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domingo, 19 de maio de 2013

Organização da Atenção em saúde: Sobre o pulo e a cerca

Histórias do cotidiano na Atenção Básica


Se os pacientes tentam pular a cerca, é porque a cerca existe. Será que essas barreiras são realmente necessárias?

Texto de Paulo Navarro (via Caroline Rocha)


Era um dia comum no postinho... Eu estava atendendo dona T., uma paciente com quadro grave de depressão. Já a vinha tratando há dois meses, desde uma tentativa de suicídio. Era engraçado porque ela, embora tivesse quase o dobro de minha idade, fazia questão de dizer que me via como um pai... Coisas da vida. Súbito, fui surpreendido por um barulho que parecia um copo quebrando, vindo da sala de espera, seguido de uma intensa gritaria.

Pedi desculpas à dona T., e me levantei para ver o que estava acontecendo. Assim que abri a porta, entrou a auxiliar de enfermagem, correndo, e falando que um paciente queria agredi-la. Este, o paciente, estava em pé ao lado do consultório, gritando e xingando bastante. Quando me viu, recuou um pouco:

- Desculpe, doutor, mas essa mulher é uma grossa! Ela não pode fazer de conta que não me viu! Eu vou denunciar na prefeitura, isso é um absurdo! – em tom de voz alto. 

Respondi:

- Olha, eu não sei o que aconteceu. O senhor tem todo o direito de denunciar o que quiser, ir à prefeitura, à polícia, buscar o que acha que é direito. Agora, o senhor não tem direito nem de gritar nem de agredir ninguém aqui dentro! – falei com firmeza, mas em um tom baixo.

O paciente voltou a pedir desculpas e a xingar a auxiliar. Dizia que tinha vindo porque precisava de ajuda, e que a funcionária não podia tê-lo desrespeitado. “Ela disse alguma coisa ao senhor?”, perguntei.

- Muito pelo contrário, doutor. Ela virou a cara e me deixou falando sozinho. Por isso eu perdi a cabeça e joguei o molho de chaves nela. Mas não pegou...

Nesse meio tempo, chegou a gerente da unidade, querendo saber o que era que estava acontecendo e ameaçando chamar a polícia. Falei que não precisava, que o paciente seria atendido quando houvesse tempo, e que se ele não quisesse esperar ele poderia ir até a prefeitura reclamar.

A gerente entrou no meu consultório, fechou a porta e sugeriu que eu o atendesse rapidamente, para acabar com o tumulto. Eu olhei para dona T., que estava apreensiva, e falei que o atenderia depois, pois estava com outro paciente agora. A auxiliar de enfermagem falou que só teria uma vaga de encaixe dali a 30 minutos.

Saí do consultório novamente e comuniquei ao paciente que poderia atende-lo em meia hora. Ele estava mais calmo e, embora muito ansioso, assentiu esperar. Pedi então que a gerente e a auxiliar saíssem da sala e continuei a consulta com dona T.

Quando todos saíram, dona T. me elogiou pela conduta, ao que respondi:

- O problema é que se a gente começar a atender na frente quem dá escândalo, vai ter um monte de gente fazendo isso para pular a cerca... – T. me interrompeu de pronto:

- É, doutor. Mas a gente só pula a cerca quando tem uma cerca para ser pulada...

Seguimos o atendimento. Mais tarde, recebi seu W. no consultório. Ele estava transtornado porque a mulher o havia abandonado na noite anterior, e levado junto seu filho de 7 anos. Sofrendo com a rejeição, ele não aguentou quando a auxiliar o ignorou no momento em que ele perguntava sobre a possibilidade de atendimento.

Seu W. chorou bastante, parecia uma criança. Conversamos bastante, e ele me surpreendeu no final ao recusar o benzodiazepínico que eu estava para lhe prescrever.

- Acho que não preciso de remédio, doutor. Mas eu posso voltar aqui para conversar com o senhor?

Claro que podia! Na saída, visivelmente constrangido, ele pediu desculpas mais uma vez e fez questão de ir até a auxiliar de enfermagem se desculpar. E eu fiquei pensando na frase de dona T. Se os pacientes tentam pular a cerca, é porque a cerca existe. 

Será que essas barreiras são realmente necessárias?

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