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sexta-feira, 20 de abril de 2018

‘Os empresários não querem a extinção do SUS, querem o SUS conveniente aos seus interesses, como de fato tem sido’ diz José Sestelo



‘A ousadia de propor um Novo Sistema de Saúde’. Essa foi a convocatória para um evento promovido pela Febraplan, a Federação Brasileira de Planos de Saúde, que circulou intensamente por meio das redes sociais no início desta semana. E que causou um rebuliço entre as entidades do Movimento Sanitário Brasileiro. Não sem razão. Em meio a um cenário de desmonte das políticas sociais como um todo, e às políticas de saúde especificamente, a proposta de construção de um “Novo Sistema Nacional de Saúde”, ainda mais partindo de uma entidade representativa do setor empresarial, foi vista como um ataque direto ao Sistema Único de Saúde (SUS). Acontece que a proposta não é novidade. Quem diz isso é José Sestelo, vice-presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco). Nessa entrevista, ele explica por que ficou surpreso com a reação suscitada pelo evento da Febraplan, entidade recém-fundada, cujas propostas não trazem nada de novo em relação à agenda que as entidades empresariais da saúde vêm defendendo e promovendo desde pelo menos 2013. Esse foi o ano de publicação do chamado ‘Livro Branco da Saúde’, encomendado pela Associação Nacional dos Hospitais Privados (ANAHP) a uma empresa de consultoria espanhola para propor mudanças no sistema de saúde brasileiro. Mudanças que, segundo ele, tenderiam a aproximar o sistema de saúde brasileiro ao dos Estados Unidos, onde o sistema público só atende aos muito pobres e aos idosos, e onde o gasto em saúde em relação ao PIB é o maior do mundo, chegando a 18%.

Nesta entrevista ao jornalista André Antunes da Escola Politécnica Joaquim Venâncio/Fiocruz, Sestelo defende que o Movimento Sanitário precisa se apropriar das propostas que têm sido defendidas pelos empresários da saúde, até para que consiga pautar sua ação política na defesa dos princípios que regem o SUS.

sábado, 24 de março de 2018

Jairnilson Paim: uma leitura sobre os 30 anos do SUS


Professor da UFBA participou do lançamento do Outra Saúde no Fórum Social Mundial


Um balanço dos 30 anos do Sistema Único de Saúde (SUS). Esse foi o tema da exposição de Jairnilson Paim, professor do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (ISC/UFBA), durante o lançamento do Outra Saúde. A conversa aconteceu no dia 15 de março no Fórum Social Mundial, em Salvador. Uma das vozes mais icônicas da reforma sanitária, Paim retomou os projetos políticos que deram origem ao SUS e alertou para os diversos movimentos de mercado que o ameaçam, cada vez mais. Para ele, os interesses privados estão se entranhando no DNA do SUS e a reação só será possível com unidade das esquerdas e muita investigação sobre o que consiste essa pressão empresarial que desarticula o pacto social firmado no país em 1988. “Acho que essas mudanças começam com iniciativas como esta que está sendo inaugurada neste evento – e os 30 anos do SUS podem ser um disparador que articule as diferentes determinações dos fenômenos que estamos vivendo hoje”, disse.

Jairnilson relembrou os marcos de 20 e 25 anos do Sistema Único, ocasiões em que foi convidado a fazer balanços semelhantes. Há dez anos atrás, disse, ele comparou o movimento político, social e acadêmico que ficou conhecido como reforma sanitária brasileira à frase atribuída ao cientista Galileu Galilei, quando, a caminho da forca, se negou a concordar com seus algozes contra as evidências científicas de que o Sol não girava em torno da Terra, mas o contrário. E, no entanto, se move, Galileu disse.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Boas novas!!! Projeto Acervo dos Sanitaristas será lançado este ano



O presidente do Conasems, Mauro Junqueira, o vice presidente, Willames Freire e o diretor Hisham Hamida visitaram nesta quinta-feira (8) o acervo que está sendo organizado em parceria com o Núcleo de Estudos em Saúde Pública da Universidade de Brasília (NESP/CEAM/UnB). O lançamento do acervo está previsto ainda para esse semestre.


Iniciado em novembro de 2017, o Acervo dos Sanitaristas tem como objetivo recuperar, organizar e disponibilizar, em repositório digital, acervos doados por grandes nomes do Movimento da Reforma Sanitária brasileira ao NESP. O projeto é uma iniciativa do Núcleo de Estudos em Saúde Pública do Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares da Universidade de Brasília (NESP/UnB) em parceria com o Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (CONASEMS) e com a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS).

O projeto prevê a recuperação da história dos professores Gilson Carvalho, José Ênio Duarte, Nelson Rodrigues dos Santos, Guido Carvalho, entre outros. A Reforma Sanitária, Atenção Básica, Financiamento da Saúde, Conferências Nacionais de Saúde e relatos de importantes reuniões são temas de muitos documentos doados, dentre eles estão correspondências, ofícios, jornais, revistas, cartas, e anotações pessoais.

Além da recuperação e organização do acervo, também está sendo elaborado um portal onde será possível consultar todo o material digitalizado, tanto por título, assunto, autor ou pesquisa por formato como jornais e revistas.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Entidades integrantes do Fórum da Reforma Sanitária Brasileira divulgam: Carta aberta sobre a Febre Amarela no Brasil

Dirigida às autoridades sanitárias do Ministério da Saúde, das Secretarias Estaduais e Municipais de saúde e à sociedade brasileira
 

O aumento do número de casos e de mortes por Febre Amarela registrado nas últimas semanas em Minas Gerais, Espírito Santo, Bahia, São Paulo e Distrito Federal está preocupando e causando insegurança na sociedade devido à gravidade desta doença e do risco de sua urbanização.

Sabe-se que uma extensa epizootia, epidemia em macacos suscetíveis a doença, vem acontecendo, simultaneamente, em vários estados brasileiros, em áreas próximas a cidades densamente populosas. Os atuais surtos de Febre Amarela têm sido atribuídos a pessoas picadas por mosquitos que vivem em áreas de mata, a Febre Amarela silvestre.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Portaria do Ministério da Saúde que dá autonomia a gestores locais desestrutura o SUS



A Portaria nº 3.992 do Ministério da Saúde, publicada dia 28 de dezembro de 2017, que reduziu de seis para dois blocos de financiamento do Sistema Único de Saúde (SUS) – um de custeio, que concentra a quase totalidade dos recursos federais, e outro de investimentos - fragmenta e desfigura o sistema ao flexibilizar o uso das verbas da Saúde na ponta, o que pode comprometer a manutenção e a ampliação dos serviços de atenção básica e de vigilância sanitária.
Esse é o alerta dos sanitaristas ouvidos pelo blog do CEE-Fiocruz, que destacam, entre outros prejuízos, o enfraquecimento do Ministério da Saúde como indutor de políticas estruturantes do SUS e a redução de seu papel a mero repassador de recursos aos estados e municípios. Uma medida, acreditam eles, que alivia as pressões de prefeitos e governadores por mais recursos sobre o Governo Federal, submetido à política de ajuste fiscal, e expõe os gestores locais à ação de lobistas da indústria farmacêutica e de procedimentos. Nesse quadro, eles anteveem a queda dos níveis de investimento na atenção básica e na vigilância sanitária que, desde a criação dos seis blocos, pela Portaria Nº 204, de 29 de janeiro de 2007, vinham sendo ampliados.

Para ler a íntegra das análises dos sanitaristas sobre a Portaria 3.992/2017, clique nos links abaixo.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Cai a ficha da Reforma Sanitária

Conjuntura marcada por austeridade fiscal, contrarreformas e crise política provoca o movimento que idealizou o SUS a se repensar para que bandeiras históricas encontrem novamente eco na sociedade brasileira
Novas e velhas entidades e militantes da Reforma Sanitária se reúnem para traçar agenda comumFoto: Elpídio Jr.
"A esperança somos nós... e os outros; porque só nós somos muito poucos". A frase é de Gastão Wagner, presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), e sintetiza o momento atual da Reforma Sanitária. Em um país onde crise deixou de ser exceção para se transformar em fato do cotidiano, o movimento que lançou as bases para a criação do Sistema Único de Saúde (SUS) parece ter decidido que chegou a hora das verdades inconvenientes se o objetivo é barrar os retrocessos que atacam a democracia e os direitos sociais.
"Nós, preocupados em reproduzir a cultura do SUS, criamos a igreja do SUS. Sim, porque uma pretensão política e histórica que se nutre somente de uma doutrina e de princípios vira igreja. Quem conhece, se apaixona: é o SUS ideal. Mas o resultado disso é que só conseguimos falar para iniciados", disparou, por sua vez, Amélia Cohn, professora aposentada da Universidade de São Paulo (USP) e um dos muitos quadros históricos da Reforma Sanitária que criticaram os rumos pelos quais enveredou o movimento ao longo do Congresso de Política, Planejamento e Gestão da Abrasco, que aconteceu no início de maio em Natal.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Debate: os efeitos e repercussões atuais dos projetos do legislativo brasileiro na saúde pública

Professores debatem sobre o SUS no legislativo brasileiro

na página do CONASS


Três atores fundamentais na trajetória da reforma sanitária e na institucionalização do Sistema Único de Saúde vão fazer uma reflexão crítica sobre os efeitos e repercussões atuais dos projetos do legislativo brasileiro na saúde pública. O debate acontece no dia 29 de maio de 2015, às 10h, no auditório do Instituto de Medicina Social - IMS, da UERJ.


Os debatedores são os professores Eduardo Levcovitz, representante da OPAS/OMS no Uruguai, Gastão Wagner de Sousa Campos, professor titular do Departamento de Medicina Preventiva e Social da Unicamp e Ana Maria Costa, presidente do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (CEBES). O tema da mesa é Legislativo Brasileiro (PEC 451 e PL 4.330): O SUS passado, presente e futuro.


O debate será coordenado pela professora adjunta do IMS/UERJ e líder do Grupo de Pesquisa LAPPIS, Roseni Pinheiro. Segundo ela, a universidade tem um papel fundamental na definição clara de um horizonte ético-politico para a condução das atividades. “É com muita honra que eu coordeno este debate. O IMS, na UERJ, tem uma história de contribuição incessante para a consolidação da reforma sanitária brasileira e tem sua implicação em fazer a crítica reflexiva sobre este tema que hoje me parece candente e requer da gente um posicionamento”, afirma a professora.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Por um SUS de todos os brasileiros! - Propostas do Movimento da Reforma Sanitária para debate nacional

O Movimento da Reforma Sanitária Brasileira, integrado por várias entidades que atuam historicamente em defesa da saúde coletiva no Brasil, conclama a sociedade para a discussão e defesa das seguintes propostas: 

1. Construir coletivamente um projeto nacional para o país, que promova a inclusão, que considere a saúde como direito humano fundamental e que reforce o papel do Estado na promoção de políticas e serviços públicos universais de qualidade. 

2. Promover as reformas inadiáveis: Reforma do Sistema Político, com fortalecimento dos mecanismos de democracia participativa, controle social do processo eleitoral e financiamento público de campanhas; Reforma Tributária que recupere os princípios da justiça fiscal – equidade, capacidade contributiva e progressividade – e que considere a tributação como instrumento de diminuição das desigualdades sociais; e Revisão da Lei de Responsabilidade Fiscal com relação ao limite da despesa de pessoal com saúde. 

3. Reafirmar o Sistema de Seguridade Social Brasileiro, com valorização do orçamento da seguridade e ampliaçãodos recursos destinados à saúde, o que requer a aprovação imediata do projeto de lei de iniciativa popular que destina 10% da receita corrente bruta à saúde e o fim da Desvinculação das Receitas da União (DRU) para o orçamento da Seguridade Social. 

4. Extinguir os subsídios diretos ao setor privado e rever os gastos tributários e incentivos fiscais a planos de saúde, indústria farmacêutica e hospitais filantrópicos não-universais; efetivar o ressarcimento ao SUS, toda vez que clientes de planos de saúde forem atendidos na rede pública. 

5. Responsabilizar os gestores federal, estaduais e municipais na efetivação da regionalização e das redes de atenção à saúde, reforçando a atenção primária resolutiva, garantindo o diálogo entre usuários, trabalhadores e gestores do SUS; integrar os serviços de saúde, diminuindo filas e tempos de espera e garantir a continuidade do cuidado. 

6. Adotar irrestrito caráter público nos mecanismos de gestão e contratação de prestadores de serviços, superando as já fracassadas terceirizações e outras lógicas privatistas. 

7. Adequar a formação em saúde às necessidades do SUS, tornando todos os serviços de saúde espaços de formação e educação permanente, e implantar carreiras públicas de base municipal, regional ou estadual, fortalecendo o trabalho em equipe multiprofissional. 

8. Promover o desenvolvimento e a incorporação de tecnologias com base nas necessidades de saúde da população, além de uma política industrial nacional que contribua para a redução da dependência da importação e ampliação do acesso a medicamentos, equipamentos médicos, kits diagnósticos e insumos. 

Junte-se a nós, por um Brasil mais igualitário e mais justo, por um sistema público de saúde com garantia de direitos a todos os brasileiros. 

Vitória, 03 de junho de 2014 

ABRASCO – Associação Brasileira de Saúde Coletiva 
ABRES – Associação Brasileira de Economia em Saúde 
AMPASA – Associação de Membros do Ministério Público em Defesa da Saúde 
APSP – Associação Paulista de Saúde Pública 
CEBES – Centro Brasileiro de Estudos de Saúde 
IDISA- Instituto de Direito Sanitário Aplicado 
REDE UNIDA – Associação Brasileira Rede Unida 
SBB – Sociedade Brasileira de Bioética

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

A saúde em tempos de dominação do capital financeiro

Ana Maria Costa e José Antônio Sestelo: “A presidenta Dilma tem ouvido os empresários em vários momentos ao longo do último ano, mas nunca abre as portas àqueles que estudam o setor e são comprometidos com o direito universal à saúde. Ao contrário, são desqualificados nos debates com representantes do governo “

por Ana Maria Costa e José Antônio Sestelo, especial para o Viomundo


O Brasil rompe o ano de 2015 dando posse ao segundo mandato de Dilma. Em seu programa de governo para a área de saúde, omissões e silêncios já apontavam dúvidas sobre a intenção de defesa de um projeto mais comprometido com um modelo de desenvolvimento pautado nos direitos sociais e menos submetido aos interesses de acumulação privada do “mercado”.

As medidas e iniciativas governamentais acionadas nesse primeiro trimestre, embora não se possa dizer que são incoerentes com o programa de governo apresentado, frustram o Movimento Sanitário – que se engajou, na sua maioria, pela reeleição – e o coloca em posição crítica.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

"Saúde" de Aécio está precária


Do site Minas Sem Censura reproduzido no Blog do Miro


Aparte ao senador.

O senador Aécio Neves desistiu de se licenciar do Senado. O bloco parlamentar Minas Sem Censura se mantém, portanto, em sua atribuição e prerrogativa institucionais de debater as ações do senador para o Brasil e sua incidência nas Minas Gerais.

No dia 5 de agosto, Aécio falou na sede regional da Associação Médica Brasileira, na capital federal, sobre suas ideias para a saúde.Vale lembrar algumas:

Ele disse que vai criar a “carreira nacional” dos médicos (que é diferente da Carreira de Estado e para todas as profissões); também declarou que não renovará o convênio com a OPAS (Organização Pan-americana da Saúde) e que a presença dos médicos cubanos tem “data de validade”, três anos. Segundo ele, se permanecerem estrangeiros no Brasil, isso seria uma política “lateral”; disse ainda que os profissionais da área (de saúde) é que serão os responsáveis pela execução das políticas públicas de saúde. (O que quer dizer isso, mesmo?).

domingo, 6 de abril de 2014

Entidades do Movimento da Reforma Sanitária fazem considerações sobre Seminário "A Saúde do Brasil".

CONSIDERAÇÕES REALIZADAS PELAS ENTIDADES INTEGRANTES DO MOVIMENTO DA REFORMA SANITÁRIA BRASILEIRA AO SEMINÁRIO A SAÚDE DO BRASIL DA FOLHA DE SÃO PAULO REALIZADO EM 26 E 27 DE MARÇO DE 2014 

ABRASCO - Associação Brasileira de Saúde Coletiva 

ABRES - Associação Brasileira de Economia em Saúde 

AMPASA - Associação de Membros do Ministério Público em Defesa da Saúde 

APSP-Associação Paulista de Saúde Pública 

CEBES -Centro Brasileiro de Estudos de Saúde 

IDISA -Instituto de Direito Sanitário Aplicado 

A pesquisa nacional do Datafolha revela a saúde largamente à frente nas queixas de necessidades e direitos não ou mal atendidos, com altíssima taxa de regular, ruim e péssimo para o sistema público (SUS) e alta para os planos privados (certamente os de menor preço, a grande maioria). Não há como discordar dos debatedores quanto à principal causa dos problemas da atenção à saúde: o agudo sub-financiamento do sistema público, expresso pela intensa e progressiva retração federal, com sua participação caindo de 74,4% em 1990 para 45,5% em 2012, obrigando os Estados e Municípios a elevarem sua participação de 13,5% e 12,1% para 25,1% e 29,3% nesse período. Este fato coloca nosso país em vexatória situação perante os Estados europeus, canadense, japonês e outros, nos quais 75% dos recursos para saúde são de origem pública, enquanto no Brasil, somente 46%, ficando o restante para os consumidores individuais, familiares e empresariais de planos privados. Este compromisso, mais republicano e civilizado, pode também ser avaliado pela proporção do PIB destinada ao financiamento público da saúde: média de 7,5% naqueles países e por volta de 3,8% aqui. 

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

O SUS e a agenda por resgatar: dois passos atrás e um adiante na reforma sanitária


Professora da UFRJ defende a necessidade de um novo rumo na política de saúde, retomando a agenda ampliada proposta pelos sanitaristas que nortearam a criação do Sistema Único de Saúde como direito universal

por Ligia Bahia(*) na Rede Brasil Atual


Em se tratando de saúde pública no Brasil, o ano de 2013 teve como principal marca o programa Mais Médicos, que graças a dupla demonstração de menosprezo de entidades médicas perante a  situação de desassistência da população e à solução encontrada de importar profissionais formados fora do Brasil, notadamente os cubanos, polarizou o debate e reduziu a agenda da saúde a um único ponto de pauta.
No que se refere ao que se denomina Movimento da Reforma Sanitária houve mudanças extensas e profundas ao longo do ano passado.  As duas principais em ordem de importância e encadeamento foram a adesão de importantes sanitaristas a políticas antirreforma e a saída de militantes da Reforma Sanitária ligados ao PT de cargos nas secretarias de governos do PSB.
A concordância tácita ou ativa de determinados militantes com a internação compulsória para viciados em crack representou  uma mudança radical nas normas implícitas de acomodação de movimentos, tendências e pessoas sob a etiqueta militante da Reforma Sanitária.  As polêmicas sobre a epidemiologia e formas de atuação dos órgãos oficiais da saúde demarcaram uma clivagem entre aqueles que se mantiveram a favor da autonomia dos cidadãos e os que se somaram ao surto de recrudescimento de um higienismo de negócios.
Os desdobramentos da inflexão de posicionamento de determinados sanitaristas podem ser facilmente identificados tanto no que diz respeito à agenda emancipatória, quanto nas ações referentes aos embates mundiais da saúde pública com a indústria, a exemplo do recuo do Ministério da Saúde em levar adiante propagandas sobre doenças sexualmente transmissíveis com  conteúdos considerados "pecaminosos" por bancadas parlamentares religiosas e permissividade e até estimulo à propaganda de alimentos infantis ultraprocessados.
Os conflitos em torno da comercialização do anoxerígeno sibutramina explicitaram, didaticamente, uma  divisão que altera a geometria dos alinhamentos progressistas versus conservadores: os dois projetos parlamentares apresentados em 2013 que questionam o uso do medicamento, proibido nos EUA  e Europa desde 2010, são do PT (deputado Candido Vacarezza) e do PSB (deputado Beto Albuquerque), então duas lideranças da base do governo. Esse novo traçado se estendeu para outras polêmicas,  desde as que envolvem o uso disseminado de agrotóxicos e transgênicos até as constantes ameaças ao reconhecimento e garantia das terras dos povos indígenas.
O fenômeno de ruptura das alianças em torno da Reforma Sanitária ficou escancarado com a manobra para reprovar o PLP 321/2013, que reuniu mais de dois milhões de assinaturas, para aumentar recursos para a saúde. Parlamentares do PT, que se autointitulam lideranças dos processos de implementação do SUS, ao relatarem o projeto propuseram a volta da CPMF (agora CSS) e a destinação de 15% em 2017 da receita líuida da União em vez de 10% da receita bruta, conforme o teor original da iniciativa popular.
O balde de água fria nas esperanças de obtenção de recursos para efetivar o SUS universal e de qualidade foi intensificado com a Medida Provisória 619 que anistiou as empresas de planos e seguros de saúde do pagamento de vultosas dívidas tributárias e as isenta na prática de pagar PIS e Cofins. Turbinar a  dinâmica de restrição e investimentos de recursos no SUS e no setor privado assistencial respectivamente resulta em uma política de saúde inexoravelmente desfavorável à Reforma Sanitária.
Certamente, o  contraponto à cristalização de um sistema de saúde segmentado e submissão da agenda da saúde a transações político-partidários também pautadas pela lógica mercadológica, veio das manifestações nas ruas. O cânone  neoliberal,  reapresentado sob a faceta da existência de uma nova classe média contra o SUS, foi fortemente questionado.
O eterno receituário  para a saúde baseado  na  resolução do problema da gestão (leia-se privatização) e focalização mostraram-se frágeis diante de imensos movimentos reivindicando saúde e educação públicas de qualidade. Contudo, a força  de um agente de mudanças tão expressivo não foi suficiente para reverter a direcionalidade das  políticas de saúde. Embora o programa Mais Médicos não obedeça à lógica, cara aos inimigos da universalização, de subsidiar a demanda e represente uma ampliação da oferta pública, não houve mudanças na modulação da política de saúde.
É preciso considerar que o movimento das ruas emergiu em um contexto de realinhamento do movimento sanitário, que mais uma vez se dividiu no apoio entusiasmado de alguns sanitaristas ao programa Mais Médicos e na ponderação de outros sobre seus  limites.
Observa-se  um gradiente de apoio ou rejeição à diversas iniciativas do governo federal com dois polos nítidos. No primeiro situam-se sanitaristas que ocupam cargos que tendem a aceitar de mau ou bom grado imposições, inclusive de natureza não técnica em temas sobre os quais as evidências científicas são abundantes. No segundo misturaram-se oposicionistas,  oportunistas e alguns agrupamentos corporativistas. Os embates entre esses posicionamentos extremos tem sido superficial e rarefeito em termos de densidade propositiva.
O projeto da Reforma Sanitária e os processos para alcança-lo tem sido omitidos ou perderam relevância em função de uma militância que parece incapaz de matizar as necessidades de saúde com a racionalidade da reprodução das máquinas partidárias.
Cabe aos muitos sanitaristas que não se identificam nem com os posicionamentos apologéticos sobre as políticas governamentais, nem com as críticas levianas, a tarefa de recompor as bases da aliança progressista responsável pela aprovação do texto constitucional e levar adiante a reflexão e a implementação da Reforma Sanitária Brasileira.
* Ligia Bahia é professora no Instituto de Estudos em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IESC/UFRJ) e integrante da rede Plataforma Política Social.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Profissão: sanitarista


na Revista Radis 

Formação, carreira e profissão. O subtítulo da mesa-redonda Graduação em Saúde Coletiva, realizada no Centro de Eventos Plaza São Rafael, já predizia quais seriam as palavras mais pronunciadas entre os cerca de 200 presentes, a maioria estudantes, que ocuparam a plateia. Eles demonstraram entusiasmo e até uma dose de idealismo, necessários aos que desejam ser sanitaristas, mas também quiseram compartilhar preocupações e esclarecer muitas dúvidas, com os especialistas que compunham a mesa.  

Existem no país 13 cursos de graduação, e as duas primeiras turmas já haviam colado grau até o momento da realização do congresso, uma da Universidade de Brasília (UnB) e outra da Universidade Federal do Acre (Ufac). Outras concluíram o curso no final de 2012. 
 

Profissão, não ‘pós-profissão’

A graduação não substitui as especializações; ajuda a criar um campo de saber específico, ressaltaram docentes e pesquisadores presentes ao debate. “São objetivos distintos. A graduação forma profissionais, sanitaristas, e a pós-graduação forma pesquisadores”, definiu Maria Amélia Veras, representante do Fórum de Pós-Graduação na área.  Jairnilson Paim, professor da Universidade Federal da Bahia (UFBa), relembrou que o debate sobre a especificidade da graduação já vem acontecendo há uma década. Hoje, segundo ele, existe razoável consenso. “Faz parte da Saúde Coletiva a dimensão política. Essa é a diferença fundamental entre Saúde Coletiva e áreas correlatas como Saúde Pública e Medicina Preventiva. Já foi construída a delimitação teórico-conceitual e epistemológica da Saúde Coletiva, e a crítica é vital para o campo”, afirmou. 

“Há uma convergência no marco teórico conceitual: formar um profissional crítico, interdisciplinar, reflexivo, voltado para o sistema público”, concordou Miriam Ventura da Silva, da UFRJ. “É uma profissão e não uma pós-profissão”, explicou Miriam, para quem o desafio agora é pedagógico. “O referencial curricular, a formação de novos docentes, a necessidade de haver disciplinas integradoras e atividades extracurriculares”, listou. As atividades de ensino e pesquisa no âmbito privado também se fazem necessárias, ressaltou.  “Além dos conteúdos programáticos mínimos, é importante agregar autonomia aos cursos e fundar o novo perfil: a profissão sanitarista”. 

Miriam lembrou ainda que o graduado em Saúde Coletiva pode escolher cursar pós e especialização em diferentes áreas, como Epidemiologia, Saúde Ambiental etc. “Estamos vivendo um momento de especialização, a busca por especialistas. Pode parecer uma fragmentação, mas isso demonstra a conformação de um campo”, reforçou. 
 

Reflorescimento

Karina Cordeiro, aluna de graduação da UFBa e representante da Coordenação Nacional dos Estudantes de Saúde Coletiva (Conesc), falou com orgulho da importância da formação de recursos humanos capazes de formular políticas públicas que promovam saúde e fortaleçam o SUS. “Alguns usam a expressão novos sanitaristas? O sanitarista que vem da graduação apenas trilha um caminho diferenciado. O que nos motiva é o desejo de modificar a realidade. Não é fácil construir uma coletividade. Estamos colocando em novos termos a construção da identidade. A formação, carreira, profissão, tudo isso está em curso no momento”, resumiu. 

Jairnilson Paim considerou que a criação das graduações trouxe vitalidade acadêmica e política. “A vinda de novos atores, gestores, alunos, coordenadores, permite um reflorescimento, não só do SUS, mas da Reforma Sanitária brasileira. Nos fóruns e outros espaços de interlocução, os alunos têm demonstrado grande vitalidade e energia. O momento é de cuidado para que não se perca a especificidade do campo. Não é para se fazer mais do mesmo, se não, não valeria a pena tanta luta”, disse.  

Maria Amélia também alertou para a necessidade de se preservar o espaço da Saúde Coletiva dentro da grade curricular de cursos e carreiras. “Não devemos descuidar”, afirmou. No âmbito das pós-graduações, ela fez um alerta também sobre a redução “ao quase desaparecimento” da residência médica em Saúde Coletiva e Medicina Preventiva. “São diferentes dos atuais programas de Saúde da Família e Comunidade”, ressaltou, enfatizando, mais uma vez, a dimensão política. 

Apesar de, para os integrantes da mesa, o balanço desses primeiros anos dos cursos de graduação ser positivo, os primeiros formandos e os estudantes mostraram ter muitas dúvidas e preocupações. O reconhecimento e a regulamentação da carreira vêm tirando o sono dos primeiros graduados, uma vez que, ao tentar se inscrever para concursos públicos no âmbito do SUS, eles vêm esbarrando em editais de seleção que exigem inscrições em conselhos corporativos (como o Coren, de enfermagem, e o CRMV, de Medicina Veterinária etc). 
 

Aflição

“Até editais para pós-graduações muitas vezes exigem inscrições em conselhos corporativos”, afirmou Laís Relvas, estudante do oitavo período, na UFRJ. Da plateia, ao final do debate, ela resumiu o que chamou de “aflição dos estudantes”. “A visão que temos é que a saúde coletiva é um movimento social. Mas precisamos resolver essas questões práticas. Turmas já se formaram. Estou aconselhando meus colegas a arranjarem bons advogados”, disse. Segundo Laís, os fóruns e encontros de estudantes têm dialogado sobre a questão, e entendem que ter um conselho próprio seria excludente. “Vamos nos preparar para a luta jurídica”, declarou. 

“Para haver regulamentação, vamos ter que inovar. O Estado brasileiro abriu mão de regulamentar muitas das profissões e delegou a função para os conselhos corporativos”, disse Jairnilson, como resposta aos estudantes.

A professora e pesquisadora da UFMG Soraya Belisário, integrante do Núcleo de Educação em Saúde Coletiva (Nescon), apresentou panorama histórico da formação do sanitarista e afirmou que a criação da graduação confere nova face a esse profissional. Conforme relembrou, a formação em saúde pública surgiu como especialização da área médica. Em meados dos anos 1950, quando a Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz) foi fundada, uma escola própria já era reivindicação de décadas e, desde o início, se estruturava de forma multiprofissional. A partir dos anos 80, segundo ela, com a política de descentralização, houve multiplicação de cursos e inflexão política na formação de sanitaristas. “A multiprofissionalidade se incorpora nesse momento crítico do sistema de saúde. Isso vai descaracterizar a profissão como especialidade exclusivamente médica”. Para Soraya, as características principais desse novo perfil profissional são a essência coletiva de seu objeto, o caráter interdisciplinar e multiprofissional e a natureza cooperada do trabalho. 

“Estamos passando por um novo processo de formação, mais diverso. É preciso formar em quantidade suficiente para suprir os quadros de todo o país. É uma ocupação de tempo integral. O que transforma uma ocupação em uma profissão é o movimento de reconhecimento. Hoje, a necessidade social da graduação é advinda da própria consolidação do SUS”, disse. Segundo ela, para que se  obtenha a devida colocação e inserção no mercado dos egressos se faz necessário um movimento junto aos gestores e ao aparelho de Estado pelo reconhecimento. “É uma luta histórica, é preciso muita mobilização e ação política, não só ação no âmbito jurídico”, concluiu.

Da plateia, a professora  Maria Lúcia Magalhães Bosi, da Universidade Federal do Ceará (UFC), pediu a palavra ao final da mesa e, em tom otimista e emocionado comentou: “Participei do Abrascão de 2002, em Brasília, e, lá, a graduação em Saúde Coletiva ainda era uma utopia. Hoje se discute algo que já está concretizado”. E continuou: “A identidade já existe, Já se tem um campo concretamente criado, de uma maneira diversa, inicialmente como pós, até se chegar à graduação. É preciso atentar para a questão da expansão”, destacou Maria Lúcia, que foi a primeira coordenadora do Fórum de Pós-graduações em Saúde Coletiva, formado em 2007, e compôs a comissão inicial de criação dos cursos de graduação da UFRJ em 2001. 

Em entrevista à Radis após o debate, Maria Lúcia afirmou que vê com preocupação a possibilidade de uma expansão rápida dos cursos de Saúde Coletiva, por efeito de indução do programa Reuni, do Governo Federal. “Hoje, temos uma dezena de cursos de graduação. Existem cerca de 65 programas de pós-graduação na área no país. O recurso [promovido pelo Reuni] tem potencial para ser um impulso de criação de novos cursos, até de uma forma apressada. Em outras áreas, como Nutrição, existem até 450 cursos em um único estado. O desafio é a expansão com qualidade”, observou, acrescentando, no entanto, que, para que haja reconhecimento da profissão, a expressão numérica é positiva”.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

O Brasil no processo de construção de uma reforma sanitária


Em entrevista exclusiva concedida ao Cebes, o Presidente da Fiocruz, Paulo Gadelha, afirma que o caminho percorrido até agora na construção do SUS demonstra a vitalidade da proposta e a necessidade de reavaliação dos passos dados até aqui.


Os anos noventa foram marcados pela forte presença dos princípios do neoliberalismo nos governos nacionais, com muito prejuízo para as políticas sociais, incluindo a saúde. Na sua avaliação, houve mudança neste panorama na década seguinte?

A promulgação da Constituição de 1988 e posteriormente a Lei n.º 8.080/1990, a chamada "Lei Orgânica da Saúde", reafirmaram os princípios da reforma sanitária democrática debatida nos anos 80, porém sua implantação colidiu com a orientação geral da política econômica e tributária da época.
Durante a década de 90, ocorreu um importante subfinanciamento do setor acompanhado de uma ênfase na descentralização que, à falta de incremento real de recursos, correspondeu fundamentalmente a uma desoneração de obrigações por parte da União. A análise da distribuição da responsabilidade pública do gasto com saúde entre as três esferas de governo, na década de 1990, mostra que a União reduziu substantivamente a proporção de sua participação no aporte de recursos para a saúde, enquanto a proporção dos gastos municipais com saúde mostrou tendência de crescimento, e o crescimento de gastos dos estados, embora menor, também foi significativo, passando de 18% para 24% no mesmo período. Se em 1990, os gastos da União respondiam por 72,7% dos gastos públicos em saúde, em 2000 caem para 59,8%.
Um dos resultados dessa retração da participação federal no financiamento do SUS é um estímulo ao crescimento dos planos e seguros públicos e privados de saúde que cobriam em 1998, vinte e cinco por cento da população brasileira.
No Ato das Disposições Constitucionais Transitórias da Constituição de 1988 (Art. 55) foi fixada em trinta por cento, no mínimo, a proporção do orçamento da Seguridade Social a ser destinada ao setor saúde. Pretendeu-se, a seguir, além de fixar em definitivo aquele percentual da receita das contribuições sociais, vincular parte da receita de estados e municípios à saúde, à semelhança da educação. A Emenda Constitucional n.º 29/2000 manteve a vinculação das receitas de estados e municípios em 12 e 15 por cento respectivamente, mas rompeu com o princípio daquela vinculação, fixando apenas o seu crescimento à variação nominal do Produto Interno Bruto (PIB).
Essa emenda, entretanto, quebrou o princípio de financiamento solidário da seguridade e dificultou acréscimos superiores à variação do PIB, transformando o que deveria ser piso em teto para o aporte de recursos federais para a saúde. Essa não é uma questão menor, pois, desde 1994, com a criação do FSE, já haviam sido subtraídos da Seguridade 20% de sua arrecadação, que se mantiveram permanentes sob a forma de DRU, recursos em quase sua totalidade destinados ao pagamento dos encargos financeiros da União.
A partir do início do século XXI o resultado dessas políticas traduziu-se na composição do gasto em saúde no Brasil. O Brasil já comprometia, em 2007, 8,4% de seu PIB com gastos com ações e serviços de saúde, situando o país nos mesmos patamares de apropriação da riqueza nacional para a saúde de países da OCDE, como o Reino Unido (8,4%), Espanha (8,5%), Itália (8,7%) e Austrália (8,9%). Evidentemente esta participação no PIB não traduz a mesma magnitude no gasto per capita, que, para 2007, registrava em Paridade de Poder de Compra, US$ 884 para o Brasil, comparados a US$ 2.671, para a Espanha, US$ 2.686 para a Itália, US$ 2.992, para o Reino Unido e US$ 3.357 para a Austrália (OECD, 2009).
Os países que optaram por sistemas universais e equitativos apresentam acentuado predomínio dos gastos públicos. Continuando com 2007 como o ano de referência, e usando alguns exemplos com os dados dos países da OCDE (OECD, 2009), vemos que a participação do gasto público foi de 84,5% na Dinamarca, 81,7% no Reino Unido, 79,0% na França, 76,5% na Itália, 71,8% na Espanha. O Brasil, com 41,7%, alinha-se com os países da OCDE com maior iniqüidade, tanto nas condições de saúde quanto no acesso e uso dos serviços de saúde, os Estados Unidos, 45,4%, e o México, 45,2%.
Outro aspecto diz respeito à repartição do gasto per capita com os cuidados de saúde. Descontados os gastos gerais, não explicitamente seletivos do setor público, como a saúde pública, o programa de imunizações, as ações de vigilância sanitária e com a alta complexidade não coberta privadamente, em torno de 15% do gasto público total, e considerando os dados da PNAD de 2003 e 2008, que identificam 25% da população como estando coberta por planos e seguros de saúde, pode-se estimar, para 2007, que os gastos per capita com atenção à saúde ficaram em R$ 480 para os que têm acesso exclusivamente aos serviços do SUS, contra R$ 1.128 para os que também têm cobertura por planos. Isto representa uma flagrante infração distributiva.
Se este quadro denotava graves distorções, construiu-se uma agenda de financiamento público para a saúde centrada em três eixos: a definição clara do que se constituem despesas em saúde, a cobrança do cumprimento da proporção da receita para cobertura dessas despesas a Estados e Municípios, particularmente aos primeiros, e, em terceiro lugar, o aumento dos recursos da União aplicados em ações e serviços públicos de saúde. Essa luta voltou a ganhar força com a extinção da CPMF. Discutiu-se o retorno dessa contribuição não mais como fonte substitutiva, mas como fonte de recursos adicionais para saúde. Isso tudo como parte do processo de regulamentação da EC/29. Em setembro de 2011, a Câmara Federal reduziu em muito a possibilidade de reinstituição de uma contribuição financeira dedicada exclusivamente à saúde. Este é um dos elementos centrais para a análise de que apesar de avanços significativos do ponto de vista das políticas sociais, ainda há muito que se conquistar para alcançarmos os objetivos traçados no processo de construção de uma reforma sanitária.

Neste período de consolidação dos preceitos constitucionais e da Lei 8080, os obstáculos ligados a matriz de financiamento do sistema de saúde foram centrais para a definição dos avanços possíveis. Quais seriam os principais problemas no que se refere a compatibilidade entre a implantação de um sistema universal, sua sustentabilidade financeira e a política tributária?
Aqui se tem duas ordens de problemas: a primeira na ideia da vinculação de um tributo a uma ação governamental específica. Como foi anteriormente salientado, a Constituição de 1988 buscou vincular solidariamente contribuições à saúde, previdência e assistência social. Essa vinculação foi mantida no texto constitucional quando da criação da CPMF em 1996, apesar das desvinculações impostas para cobertura das despesas financeiras do governo. Portanto, a proposta de obter uma contribuição especifica para um dos componentes da Seguridade Social só viria a agravar a fratura iniciada nos anos 1990, e acentuada quando se vincularam os recursos da folha de pagamento aos benefícios tipicamente previdenciários. Também faz pouco sentido fiscal atribuir uma vinculação entre uma contribuição e uma ação específica em tempos de simplificação tributária.
A segunda ordem de problemas, mais grave, situa-se na proporção da apropriação da riqueza nacional para gastos com ações e serviços de saúde. Oito vírgula quatro por cento do PIB já é uma apropriação generosa, quando sabemos que gastos com educação, saneamento, alimentação, segurança pública e geração de empregos apresentam com frequência maiores impactos sobre as condições de vida e saúde das pessoas (OMS, 2011). Como esse gasto é majoritariamente privado, é imperioso que se aumentem os gastos públicos com os cuidados de saúde. Por exemplo, mantida a proporção da participação para gastos em saúde das receitas da seguridade social prevista na Constituição de 1988 de 30%, mesmo depois da extinção da CPMF como fonte de financiamento, o orçamento do Ministério da Saúde teria passado dos 61,1 bilhões de reais executados, para 137,6 bilhões em 2010, o que certamente minimizaria muito os problemas de atendimento e cobertura assistencial que persistem em larga escala. Isto equivaleria aproximadamente uma elevação dos gastos em saúde em 2,1% do PIB, elevando o gasto total para 10,5% do PIB e a proporção do gasto público de 41,7 para 53,4%.
Apesar das manifestações de segmentos da imprensa e setores conservadores em relação ao peso da carga tributária, há margens para seu manejo, sobretudo em montante tão reduzido. Em primeiro lugar, o Brasil exibiu uma carga tributária bruta de 34,4% de seu Produto Interno Bruto em 2010, posicionando-o em 31º lugar entre os países, distantes daqueles mais justos socialmente – por exemplo, Dinamarca, 49%, Suécia, 48%, Bélgica 46,5%, França, 44,6%, Alemanha, 40,6% e Reino Unido, 38,9%.
A incidência de carga tributária no Brasil atinge exageradamente a folha de salários e sobre o consumo e poupa a tributação da renda, e por conta da predominância dos tributos indiretos, atinge com mais intensidade os decis de renda familiar mais baixa. A progressividade que poderia ser obtida através dos impostos sobre a renda é bastante limitada no Brasil pelo pequeno número de alíquotas e pelo percentual de incidência da alíquota máxima (27,5%).
Ainda há gastos que dizem respeito à justiça tributária e que não são contabilizados no gasto total com saúde. São conhecidos como subsídios ou renúncia fiscal, isenções e abatimentos. Um dos tipos de subsídio são as desonerações fiscais, que são os gastos públicos indiretos, assim denominados por serem contabilizados como gastos públicos sem terem sido realizados pelo Estado, mas por ente privado, como os gastos que permitem dedução do valor do tributo a pagar por empresas e famílias, ou mesmo descontos tributários, sob o argumento de beneficiar determinados setores. O fato é que este tipo de gasto diminui o montante arrecadado pelo Estado, ou seja, reduz a carga tributária e, portanto, o que seria a receita pública caso não existisse. Portanto deveria ser profundamente analisado para avaliar se o benefício gerado corresponde ao recurso que se perde.

A Constituição elevou a saúde à condição de direito social universal. Entretanto, houve grande mudança no cenário político e econômico desde então. Diante disso, o senhor acha que tal condição ainda será possivel?
Os êxitos e desafios que movimentam as novas bases institucionais da gestão e do cuidado à saúde no país impõem uma profunda avaliação do caminho percorrido pela reforma setorial na operacionalização do direito à saúde nos últimos vinte anos, como preparação para um novo investimento político e institucional no desenho de inovações capazes de lidar com os problemas que se acumulam na gestão do Estado Federal Brasileiro nesta década.

São necessários atores estratégicos para o sucesso na implantação de uma política de saúde que faça cumprir a universalidade e equidade inscritas no texto constitucional. Mas os atores estratégicos para este processo não vêm sendo, há tempo, nem a classe trabalhadora organizada (que demanda planos privados e os trata como objeto de negociação trabalhista pelos sindicatos junto às grandes empresas industriais), nem os profissionais de saúde (que buscam aumentar a produção destinada ao demandante que paga o maior preço, portanto não o SUS, mas os planos privados). Os próprios servidores públicos, tanto civis como militares, e seus dependentes têm uma assistência exclusiva para eles e em parte financiada com recursos públicos o que constitui um desvio para qualquer melhora do SUS, pois enquanto estiverem protegidos de outra forma que o SUS, toda sua atuação em prol deste sistema se daria por ideologia, compaixão ou amor ao trabalho, mas não por ser o sistema que queiram usar para si ou para os seus. Esses atores fazem parte da nossa sociedade, cuja ambiguidade em relação à universalidade na proteção social nada mais é que o espelho da segmentação da sociedade brasileira.
A política de saúde deveria ser reorientada para interferir em prol de uma proteção social que defenda os interesses públicos, baseada em princípios solidários. Para isso é preciso uma política que proteja os objetivos do SUS, mesmo que mantenha híbrido o sistema de saúde brasileiro (pois existe espaço para a oferta de forma privada dos serviços que são demandados, mas não oferecidos pelo sistema público e, como nenhum sistema de saúde é capaz de oferecer todo e qualquer procedimento, o mix público-privado é inexorável a todos os sistemas de saúde), mas tornando este sistema mais voltado para responder às necessidades de uma proteção social solidária e menos desigual.
Nesse sentido, considero que o caminho percorrido até agora na construção do SUS, demonstra a vitalidade da proposta e a necessidade de estarmos sempre reavaliando os passos dados, buscando principalmente maior eficiência dos programas implantados, aumentando a integração com outras políticas setoriais obtendo com isso a elevação da intersetorialidade e a efetividade das políticas sociais. Do mesmo modo, trazer a saúde para o centro da discussão sobre o desenvolvimento do país também traz benefícios concretos, pois dessa forma passamos a construir outro olhar para o setor como gerador de emprego e renda, além de tratarmos da necessidade da redução da forte dependência externa com os investimentos no complexo produtivo da saúde. Todas essas contribuições fazem parte do processo de consolidação do direito universal à saúde.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Ana Maria Costa: "SUS, que foi concebido para ser universal, de qualidade e único, hoje não é nem universal, nem de qualidade e nem único."

no Brasil de Fato

Para presidenta do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde, Ana Maria Costa, sociedade deve se mobilizar pelo fortalecimento do Sistema Único de Saúde

Integrantes do Sindicato dos Médicos (DF) fazem vistoria no Hospital
Foto: Marcello Casal/ABr
A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) anunciou, em 10 de julho, a suspensão de 268 planos de saúde comercializados por 37 operadoras. O motivo foi o desrespeito aos prazos máximos de atendimento aos usuários, conforme a Resolução Normativa 259 da ANS.
As empresas terão até setembro para se adequarem aos prazos que variam conforme a especialidade médica. Para as consultas básicas, o cliente deve esperar no máximo por sete dias úteis para conseguir o atendimento. Para outras especialidades o prazo é 14 dias e para procedimentos de alta complexidade, 21 dias.
A suspensão foi motivada, segundo a ANS, pelo número de reclamações de usuários que chegaram ao órgão. De 19 de março a 18 de junho, foram 4.682 queixas por causa do não cumprimento dos prazos.
O crescimento do setor privado de saúde e, sobretudo, sua má qualidade, são preocupações de especialistas e defensores da saúde pública. Para a médica e presidenta do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes), Ana Maria Costa, não se pode mais falar em apenas um sistema único hoje. “A sociedade brasileira não pode mais fingir que nós temos um sistema único. O sistema já não é único. O sistema privado hoje cobre uma parcela de acima de 30% da população”, afirma.
O crescimento dos planos de saúde privados avança. Segundo o último Caderno de Informação da Saúde Suplementar da ANS, o primeiro trimestre de 2012 encerrou-se com o registro de 47,9 milhões de vínculos de beneficiários a planos de assistência médica. Em dezembro de 2000, esse número era de 30,7 milhões.
Em 2011, o mercado dos planos de saúde teve um faturamento de R$ 83,4 bilhões, o que representa um crescimento de 11,7% quando comparado a 2010. Na avaliação de Ana Maria, é preciso frear, com urgência, o crescimento da saúde privada, principal responsável pela fragilização do Sistema Único de Saúde. Ao mesmo tempo, ela reforça a necessidade de voltar as atenções à saúde pública, por meio de mais investimentos. Em entrevista ao Brasil de Fato, Ana Maria fala sobre a mercantilização da saúde e seus riscos para a sociedade. A presidenta do Cebes faz ainda uma crítica aos governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff: “Do ponto de vista da saúde não andamos para frente. Em alguns aspectos, andamos para trás”.


Ana Maria Costa - Foto: Arquivo Pessoal
Brasil de Fato – Como você analisa a questão da saúde pública no Brasil hoje?
Ana Maria Costa – De uma forma geral, nós andamos em um terreno muito preocupante atualmente porque o Sistema Único de Saúde, que foi concebido para ser universal, de qualidade e único, hoje não é nem universal, nem de qualidade e nem único. Tivemos um grande crescimento do setor privado de saúde, da mercadorização da medicina, e uma transformação do nosso sistema único em um sistema que tem baixa qualidade, destinado para uma população que não pode pagar plano privado. Nesses 24 anos de implantação do SUS, houve um recuo grande do Estado em relação ao financiamento do SUS e uma ausência na regulação efetiva dessa relação público-privado. É muito preocupante nossa situação hoje, e não é por conta do SUS, que é uma proposta que surge em um contexto muito positivo, fruto de uma grande mobilização popular.
É uma pena que a grande imprensa contribua tanto para destruir, no imaginário da população, o valor real e simbólico do Sistema Único de Saúde. Prevalece toda uma lógica de mostrar o lado perverso e ruim do sistema. Não que deva ser escondido, mas esquecemos de valorizar o que há de positivo. Nós precisamos tratar a coisa pública como coisa de nós todos, como direito universal. Nós temos esse grande problema, na cultura política brasileira, de desprezo à coisa pública. E o SUS tem suas excelências, como procedimentos de alta complexidade, tratamento de câncer na rede Inca (do Instituto Nacional do Câncer), tratamento de aparelho locomotor na rede Into (do Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia), grande volume de transplantes, de pesquisa. Todas essas excelências não são valorizadas.
O SUS está sendo sangrado também por judicializações, em que pessoas ou famílias ganham o direito de ter acesso a medicamentos e tecnologias que são caríssimos e que nem sempre são ainda registrados no país. Normalmente as pessoas que têm acesso a esses processos judiciais são pessoas que não têm dependência única do Sistema Único de Saúde, mas ao invés de pedir e reclamar para os seus respectivos planos de saúde reclamam o acesso a essas drogas pelo SUS.

Quais os principais problemas do Sistema Único de Saúde?
O principal problema hoje é o Estado brasileiro definir qual é a relação real que a saúde pública tem com a saúde de mercado. A sociedade brasileira não pode mais fingir que nós temos um sistema único. O sistema já não é único. O sistema privado hoje cobre uma parcela de acima de 30% da população. A nova classe média tem uma aspiração imediata e é estimulada, pela baixa qualidade do sistema único, a ingressar no sistema privado. O sistema privado, cuja lógica é a mercadorização da saúde, é um sistema perverso porque caminha autônomo. Agora tivemos um primeiro lampejo da regulação com essa punição a planos de saúde, que desobedeceram normas de tempo de acesso a determinados procedimentos de saúde, mas ninguém mexe no coração da ferida.
Essa luta pelo direito à saúde, que configurou a criação do SUS, precisa ser introjetada na sociedade brasileira. E esse é um grande problema porque nós não temos hoje uma força e uma pressão social que ampliem a simpatia pelo SUS, ao contrário. E a qualidade do sistema privado não é diferente do sistema único. Quando um paciente chega em um hospital e é atendido pelo plano de saúde, para qualquer procedimento, a primeira coisa que o hospital faz é saber se tem garantia de quem vai pagar aquilo. Se o paciente chega em um hospital do SUS, o procedimento que vai ser feito é o necessário, o que a doença e o estado de saúde requerem naquele momento. Esse exemplo é a expressão do que é a medicina mercadorizada e do que é a medicina como um direito humano. Nós temos, por exemplo, uma das maiores mortandades maternas do mundo. Ocorre muita morte materna no Brasil por negligência, por falta de qualidade na assistência, e não é no Sistema Único de Saúde, é no sistema privado. Por que não se fala sobre isso?
Outro problema gravíssimo é que nós não temos nenhum partido político hoje no Brasil, nem de esquerda, nem de centro, nem de direita, que tenha uma proposta clara e objetiva e que lute por ela no Congresso Nacional. Nós temos uma ausência de compromissos com a saúde absoluta no campo político brasileiro. A saúde é uma demanda popular que aparece nas grandes pesquisas de opinião pública e que não está nos programas eleitorais. A saúde não vai pra pauta. E eu não falaria sobre atraso. Nós temos hoje uma força política, muito grande dentro do Congresso Nacional, que defende e que está lá para defender os planos privados de saúde e que são contra o sistema único de saúde. Precisamos começar a mostrar essa irresponsabilidade das autoridades com a questão da saúde.

A que se deve o esforço desses parlamentares em defender os interesses dos planos privados?
Tem um número expressivo de deputados federais e de senadores que tiveram suas campanhas financiadas por planos privados de saúde. Isso fala por si. Como é que um plano me financia e eu vou falar daquele plano? O que nós queríamos, com a regulamentação da Emenda 29, era melhorar um pouco o financiamento da saúde, que estaria longe ainda do ideal. Perdemos porque interessa, a esse setor, que o SUS se mantenha nesse estágio, sendo cozinhado para ser um sistema de baixa qualidade. E nós caminhamos para isso.

Como avalia a atuação do governo Dilma em relação à saúde?
Primeiro eu gostaria de me identificar como uma pessoa que votou na Dilma e também no Lula. Mas quero dizer que, na saúde, não tivemos grandes avanços. Houve avanços importantes na assistência social, políticas sociais que realmente foram objeto da atenção desses últimos três governos, de Lula e Dilma. Todo esse conjunto das políticas compensatórias sem dúvida teve um grande benefício para o Brasil, a despeito dessa mobilidade social ter sido direcionada para o consumo, o que nos preocupa muito, especialmente porque nesse bolo também está o consumo por planos privados de saúde. Entretanto, do ponto de vista da saúde não andamos para frente. Em alguns aspectos, andamos para trás.
Em termos de financiamento, o veto que ocorreu à aprovação da regulamentação da Emenda 29 expressa claramente isso. Houve toda uma manobra de governo, junto a sua base política, para que não atingíssemos um percentual de investimento público mais adequado em saúde.
Do ponto de vista programático, nós estamos tendo uma gestão, atualmente, que usa a saúde como objeto de marketing político. Nós já não temos mais políticas para grupos sociais, como o caso das mulheres. Temos o programa Rede Cegonha [programa do Ministério da Saúde voltado para o atendimento de gestantes] que, além de infantilizar e colocar as mulheres em uma situação bastante inferior, porque nos faz acreditar em cegonhas, nos reduz a uma demanda em saúde que é pontual. Precisamos encarar, nesse aspecto de uma saúde voltada à gestação e ao parto, a importância da sociedade brasileira debater a legalização do aborto, que mata um volume cada vez maior de mulheres no nosso país. Mas nós temos ainda um governo completamente atolado de compromissos políticos, com suas bases, que não permite avançar nesse debate. Isso é também uma perda para a saúde.
O grande problema que traduz a falta da prioridade política do governo é a questão do financiamento. Ora, nós temos um sistema de saúde feito para 200 milhões de habitantes com o menor gasto per capita do mundo. Não tem nenhum outro sistema, mesmo não sendo universal, que tenha um gasto per capita tão baixo. Comparativamente entre os gastos público e privado com saúde em geral, o público é de menos de 40%. E os 60% restantes as famílias é que estão despendendo, que vão às farmácias comprar medicamentos e que pagam um plano privado.
Agora estamos, mais de 50 entidades, reunidas em um movimento nacional em defesa da saúde pública, colhendo assinaturas por um projeto de lei de iniciativa popular, para que o Estado invista 10% da renda bruta da União em saúde. Isso mostra que a avaliação não é exclusiva do Cebes; a Associação Médica Brasileira, a Ordem dos Advogados do Brasil, a Abrasco, o Conselho Nacional de Saúde, vários sindicatos, várias entidades do campo dos direitos sociais. Estamos todos envolvidos na busca de maior financiamento. Usuários de planos de saúde fazem inúmeras queixas contra os planos de saúde, mas parece que nem as resoluções da ANS têm efetividade.

O que garante essa blindagem às empresas?
Primeiro, nós temos uma cultura de regulação muito fraca no nosso país. O setor privado sempre mandou e desmandou aqui. E a ANS sempre foi muito ambígua em relação à sua função. É muito recente a vocalização da insatisfação dos usuários dos planos de saúde e, como isso, começou a ter muita presença na imprensa, pressionando a ANS para uma resposta. Tem tido algumas respostas tímidas ainda, mas antes tem que mexer no eixo principal, que é essa relação público-privado. Eu queria uma relação que não fosse mediada por esse grande desfalque, que é feito no SUS, com a renúncia fiscal. Tudo que você gasta com saúde hoje é abatido integralmente no seu imposto de renda. Essa renúncia fiscal é uma sangria para o SUS. Já pensou o impacto que seria se esse dinheiro fosse todo investido no Sistema Único de Saúde? Nós teríamos um financiamento muito maior, que poderia qualificar muito mais esses serviços. Nós também não podemos deixar de pensar o fluxo de recursos públicos que vão para o setor privado sob a forma de pagamento de planos de saúde para o funcionalismo público.

Na sua avaliação, o que é mais grave hoje, a falta investimento para o SUS ou melhor aplicação dos recursos já existentes?
Essa é uma pegadinha em que não podemos cair. Houve um discurso muito grande de que nós investimos mal, gastamos mal, gerenciamos mal. Eu não descarto isso. Mas eu acho que esse discurso é falacioso para esconder o verdadeiro problema do Sistema Único de Saúde. Quando eu vejo o gasto público per capita hoje no Brasil para construção do SUS [estimado em cerca de 317 dólares por habitante, segundo a OMS], eu diria que o SUS faz milagre com o dinheiro que tem – milagre de gestão, aplicação, funcionamento. A questão fundamental hoje é pensar em um investimento per capita maior para a saúde no nosso país.

No caso das mulheres, quais as questões mais urgentes a se resolver hoje?
Nós, mulheres, não somos sujeitos tão simples. Somos sujeitos complexos porque somos adolescentes, adultas, velhas, temos cor diferente, escolhas sexuais, condições sociais, econômicas, diferentes entre nós. Essa nossa complexidade não pode ser resolvida com simplificação. Temos que observar todas as doenças crônicas que estão hoje relacionadas às mulheres, doenças cardiovasculares, doenças sexualmente transmissíveis, saúde mental. As mulheres são grandes usuárias de antidepressivos e nem sempre bem indicados. Mulheres negras têm mais risco em relação a determinados problemas de saúde, indígenas têm outros riscos, lésbicas outros. Temos que refinar esse olhar para tentar ampliar e dar conta de todas essas demandas e não afunilar como vem sendo feito com esse programa de Rede Cegonha que se destina claramente a uma ação que interessa a marketing político e não realmente às necessidades de saúde das mulheres brasileiras. 
Pacientes aguardam atendimento em hospital público de Brasília (DF)
Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Abr
Especialistas costumam ressaltar sempre a importância da atenção primária dentro do sistema de saúde. Como está o Programa Saúde da Família, atualmente?
Esse é outro desvio complicado. É claro que quando nós pensamos em um Sistema Único de Saúde integral, esse integral significa que a saúde deve ser oferecida a todas as necessidades de todas as pessoas em todos os momentos da sua vida. Isso significa dar força, sim, ao atendimento primário, mas a assistência primária não daria conta de resolver o problema que o SUS se propôs a resolver. O SUS precisa ser integral, então vai sempre prescindir de uma retaguarda de clínicas especializadas, hospitais e de toda uma rede que dê conta desse princípio da integralidade.
A atenção primária deve ser a garantia da porta de entrada das pessoas, mas não é viável que a gente tenha um sistema de atenção primária divorciado do resto. O Brasil, nos anos 1990, criou isso, uma rede de atenção primária que é absolutamente apartada do resto do processo de atendimento. Com todo o mérito que a gente tem hoje de ter Programa Saúde da Família em todo o território brasileiro, nós estamos ainda longe de resolver o problema da saúde brasileira. Um indivíduo que tem só um médico da Saúde da Família não tem nada. Ele tem que ter um médico de Saúde da Família, tem que ter a retaguarda de um otorrinolaringologista quando ele precisa, de um cancerologista, oftalmologista, de um exame laboratorial, os recursos que ele irá precisar ou que precisa para ter realmente uma atenção integral.
Agora, a saúde depende de outros fatores para além do setor. Uma sociedade ou uma comunidade expressa, no seu nível de saúde, o conjunto das políticas sociais às quais ela tem acesso – política de emprego, de renda, de moradia, porque todas essas políticas sociais geram qualidade de vida e, portanto, saúde.

O governo federal costuma alegar que faltam médicos no Brasil. Essa afirmação é verdadeira?
Há falta de médicos no Brasil, sem dúvida, mas há uma má distribuição enorme. Há uma política que não fortalece e não favorece uma melhor distribuição. A ausência de planos de cargos e salários, a ausência de políticas efetivas de fixação de profissionais no interior. Há uma necessidade de se criar, no âmbito nacional, diretrizes gerais para políticas locais que deem conta de fixação não só de médicos como de enfermeiros, para garantir o acesso universal.

Quais os avanços mais imediatos para melhorar a saúde pública no Brasil?
Imediatamente nós precisamos de um maior investimento público, de ampliação do investimento e do gasto per capita em saúde. Precisamos de compromisso político. Temos que mobilizar, nas próximas eleições, uma consciência e um compromisso popular de cobrança, dos respectivos prefeitos, pela implementação do Sistema Único de saúde. Um sistema público, de qualidade e que respeite os princípios da Constituição.