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segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Formação Inicial de Enfermeiros Técnicos em Saúde Intercultural: Uma Experiência de Cooperação entre as Organizações Indígenas da Amazônia Peruana e o Estado



 Por Alfredo Rodríguez Torres e María Isolina Valdez Felipe

A Amazônia peruana representa mais de 80% do território nacional peruano. Neste território vivem, há mais de 10 mil anos, 65 dos 300 povos indígenas originários, o resto desapareceu pela ação genocida e etnocida da “civilização” ocidental.
Desde a colonização europeia esta região foi ocupada esporadicamente por colonos ocidentais, de acordo com os recursos naturais requeridos pelo mercado.
Primeiro foram as lendas do “El Dorado” e “As Amazonas”, depois as madeiras duras para a mineração colonial; posteriormente a borracha para a indústria automotiva e o petróleo nos anos 1960. Nos últimos anos, esta região do Peru e seus ancestrais habitantes e colonos começaram a ser novamente pressionados pelas novas demandas do mercado: gás natural, territórios para produzir biocombustíveis, água doce, biodiversidade, sumidouros de C02, madeiras finas, conhecimentos ancestrais.
Os 65 povos indígenas da Amazônia peruana, em seus respectivos território, formaram as populações consideradas como de “extrema pobreza” ou “invisíveis” e estão localizadas nos últimos lugares nas medições do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) peruano, ou seja, as populações mais pobres do Peru estão assentadas nos território mais ricos do país. Como consequência disto, os últimos governos desenvolveram políticas públicas de maior agressão contra os povos indígenas, particularmente no que diz respeito a concessões territoriais para as grandes empresas extrativistas, superpostas a território ancestrais destes povos, o que gerou uma violenta reação defensiva dos povos durante os anos 2008 e 2009.
As organizações indígenas, entre elas a mais representativa: a Associação Interétnica de Desenvolvimento da Selva Peruana (AIDESEP) vem suprindo a ausência de políticas públicas eficazes de respeito aos direitos dos povos indígenas, particularmente no referente à Educação e à Saúde.
Em relação com este ultimo aspecto, desde 1992 a AIDESEP articulou um Programa de Saúde Indígena (PSI), cuja missão consiste em resgatar e desenvolver os conhecimentos e tecnologias indígenas de saúde, dando-lhes um enfoque intercultural, para gerar sinergias com a medicina ocidental e melhorar a qualidade da atenção de saúde destes povos que há bastante tempo sofrem por este direito. Durante oito anos foi feito um inventário de recursos, tanto humanos como de conhecimentos e tecnologias de saúde indígenas, para colocá-los em condições de incorporação ao sistema de saúde nacional. Fortaleceu-se esta iniciativa com a capacitação destes recursos humanos e a socialização dos conhecimentos e tecnologias mais significativas.
A partir de 2000 empreendemos o trabalho de iniciar a formação profissional de nossos jovens indígenas. Começamos fazendo um projeto com o Ministério da Saúde; sem obtermos resposta, tentamos com o Ministério da Educação e os resultados também foram negativos. Por estas razões apenas pudemos empreender o trabalho em 2004, buscando nas instâncias locais do Estado (Unidade de Gestão Educacional Local – UGEL –, Instituto Tecnológico da Localidade – IST) onde fomos recebidos com muito entusiasmo.
O Projeto pretende incorporar conhecimentos e tecnologias indígenas de saúde no currículo da carreira de Enfermaria Técnica da Educação Superior não Universitária do Peru. Os estudantes são jovens indígenas cuja língua materna é indígena, que concluíram a educação escolar básica e que são designados por suas respectivas organizações. Os jovens vão de suas comunidades até as cidades amazônicas mais próximas que contenham os recursos para a profissionalização (hospital, profissionais de saúde e sábios indígenas); neste caso foi a cidade de Atalaya.
A primeira formação de jovens dos povos asháninca, yine e Shipibo, 20 no total, foram realizadas durante três anos seguindo o currículo da carreira de Enfermaria Técnica a qual foram incorporadas 1.870 horas de medicina indígena; acompanhadas de tutores acadêmicos, que fizeram o trabalho compensatório de uma educação básica muito pobre, como é a escolaridade rural no Peru.
Os docentes indígenas e ocidentais trabalharam de comum acordo, compartilhando tecnologias entre parteira indígena e a obstetrícia ocidental ou entre o médico e o Sheripiari (médico) indígena.
Atualmente, dos 20 jovens indígenas graduados em 2008, 16 estão trabalhando nos Postos de Saúde de suas comunidades. Os outros quatro estão fazendo trabalhos relacionados com a medicina tradicional. O êxito do projeto permitiu o desenvolvimento de uma réplica a cargo do PSI da AIDESEP e duas réplicas nas quais participamos assessorando as nossas bases regionais.

bio_alfredo_rodriguezAlfredo Rodríguez Torres
 É pedagogo com pós-graduação em Sociologia do Desenvolvimento na Universidade de Paris I, onde estudou seu doutorado. É professor da Faculdade de Educação da Universidade Nacional de San Marcos de Lima e assessor pedagógico da Associação Interétnica de Desenvolvimento da Selva Peruana (AIDESEP), desde 1999. Como membro da equipe técnica da AIDESEP, participou de processos de formação e capacitação de líderes indígenas do Fundo Indígena e dos entes cooperativos. Atualmente integra a equipe técnica que realiza desde 2004 a experiência de formação de Enfermeiros Técnicos Interculturais com jovens indígenas da Amazônia peruana. ralroto2002@yahoo.com


bio_isolina_valdezIsolina Valdez Felipe
É Licenciada em Enfermagem, com estudos de complementação pedagógica na Universidade Nacional Superior de San Marcos. Desde 1993 trabalha para as organizações indígenas da Amazônia na formação e capacitação de recursos humanos indígenas para o Sistema de Saúde Indígena da AIDESEP. Desde 2004 é diretora do Projeto Piloto de Formação de Enfermeiros Técnicos em Saúde de Bagua, com 24 jovens awajun, wampis e kechwas. Maisa660@hotmail.com





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