Eles têm entre 20 e 30 anos, não têm presos políticos nem opositores ao regime na família
no Globão
SÃO PAULO - Os jovens que amanheceram na última segunda-feira constrangendo militares e policiais suspeitos de envolvimento com atos de tortura durante a ditadura militar têm idades entre 20 e 30 anos, por isso cresceram sob regime democrático. Não têm presos políticos e opositores ao regime na família, mas defendem causas que muito se assemelham às bandeiras tradicionais da esquerda brasileira durante o governo militar.
Criado em 2006, o Levante Popular da Juventude cresceu de verdade em fevereiro deste ano, quando 1,2 mil jovens de todo país se reuniram por cinco dias em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, para ouvir lideranças de movimentos sociais ligados à defesa dos trabalhadores do campo e das periferias. Lá, discutiram os principais problemas da educação, saúde e segurança no Brasil, além de assistir a apresentações culturais.
As reações de militares à aprovação da Comissão da Verdade serviram como combustível para as articulações do que viria a ser a ação de segunda. Tocada sob completo sigilo pelos jovens, a preocupação era não deixar que um eventual vazamento motivasse uma reação inesperada dos seus alvos.
Os manifestantes acordaram nas casas e nos locais de trabalho de ex-agentes do Estado envolvidos em abusos na ditadura, carregando cartazes com imagens de vítimas, faixas e apitos. As ações ocorreram no mesmo horário em seis estados diferentes e foram documentadas em fotos e vídeos. Em menos de uma hora quase todo material já estava na internet.
Até então pouco conhecido para além dos circuitos ligados aos movimentos sociais, o site do Levante teve recorde de acessos, saindo do ar por pelo menos quatro vezes devido ao tráfego de dados inesperado. Nada parecido com o que ocorreu nas últimas manifestações do grupo contra o machismo e pela ampliação do acesso à educação.
- Foi uma repercussão muito maior do que a gente esperava. A única reação negativa partiu dos sites ligados aos militares, mas isso já era esperado - conta o analista de sistemas Edison Rocha Júnior, de 26 anos, que na segunda protestou em frente à sede da empresa de segurança privada Dacala, que pertence ao delegado aposentado do antigo Departamento de Ordem Política e Social (Dops) David dos Santos Araujo, que na terça-feira prometeu processar os jovens.
Ainda na terça-feira, sites como o Verdade Sufocada publicaram textos em que os militares da reserva acusam os jovens de seguirem "líderes experientes em agitação e propaganda", promoverem a luta de classes e pertencer aos mesmos grupos contra os quais lutavam durante o governo militar.
Os jovens não escondem as semelhanças de causa. No manifesto final do acampamento de Santa Maria, chegam a defender a implantação de um governo socialista no Brasil. Mas também pedem a igualdade entre os sexos e a destinação de 10% do PIB para a educação.
Araújo diz ter sido levado ao grupo por um amigo integrante do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), mas nem por isso considera o Levante parte de movimentos já existentes, apesar de estar alinhado a eles. Nos próximos meses, a defesa da Comissão da Verdade e o constrangimento a militares deve continuar.
- Nossa proposta não termina aqui. Essa é uma disputa que está colocada e a tendência é que ela se acirre, principalmente por causa da reação dos militares ao nosso ato - diz o rapaz.
Um dos responsáveis pela organização do ato em Belo Horizonte, o biólogo Renan pede que seu sobrenome não seja divulgado, por temer uma reação de militares ao ato.
- Estamos mexendo com pessoas que cometeram todos os tipos de abuso, não dá pra se sentir seguro - justifica o biólogo, que também conheceu o Levante depois de assistir a uma palestra sobre a defesa da reforma agrária.
O Levante quer ser contraponto aos movimentos estudantis e ser um novo porta-voz das causas dos jovens ligados à esquerda brasileira.
- Nossa proposta é articular e organizar diferentes setores da juventude brasileira, hoje muito segmentada pelos movimentos estudantis. Queremos unir não apenas os universitários mas também moradores de periferias urbanas e dos movimentos do campo - explica o educador Lucio Centeno, de 27 anos, um dos organizadores do protesto em Porto Alegre (RS). Nesta segunda-feira, um muro do outro lado da rua da casa do coronel Carlos Alberto Ponzi, ex-chefe do Serviço Nacional de Informações de Porto Alegre, amanheceu com a frase: "aqui em frente mora um torturador".
Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/pais/jovens-que-constrangeram-militares-cresceram-na-democracia-4433059#ixzz1qY90zqAb
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