Páginas

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Paulo Poli(*) responde a matéria d'O Globo que ataca APS no Rio



São merecidas e bem vindas as críticas às clínicas da família do município do Rio de Janeiro. Há pouco mais de 4 anos elas não existiam e a ex-capital do Brasil era conhecida por ter a mais baixa cobertura de atenção primária do país. Não haveria cidadão para criticar o inexistente, não havia um equipamento de saúde no seu bairro, não havia farmácia, não havia agente de saúde, não havia enfermeiro, claro, não havia médico.

Se a capital fluminense parecia um caso perdido na organização do sistema público de saúde, para um observador distante como eu mereceria uma matéria de capa em um grande jornal ou revista compreender como de uma hora para outra unidades de saúde novas, bonitas, equipadas, com profissionais bem formados e, até, em pós-graduação, começaram a pipocar nos bairros da periferia, depois nos mais centrais da cidade. 

Nesses últimos anos o Rio de Janeiro não apenas recuperou parte do tempo perdido ao preencher com equipes de saúde da família enormes vazios assistenciais, lugares em que a população não tinha qualquer alternativa. O Rio é referência para outras capitas do país, como Curitiba, ao ter elaborado um guia dos serviços que devem ser oferecidos em cada Clínica da Família, ao ter criado um novo sistema de regulação para a atenção especializada, ao ter descentralizado exames como o da retina das pessoas com diabetes ou hipertensão.

Os gestores da saúde do município do Rio de Janeiro devem sim levar a sério cada um dos depoimentos dos cidadãos que reclamam da dificuldade para marcar uma consulta ou para fazer um exame. Do mesmo modo que os prestadores de serviços privados deveriam levar a sério as dificuldades frequentes e cotidianas de seus usuários para conseguirem resolver suas necessidades.

Infelizmente existem queixas e muitas tanto do Sistema Único de Saúde (SUS) quanto dos planos privados. A diferença é que no SUS a aposta é por um modelo utilizado nos países com maior justiça social do mundo (os da Escandinávia, Canadá, Inglaterra, Espanha, Holanda, etc..), em que médicos de família e comunidade e uma equipe, com enfermeiros, psicólogos, fisioterapeutas, oferecem um cuidado abrangente e continuado para os problemas de saúde de pessoas que conhecem e acompanham ao longo da vida. Esses profissionais são melhor remunerados se sua população se mantém saudável e se resolvem suas principais necessidades. Nesses países, mais de 90% da população utiliza o sistema público e os recursos aplicados geram mais saúde e maior satisfação.

As Clínicas da Família se espelham nesse modelo e elas são sim uma ameaça aqueles sistemas de saúde brasileiros em que as pessoas procuram direto os especialistas do coração, do pulmão, da pele, da cabeça, do estômago. Nesse desenho, cada pessoa é um amontoado de órgãos, que deve ser explorado até o fim com exames, cirurgias, tratamentos, todos muito caros e geralmente desnecessários. Não é a toa que o Brasil é vice-campeão mundial em cirurgia plástica estética, que oferta 4 vezes mais ressonâncias e tomografias para a classe média e alta do que o Canadá e que é campeão em cesareanas. O céu para os especialistas em órgãos no Brasil é a medicina americana. Seria importante explicar porque nos Estados Unidos gasta-se três vezes mais do que na Inglaterra ou Canadá e todos os indicadores de saúde da população são piores.
As Clínicas da Família devem incomodar cada vez mais.


(*)Paulo Poli Neto
Médico de Família e Comunidade
Diretor do Departamento de Atenção Primária
Secretaria de Saúde de Curitiba 

Nenhum comentário:

Postar um comentário