda, que afirmou à reportagem não ter registro bancário.
As normas de funcionamento do sistema financeiro determinam que o Banco Central seja sempre informado sobre movimentações suspeitas ou acima de R$ 10 mil – e Vanilda chegava a receber na conta salários de até R$ 35 mil. Foram 60 pagamentos desde 2004, na média, com depósitos de R$ 20 mil. Pelas normas do BC, os bancos também devem verificar a compatibilidade e a atividade econômica dos correntistas e os beneficiários finais das movimentações.
Caso da PF
A caracterização de gestão fraudulenta bancária coloca a investigação do caso da movimentação de dinheiro da Assembleia Legislativa na competência da Polícia Federal (PF) e do Ministério Público Federal (MPF). Pela lei, crimes contra o sistema financeiro são apurados apenas na esfera federal, já que não existe autonomia dos estados para legislar sobre assuntos bancários.
Com suspeitas de participação ou omissão de algum agente bancário, a PF instaurou inquérito no dia 25 de março para apurar as irregularidades mostradas pela série de reportagens Diários Secretos, da Gazeta do Povo e da RPCTV.
Além de indícios de gestão bancária fraudulenta, há a suspeita de outros crimes de atribuição federal. Ao consultar o site da Receita Federal, é possível verificar que Vanilda (ou alguém em nome dela) declararou Imposto de Renda e teve restituição de 2004 até o ano passado. Ilegalidades envolvendo tributos federais também são apuradas pela PF e pelo MPF. Além disso, se o rastreamento dos depósitos, saques e aplicações mostrar que houve lavagem de dinheiro, mais uma vez a investigação fica a cargo de órgãos federais.
A discussão sobre a competência ou não da PF e do MPF para apurar irregularidades na Assembleia do Paraná já marcou outro caso de suposto desvio de recursos. Desde 2008 está em debate nos tribunais judiciais, ainda sem definição, se o escândalo dos gafanhotos envolve crimes federais. O esquema gafanhoto, que envolve dezenas de deputados e ex-deputados, consistia no pagamento dos salários de vários servidores da Assembleia (muitos dos quais fantasmas) numa mesma conta bancária.
Veja todas as denúncias feitas pelo jornal Gazeta do Povo e pela RPCTV sobre os Diários Secretos da Assembleia Legislativa.
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