Hoje pela manhã, ao dar uma "folheada na Folha" topei com o artigo que segue abaixo do IGOR GIELOW, bem destacado na parte de "opinião". Fiquei aborrecido com o que eu li. Não sou fá incondicional do Lula, mas não dá para engolir a carga às vezes infantil de preconceito que ele recebe por parte de uma "elite" (que se julga culta, equilibrada e bem informada) e que habita neste grande "país Meridional" composto pelas regiões Sul e Sudeste. Este grande "país Meridional", por uma ironia do destino, veio a fazer parte de um país maior, o Brasil, a despeito dos narizes empinados e dos hercúleos esforços em contrário da "elite" (claramente separatista) que lá vive.
A elite do "país Meridional" é majoritáriamente composta por nobres de sangue azul e descendentes de imigrantes que não toleram migrantes.
Imaginem se fosse um roteiro de filme concorrendo ao Oscar? "A Saga da Retirante" contando a história VERÍDICA de uma mulher, que se vê forçada a fugir da miséria e das dificuldades e segue para o "país Meridional" numa tentativa desesperada de salvar a vida de seus filhos. Um deles, acaba metalúrgico e se envolve no movimento sindical (isto em plena ditadura) e luta pela melhoria das condições de trabalho impostas pelas multinacionais (que jamais se atreveriam a aplicar aos trabalhadores de seus próprios países as maldades que aplicavam aqui com o beneplácito dos milicos adoradores do "Milagre Brasileiro"). Daí (encurtando o nosso papo) vira presidente, é reeleito e - mesmo estando em um segundo mandato - conta com a maior aprovação popular da história recente do país Brasil.
Então o prefeito da capital de Pernambuco, que foi o estado onde começou esta saga inacreditável, resolve TARDIAMENTE homenagear a Dona Lindú.
Agora pouco, ao dar uma lida no blog do Nassif, percebi que ele também não concordou com algumas das pérolas do artigo da FSP. Segue a transcrição do texto da Folha (digo, do Igor Gielow) com os comentários do Nassif (em vermelho).
Das leituras da Folha
Niyazov e os trópicos
IGOR GIELOW
BRASÍLIA - Em 2002, o ditador do Turcomenistão, Saparmurat Niyazov, perpetrou sua mais famosa bizarrice: renomeou todo o calendário. Entre outras coisas, o mês de abril virou Gurbansoltan em homenagem à mãe do déspota, uma medida só revertida depois que Niyazov morreu, em 2006.
Estamos longe disso, mas um pequeno fato ocorrido no fim do ano dá conta do quão incipiente é o conceito de impessoalidade institucional no Brasil. Na terça passada, Lula participou da inauguração de um parque em Recife. O lugar, uma obra de R$ 29 milhões da prefeitura petista, visa homenagear retirantes como o próprio presidente.
Até aí, vá lá. Mas o parque se chama Dona Lindu, nome da mãe de Lula. Ou seja, um prefeito aliado torrou milhões para adular o presidente, que aceitou a brincadeira de bom grado. Parece picuinha, mas não é: em democracias decentes, não se faz isso com governantes no cargo. Não é, para ficar na “novilíngua” dos anos Lula, “republicano”.
Achei que o prefeito tinha construído o parque para a população e aproveitado para dar o nome da mãe do Lula. Fico sabendo que ele torrou milhões para dar o nome da mãe de Lula ao parque - que provavelmente ficará fechado para justificar o julgamento do artigo, de que ele torrou milhões.
Esse processo não é novidade no Brasil, é lógico. A prática sempre esteve aí, tanto do lado do bajulador quanto do adulado. Mas a falta de ineditismo, assim como a popularidade de Lula, é desculpa para justificar quaisquer barbarismos, inclusive os talvez inofensivos.
E o que dizer da avenida Roberto Marinho e do viaduto Otávio Frias de Oliveira? Homenagens merecidas (como eu acho) ou iniciativas para adular grupos midiáticos poderosos? Qual a diferença?
Enfim, tudo só fará piorar: está prevista para este ano a filmagem da vida de Lula pelos próceres do pior do cinemão brasileiro, a família Barreto. É quase comovente ver a produção jurar que não usará um centavo de dinheiro público no projeto, para evitar críticas à previsível elegia da saga lulista. Pode até ser, mas vamos esperar a lista de “parceiros” do projeto. Lula é uma espécie de “Padim Ciço” em escala nacional. O efeito desse personalismo na psique política do país só será aferível quando Lula deixar a Presidência, espera-se, em 2010. Enquanto isso, resta torcer para que abril continue se chamando abril cá nos trópicos.
Me lembra a história de uma ex-diretora, que expulsou um aluno porque trancou uma galinha no portamalas do carro: hoje é uma galinha; amanhã poderá ser uma criança! Se o prefeito de Recife dá o nome da mãe de Lula a um parque, nada impedirá que Lula futuramente mude o calendário.
Niyazov e os trópicos
IGOR GIELOW
BRASÍLIA - Em 2002, o ditador do Turcomenistão, Saparmurat Niyazov, perpetrou sua mais famosa bizarrice: renomeou todo o calendário. Entre outras coisas, o mês de abril virou Gurbansoltan em homenagem à mãe do déspota, uma medida só revertida depois que Niyazov morreu, em 2006.
Estamos longe disso, mas um pequeno fato ocorrido no fim do ano dá conta do quão incipiente é o conceito de impessoalidade institucional no Brasil. Na terça passada, Lula participou da inauguração de um parque em Recife. O lugar, uma obra de R$ 29 milhões da prefeitura petista, visa homenagear retirantes como o próprio presidente.
Até aí, vá lá. Mas o parque se chama Dona Lindu, nome da mãe de Lula. Ou seja, um prefeito aliado torrou milhões para adular o presidente, que aceitou a brincadeira de bom grado. Parece picuinha, mas não é: em democracias decentes, não se faz isso com governantes no cargo. Não é, para ficar na “novilíngua” dos anos Lula, “republicano”.
Achei que o prefeito tinha construído o parque para a população e aproveitado para dar o nome da mãe do Lula. Fico sabendo que ele torrou milhões para dar o nome da mãe de Lula ao parque - que provavelmente ficará fechado para justificar o julgamento do artigo, de que ele torrou milhões.
Esse processo não é novidade no Brasil, é lógico. A prática sempre esteve aí, tanto do lado do bajulador quanto do adulado. Mas a falta de ineditismo, assim como a popularidade de Lula, é desculpa para justificar quaisquer barbarismos, inclusive os talvez inofensivos.
E o que dizer da avenida Roberto Marinho e do viaduto Otávio Frias de Oliveira? Homenagens merecidas (como eu acho) ou iniciativas para adular grupos midiáticos poderosos? Qual a diferença?
Enfim, tudo só fará piorar: está prevista para este ano a filmagem da vida de Lula pelos próceres do pior do cinemão brasileiro, a família Barreto. É quase comovente ver a produção jurar que não usará um centavo de dinheiro público no projeto, para evitar críticas à previsível elegia da saga lulista. Pode até ser, mas vamos esperar a lista de “parceiros” do projeto. Lula é uma espécie de “Padim Ciço” em escala nacional. O efeito desse personalismo na psique política do país só será aferível quando Lula deixar a Presidência, espera-se, em 2010. Enquanto isso, resta torcer para que abril continue se chamando abril cá nos trópicos.
Me lembra a história de uma ex-diretora, que expulsou um aluno porque trancou uma galinha no portamalas do carro: hoje é uma galinha; amanhã poderá ser uma criança! Se o prefeito de Recife dá o nome da mãe de Lula a um parque, nada impedirá que Lula futuramente mude o calendário.
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