Só 5% das equipes têm médicos especializados. Baixa capacitação é o maior obstáculo do projeto, que visa prevenir doenças e antecipar diagnósticos
Apesar do aumento absoluto da população atendida por equipes da Estratégia Saúde da Família, nos últimos anos o avanço dessa cobertura tem revelado sinais de estagnação. O Brasil teve no ano passado um incremento de apenas 1,2% no número de atendidos pelo programa em relação a 2010, somando pouco mais de 101 milhões de pessoas.
Essa redução do avanço relativo, que já foi de 6,7% de 2007 a 2008, torna ainda mais difícil a meta do governo federal de universalizar as estratégias de saúde baseadas na prevenção, que pretende levar uma nova cultura em saúde ao alcance de todos os 191 milhões de brasileiros.
A estrutura de saúde, em si, não exige tantos recursos para ser mantida, mas não adianta ter uma unidade equipada com o que há de melhor se não há profissionais com formação para atender à demanda com qualidade”, explica a coordenadora da residência de Medicina de Família e Comunidade da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), Tânia Maria Santos Pires.
Ela cita o exemplo de sucesso de Belo Horizonte. Há alguns anos, os mineiros chegaram a 70% da população tendo cobertura dos programas da Saúde da Família – em Curitiba, o índice não passa de 30%. A chave para isso foi um investimento considerado ousado na qualificação dos estudantes de Medicina. “Por lá, a prefeitura decidiu incentivar a residência em medicina de família, essencial para implementação dos programas, e ela passou a organizar e manter financeiramente as residências na área.”
Para o presidente da Associação Médica Brasileira (AMB), Florentino Cardoso, as estratégias do Saúde da Família precisam passar pela profissionalização do quadro de funcionários e pela oferta de educação continuada. “O governo federal está em campanha para alocar médicos recém-formados e sem formação adequada em municípios do interior mas, em muitos casos, acaba por não oferecer condições plenas de salário e estabilidade, o que é nocivo para o sistema.”
Caminho
Para os especialistas, mesmo com alguns problemas, os incentivos do governo à prevenção no Brasil estão em um caminho positivo e conseguiram aproximar a população do sistema de saúde. E mesmo a dificuldade em ampliar a cobertura dos serviços não compromete a boa avaliação.
“É possível ampliá-la, tendo a preocupação com a qualificação dos profissionais, mas é ilusão achar que vamos cobrir 100% da população em curto prazo, já que muitos optam pelos planos de saúde e atendimento particular. A meta deve ser ter bons indicadores de saúde. Se um bairro ou cidade tem isso, o investimento pode ser direcionado a outras áreas”, diz a médica pediatra e sanitarista Eliane Cesário Maluf, professora do curso de Medicina da Universidade Positivo.
Segundo ela, a iniciativa ainda é capaz de economizar recursos. “Estudos internacionais mostram que 85% a 90% dos casos podem ser atendidos em unidades de atenção primária, sem mobilizar hospitais e sistemas complexos, como UTIS, que são muito mais onerosos.”
Diferença de estrutura marca destino de verbas
Há cinco anos, a cidade de Castro, na Região Central do estado, tinha 90% da população atendida pelos programas da Saúde da Família, enquanto Curitiba não passava de 30%. A diferença provém da estrutura de saúde necessária em cada município.
“Enquanto Castro consegue atender quase toda a sua população com cinco unidades de saúde, com quatro médicos em cada uma, Curitiba demanda uma estrutura muito maior. Por mais que a capital tenha mais recursos, tornar a cobertura abrangente é um desafio pelo tamanho da demanda”, explica a professora do curso de Medicina da PUCPR Tânia Maria Pires.
Alta complexidade
As necessidades de alocação de recursos variam conforme o porte da cidade. Em uma cidade pequena, as unidades de saúde podem trabalhar quase que exclusivamente com a atenção primária à saúde, enquanto as maiores precisam destinar recursos para a alta complexidade.
“Caso uma pessoa de Castro seja diagnosticada com câncer, é removida para Ponta Grossa, a regional de saúde mais próxima. Se o quadro for gravíssimo e demandar atendimento mais específico, é encaminhada para Curitiba. Com isso, a capital divide seus investimentos em várias frentes, enfraquecendo a quantidade destinada à prevenção.”
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