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terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

SUS em risco: A armadilha embutida na volta do auxílio emergencial

"A volta do auxílio será compensada com as “fartas economias que o governo fará no médio e longo prazo a partir da desvinculação das despesas obrigatórias” 
GUEDES,Paulo.


do Outra Saúde (via e-mail)


RISCO HISTÓRICO

A primeira parte da conta da vitória de Rodrigo Pacheco (DEM-MG) e Arthur Lira (PP-AL) às presidências do Senado e da Câmara não demorou a chegar – e, ao contrário do que se pensava, pode ser cobrada não de Bolsonaro, mas do SUS. Ontem pela manhã, Pacheco confirmou que colocará em votação na quinta-feira a PEC Emergencial. Logo depois, a Folha publicou a primeira reportagem explorando o conteúdo do relatório do senador Márcio Bittar para a proposta, enviado a lideranças partidárias na noite de domingo para uma rodada avaliação antes de ser protocolado. E lá está uma ideia que vem circulando há tempos e havia sido defendida na véspera por Lira em entrevista ao Globo: a desvinculação do orçamento, com extinção dos pisos para saúde e educação.

A cereja do bolo? A garantia de financiamento mínimo para as áreas sociais – que no caso da educação só deixou de existir em períodos autoritários, como lembra o Estadão, e no caso da saúde foi conquistada em 2000 e regulamentada a duras penas em 2012 – aparece como escambo para a reedição de algumas parcelas do auxílio emergencial.

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Rudá Ricci: "Está em curso um alinhamento dos setores empresariais para abocanhar fundos públicos da educação e saúde"

Por Rudá Ricci @rudaricci no Twitter

Bom dia. Farei um mini fio analisando como empresários, Centrão e Bolsonaro decidiram mirar nos fundos públicos da educação e saúde neste último período e o papel do Centrão na manutenção dos índices de aprovação do governo federal. Lá vai fio:



1) Postei agora há pouco uma nota de Daniel Cara em que se revela o desvio de recursos públicos do Fundeb para a iniciativa privada: quase 16 bilhões. Não se trata de uma "ajuda" ao Sistema S ou às escolas filantrópicas. Trata-se de disputa por recursos públicos pelos empresários

2) O texto de Daniel Cara informa que "Em 2019, conforme análise de dados da Receita Federal produzida por João Marcelo Borges (FGV), concluiu-se que as entidades filantrópicas e confessionais receberam 6,37 bilhões de dinheiro público (...) e o Sistema S recebeu R$ 21 bilhões."

3) Fica nítido que está em curso um alinhamento dos setores empresariais para abocanhar fundos públicos da educação e saúde. Na saúde, a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) publicou as “Diretrizes para um modelo de atenção integral em saúde mental no Brasil“

4) O documento “Diretrizes para um modelo de atenção integral em saúde mental no Brasil” é um nítido ataque aos fundos públicos da área da saúde mental. O ataque procura voltar ao passado, focando no isolamento da pessoa com sofrimento mental em hospitais. Quem ganha com isso?

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Economia pós-pandemia: o impacto da austeridade fiscal e os direitos sociais


Os pesquisadores Grazielle David e Bruno Moretti, dois dos 34 escritores que integram o livro “Economia pós-pandemia”, discutiram o impacto da austeridade fiscal junto aos direitos sociais, em debate mediado pelo jornalista Luis Nassif e transmitido pela TV GGN nesta quinta-feira, 03 de dezembro.


Conselheira do Cebes (Centro Brasileiro de Estudos de Saúde), especialista em orçamento público, mestre em saúde coletiva – economia da saúde e especialista em Bioética, Grazielle David apresenta uma análise do teto de gastos e seu impacto sobre os direitos sociais ao longo dos anos, em especial na saúde e na educação.

Segundo a pesquisadora, é comum ouvir a afirmação de que ‘não se limitou os gastos para saúde e educação, pelo contrário’. Na verdade, isso “não corresponde à realidade – nem teórica, nem legal e nem dos fatos que estamos vivendo”.

“As garantias de piso à saúde e educação eram pisos constitucionais e, quando você faz a emenda constitucional, o primeiro efeito que o teto dos gastos têm para saúde e educação é justamente alterar a forma como se calcula esses pisos”, explica Grazielle. “A gente perde a garantia de piso anterior e passa a ter uma nova regra, que passa a ser que, em 2017, seria aplicado um determinado montante em cada uma dessas áreas e, depois, esse valor que passa a ser um novo piso, não mais um piso vinculado como antigamente, mas agora o gasto de 2017 somente com ajuste da inflação ao longo dos anos”. Desta forma, não se registra um crescimento real dos gastos, e sim uma correção inflacionária.

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

A importância do SUS

no Outra Saúde (via e-mail)

Ontem, o IBGE divulgou mais dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares 2017-18. As primeiras informações começaram a ser divulgadas em abril e diziam respeito à alimentação dos brasileiros. Agora, saíram indicadores de despesas das famílias, vários deles sobre saúde

De acordo com o instituto, a despesa per capita com saúde no país foi de R$ 133,23, sendo R$ 90,91 (ou 68% desse montante) desembolsado diretamente na aquisição de produtos ou serviços. O restante – R$ 42,32, ou 31% – foi fornecido pelo Estado. Esse percentual vai a 42% quando se olha para os 10% mais pobres

domingo, 2 de agosto de 2020

Um novo SUS é possível? A resposta é sim!


Na última semana estive em Brasília e me pus a pensar, no saguão do aeroporto, “que motivos temos para não defender o SUS?”. Na ocasião eu usava uma máscara, que por sinal me apetece muito, com uma mensagem muito clara: DEFENDA O SUS. E daí surgiu o questionamento. Ninguém é a favor de filas nos hospitais, ninguém é a favor da morte de pessoa alguma, então por que ser contra a um sistema público de saúde? Por que se opor a que a população tenha amplo acesso a serviços de saúde?

O debate parece estar invertido, principalmente quando analisamos qual o anteparo que o SUS fornece ao país em tempos de crise. Trata-se de um marco civilizatório importante para o Brasil, enquanto nação e enquanto projeto de humanidade.

Os mais experientes lembram o que era precisar de atendimento nos anos 1970 ou 1980. A bandeira de defesa do SUS se levanta pelo simples fato de que não podemos retroceder. Entendo e endosso a necessidade de nunca baixarmos a guarda, mas vou além: precisamos qualificar o SUS, investir mais, agregar valor a este indispensável patrimônio nacional.

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Austeridade, a grande ceifadora

Estudo conduzido durante dez anos pelo epidemiologista britânico Michael Marmot demonstra: as políticas de contração orçamentária colocadas em prática a partir da crise de 2008 ampliaram o fosso que separa ricos e pobres em termos de expectativa de vida


Em termos de progresso social, o Reino Unido perdeu dez anos, e é nítido. Avaliada em termos de expectativa de vida, a saúde dos britânicos está se deteriorando, depois de um período em que melhorou sistematicamente ano após ano. Ao mesmo tempo, as desigualdades na saúde estão aumentando. E o que é verdade para a Inglaterra é ainda mais para a Escócia, o País de Gales e a Irlanda do Norte.

Quando a saúde de uma população não está mais melhorando, a sociedade como um todo está parada. Dados globais confirmam que o estado de saúde é um bom indicador de progresso econômico e social, de modo que o desenvolvimento de uma sociedade tende a se expressar também na melhoria da saúde de sua população. Por outro lado, profundas disparidades econômicas e sociais se traduzem em desigualdades na saúde.

A maneira como o sistema de saúde de um país é financiado e administrado é obviamente crucial, mas a saúde de seu povo não depende apenas disso. Baseia-se, de maneira mais ampla, nas condições de vida e trabalho, no gerenciamento do envelhecimento e das desigualdades na distribuição de poder e recursos. Juntos, esses fatores são determinantes sociais no campo da saúde.

domingo, 29 de março de 2020

Pandemia desnuda a Saúde falida nos EUA

País já é o epicentro do coronavírus. Não há sistema público, consultas são caríssimas e cerca de 70 milhões estão sem assistência ou com planos precários. Desastre é iminente — assim como repensar a mafiosa indústria dos seguros de saúde





“É uma gripe”, dizia Donald Trump sobre o coronavírus há menos de um mês, com essa tão própria mistura de ignorância e arrogância que lhe é característica. Desde essa singela definição até o presente momento ocorreram mais de mil mortes, 70 mil contágios e uma declaração de emergência nacional nos Estados Unidos. A propagação da pandemia exibe, como poucas vezes, os notáveis fracassos do sistema de saúde norte-americano: boa parte da população não tem seguro médico e não existe, em muitos Estados da federação, a licença de saúde no trabalho. Para completar, as dificuldades ficaram evidentes no momento de implementar os primeiros testes de coronavírus no âmbito público. Ainda que a declaração de emergência nacional pretenda estender sua aplicação aos laboratórios privados, não está claro ainda quantos norte-americanos poderiam fazer frente aos custos. Enquanto isso, os pré-candidatos democratas à presidência, Bernie Sanders e Joe Biden, buscam capitalizar os erros de Trump e de sua gestão, como plataforma para apresentar seus programas de saúde.

Nas suas primeiras aparições públicas após os primeiros casos de coronavírus no país, Trump mostrou-se cético e subestimou o alcance real da crise. O presidente, no máximo, deixou de pensar que o coronavírus era um problema exclusivamente chinês (chamou-o de “um vírus estrangeiro”) para passar a desconsiderá-lo como uma armação do partido democrata.

domingo, 22 de março de 2020

Coronavírus enterra na Inglaterra legado da era Tatcher: privatização da saúde está sendo revertida.

Em medida inédita na Inglaterra, o primeiro ministro Boris Johnson anunciou neste sábado (21) que o National Health System (equivalente inglês do SUS) nacionalizará temporariamente 20 mil hospitais, clínicas e outros estabelecimentos médicos para lutar contra o avanço do coronavírus na terra da rainha.
O setor privado de saúde na Inglaterra irá realocar todos os recursos e disponibilizar 8000 leitos e 1200 ventiladores mecânicos – o equipamento é crucial para manter vivos os pacientes afetados pelo Covid-19 em estado grave. O regime de atendimento especial desses estabelecimentos vigora a partir do dia 23 de março, noticia Andrew Gregory, editor de saúde do Sunday Times, em seu Twitter.

domingo, 8 de março de 2020

Sem licença e com boletos, mães de SP passam a deixar bebês de 1 mês na creche


Flexibilização trabalhista leva locais a se adaptarem a recém-nascidos apesar de ressalva médica
As cadeirinhas vibratórias para bebês agora são equipamento obrigatório na creche Pequenas Turquesas IV, na Vila Gilda, bairro do extremo sul de São Paulo a mais de 30 km de carro do centro. Ali, elas funcionam como uma espécie de colo eletrônico para uma leva de crianças pequenas, de poucos meses ou mesmo poucos dias de vida, que vêm chegando à rede pública paulistana.

Esses recém-nascidos que chegam ainda não firmaram a cabeça nem conseguem ainda se virar. Tampouco se sentam, nem podem comer fruta ou papinha. Mães e pais poderão não estar presentes quando eles atingirem esses marcos pela primeira vez.

São filhos de cozinheiras, diaristas, copeiras, autônomas e outras profissões que, num ambiente profissional de crescente informalidade, muitas vezes não podem desfrutar total ou mesmo parcialmente do período legal de licença-maternidade no país, de 120 dias, e dos 30 de férias.

Filhos de mulheres sem acesso a seus direitos, acabam ficando longe das mães numa etapa que médicos descrevem como "gestação externa", um período de transição do útero para o mundo que dura cerca de dois meses.

A chegada dessas crianças à rede pública foi possível devido ao atendimento de uma demanda dos pais e das mães, o aumento de vagas em creches municipais paulistanas.

Como a espera caiu, crianças que antes aguardavam meses na fila agora chegam em poucas semanas às creches (a etapa que vai de zero a três anos).

sexta-feira, 6 de março de 2020

A ameaça do coronavírus nos EUA, onde milhões não têm licença médica nem saúde pública

Tubo com papel registrando positivo para 'Teste de coronavírus' em cima de bandeira dos EUADireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionEspecialistas temem que dificuldades no acesso à saúde afetem resposta dos EUA a surto de coronavírus — representando um risco à saúde pública no país
Nos últimos dias, diante do avanço do novo coronavírus nos Estados Unidos, o CDC (Centros de Controle e Prevenção de Doenças - agência de pesquisa em saúde pública ligada ao Departamento de Saúde) divulgou uma série de recomendações aos americanos para se proteger e evitar que o vírus se espalhe, entre elas a de ficar em casa se estiverem doentes e procurar um médico.
Mas, para milhões de americanos, será impossível adotar essas medidas. Como não existe no país uma lei federal que obrigue empregadores a oferecer licença médica, muitos funcionários precisam escolher entre trabalhar doentes ou ficar sem salário — ou até mesmo perder o emprego. Além disso, sem um sistema público de saúde, muitos não têm cobertura e evitam ir ao médico por medo dos altos custos.
Em um momento em que o país já registra 11 mortes e mais de cem casos da covid-19, a doença provocada pelo novo coronavírus, e em que autoridades de saúde consideram provável que milhões de americanos sejam infectados, especialistas temem que esses fatores afetem a resposta à crise e representem um risco à saúde pública.
"Sem licença médica, as pessoas irão trabalhar (doentes) e espalhar a doença", diz à BBC News Brasil o economista Nicolas Ziebarth, professor da Universidade Cornell, em Nova York.
Ziebarth estuda a interação entre sistemas de seguridade social, mercados de trabalho e saúde pública e é co-autor de estudos que analisam o efeito de leis municipais e estaduais exigindo que empregadores ofereçam licença médica remunerada.
Segundo seu estudo mais recente, publicado neste ano, as taxas de gripe e doenças semelhantes caíram em média 11% nesses locais no primeiro ano após as leis entrarem em vigor. Ziebarth acredita que a correlação entre acesso a licença médica e taxas de infecção também vale para o coronavírus.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Defensoria pede que Governo do Paraná e União informem lista de espera a pacientes do SUS


A Defensoria Pública da União (DPU) em Curitiba quer que o Governo do Paraná e o Governo Federal informem os pacientes sobre a posição na lista de espera do Sistema Único de Saúde (SUS). Na ação civil pública, direcionada à Justiça Federal, a defensoria pede que os governos utilizem um registro de todas as listas de espera de cirurgias eletivas, exames e consultas especializadas do SUS, em um único sistema. A justificativa é de que a medida traria transparência e também evitaria fraudes no sistema, como por exemplo, em esquemas criminosos nos quais pacientes são priorizados nos atendimentos, em troca de pagamentos em dinheiro.

No processo, a defensoria cita o exemplo de Santa Catarina, onde foi disponibilizado um portal para que os pacientes consultem a posição na fila e a previsão de atendimento. O pedido é, também, para que os governos elaborem um plano para redução das filas de espera de consultas especializadas, cirurgias e exames médicos com e sem urgência, em todo o Paraná, em até 180 dias. A ação também pede que o estado seja condenado a pagar R$ 50 mil ao Fundo de Aparelhamento da Defensoria Pública da União, pelas custas do processo. Entre os exemplos citados na ação está o de um paciente que há cinco anos aguarda por uma consulta de ortopedia de alta complexidade.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Uma breve história da saúde pública no Brasil: das campanhas sanitárias ao Sistema Único de Saúde

O modelo de proteção social que se construiu no Brasil ao longo do século XX até o final da ditadura militar e a promulgação da Carta de 1988 gerou um cenário de milhões de excluídos da atenção à saúde. O Sistema Único de Saúde (SUS) é uma tentativa de mudar este cenário e pensar a saúde como um direito de todos.
Por Cristiane d’Avila* no Café História
“Sem o SUS é a barbárie”. A declaração do médico Drauzio Varella em recente entrevista é desafiadora, sobretudo se contraposta ao senso comum, segundo o qual o Sistema Único de Saúde (SUS) brasileiro é ineficiente e deve ser substituído ou reduzido. Mas, afinal de contas, o que é o SUS? Quando ele surgiu? Como funciona? O que veio antes dele? Qual seu alcance e importância? Há modelo melhor? Essas são algumas perguntas que esse artigo tentará responder.
Gestado durante a ditadura militar (1964-1985), o SUS é um dos maiores sistemas públicos de saúde do mundo. Seus princípios se baseiam em uma ideia-chave: saúde é um direito de todo cidadão. Foi concebido segundo a concepção de seguridade social, ou seja, soma serviço de saúde, previdência e assistência social, e é amparado pelo Artigo 196 da Constituição de 1988, que garante acesso universal, gratuito e igualitário aos serviços para a promoção, proteção, recuperação e reabilitação dos indivíduos.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Ao contrário do prometido quando da aprovação Emenda do Fim do Mundo, gastos em Saúde e Educação caíram no desgoverno Bolsonaro

Via Outra Saúde (por e-mail)

Os gastos discricionários em Saúde e Educação caíram no primeiro ano do governo Bolsonaro. 

A queda nesses investimentos e despesas que o governo tem o poder de cortar foi de 4,3% e 16%, respectivamente, de acordo com o resultado das contas federais divulgado pelo Tesouro. 

Houve aumento real (acima da inflação) de 22,1% das despesas da Defesa em relação a 2018. 

Lígia Bahia, da UFRJ, comentou para o Estadão que a emenda do teto de gastos foi vendida pela área econômica com a argumentação de que haveria mais recursos para áreas prioritárias como Saúde e Educação – o que não ocorreu. 

Procurado pelo jornal, o Ministério da Saúde apresentou números que não são compatíveis com os do Tesouro para afirmar que executou um volume maior de despesas em 2019 do que no ano anterior. 

O Ministério da Educação não se manifestou.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

‘A intenção é de reduzir saúde e educação como direitos fundamentais’

Entrevista com a cebiana Grazielle David para a Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio da Fiocruz


Na última quarta-feira (15/01), o senador Marcio Bittar (MDB/AC), relator da Proposta de Emenda à Constituição 188/2019, que ficou conhecida como PEC do Pacto Federativo, anunciou ao jornal Folha de S. Paulo depois de uma reunião com o ministro da Economia, Paulo Guedes, que pretende acabar com os pisos mínimos destinados à saúde e à educação. O Portal EPSJV entrevistou a pesquisadora Grazielle David, doutoranda em desenvolvimento econômico e pesquisadora do Cecon/Unicamp, assessora da Red de Justicia Fiscal de America Latina y Caribe e conselheira do Centro Brasileiro de Estudos em Saúde (Cebes), sobre as principais impactos e a importância da vinculação para ambas as áreas.

O senador Marcio Bittar quer bater o último prego no caixão do SUS


ÚLTIMO PREGO NO CAIXÃO

Outra Saúde (por e-mail)



A notícia chegou no meio da tarde de ontem e caiu como uma bomba entre os sanitaristas: o senador Marcio Bittar (MDB-AC), relator da PEC do Pacto Federativo (188), pretende inserir no texto a extinção dos pisos da saúde e da educação. A confirmação foi feita à Folha após o político se encontrar com o ministro da Economia, Paulo Guedes – que desde o discurso de posse, nunca fez segredo dos seus planos de desvincular e desindexar o orçamento público, desobrigando os gestores de qualquer gasto carimbado. Mas o fato é que até Guedes já havia sido convencido por sua própria equipe que a proposta de desvinculação era radical demais e articulou a apresentação da PEC 188 sem essa proposta. 

“Se depender de mim, eu avanço e desvinculo tudo (...) A ideia de tutelar e estabelecer que tem que gastar um tanto com saúde e educação, na prática, aprovou-se (sic) ineficiente. Se fosse assim seria quase mágica. Não, você gastou mais com educação nos últimos anos e ela não melhorou. Pelo contrário, ela piorou muito”, disse Bittar ao repórter Fábio Pupo. 

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Carlos Ocké: "É uma falácia dizer que plano de saúde desafoga o SUS... transformamos o seguro social em seguro privado – algo que parasita muito mais o setor público"

Entrevista: Carlos Ocké


‘A Adaps pode reforçar a tendência de privatização da gestão’ 

O ano de 2019 foi movimentado em muitas frentes, e com o SUS não foi diferente. Ao longo dos meses, vimos o desenrolar da crise de provimento provocada pelo fim da parceria entre Brasil e Cuba no Mais Médicos, o surgimento da resposta do governo federal – o programa Médicos pelo Brasil – que, apresentado via medida provisória, foi aprovado no último momento pelo Congresso Nacional criando a controversa Agência para o Desenvolvimento da Atenção Primária à Saúde (Adaps) nos moldes de um serviço social autônomo. Assistimos também à aprovação de um novo modelo de financiamento federal para a atenção básica, que está sendo contestado pelo Conselho Nacional de Saúde e substitui o repasse por habitante por uma fórmula que leva em conta apenas o usuário cadastrado na equipe de saúde. E, ainda, à demonstração de força dos parlamentares ao estabelecerem que as emendas apresentadas por bancadas também terão execução obrigatória por parte do governo federal. Tudo isso, num cenário em que os recursos da União destinados ao SUS mínguam, ano a ano. Em 2020, todas essas novidades entram em cena. E há mais mudanças aguardando na ‘coxia’, como a proposta da equipe econômica de unificar os gastos com saúde e educação nos três níveis de governo apresentada na PEC do Pacto Federativo. No pano de fundo, persistem problemas antigos, como o baque provocado na arrecadação pelos subsídios fiscais destinados ao setor saúde. Quem analisa tudo isso para a Poli é o pesquisador Carlos Ocké, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que estuda há anos a saúde suplementar e o financiamento e acompanhou de perto muitos desses debates. Ele alerta: “A tendência é de arrocho.”



Do ponto de vista financeiro, como o SUS chegou a 2019?

Para entender o retrato de 2019 proponho que, primeiro, a gente assista ao filme – ou seja, analise como o financiamento federal vem se comportando nos últimos anos. Em 2014, a União destinou R$ 595 para cada habitante do país [em valores corrigidos pelo IPCA de 2019]. Foi o ápice desse investimento. Mas justamente no último trimestre de 2014 começou a recessão econômica e 2015 marcou o início da trajetória de queda desse valor per capita, que foi para R$ 581. Se não bastasse a conjuntura recessiva, surgiu um segundo e grave fator que deprimiu o piso mínimo. Eu falo da Emenda Constitucional 95, a EC do Teto dos Gastos, que começou a vigorar em 2018 para a saúde. E, com isso, o SUS passou de um padrão de subfinanciamento, que é histórico, para um cenário de estrangulamento financeiro, um desfinanciamento que inaugura um processo de sucateamento mais intenso do Sistema. No primeiro ano de vigência da EC 95 para a saúde, o gasto por habitante ficou em R$ 559. E, em 2019, esse valor desceu mais um pouquinho, indo para R$ 558. Então, a resposta mais curta para a sua pergunta é que o SUS chega mal a 2019. Desde a vigência da Emenda, o financiamento per capita caiu R$ 4. E nós já temos uma projeção para 2020 que mostra o filme: entre 2014 e 2020 o financiamento per capita terá diminuído nada menos do que R$ 40. E essa queda afeta a saúde dos indivíduos com a redução da oferta – seja de profissionais, insumos, remédios – e a perda de qualidade do SUS, com aumento do tempo de espera e agravamento da desigualdade de acesso.


A falácia da eficiência do setor privado na saúde: Nos EEUU mais de um terço do custo (US$ 800 bilhões!) é gasto na burocracia das seguradoras

“O cidadão está pagando dois mil dólares por ano em burocracia inútil”

No Outra Saúde (por e-mail)

MAIS DE UM TERÇO


À medida que os negócios em saúde ficam mais complexos, com várias empresas intermediando diversas transações, os custos administrativos vão crescendo e abocanhando boa parte da despesa direcionada para esse fim. 

Um novo estudo quantificou esse fenômeno no principal mercado do mundo, os EUA. Por lá, mais de um terço do custo total ficou represado na burocracia das seguradoras. Isso equivalia, em 2017, a nada menos do que US$ 800 bilhões – quatro vezes mais do que o orçamento do sistema público universal de saúde do Canadá, compara a Reuters

“O cidadão está pagando dois mil dólares por ano em burocracia inútil”, resumiu David Himmelstein, da City University of New York e principal autor da pesquisa, concluindo: “Esse dinheiro poderia ser gasto em cuidados com a saúde se tivéssemos um programa do tipo Medicare para todos”.


LEIA MAIS


More than a third of U.S. healthcare costs go to bureaucracy



(Reuters Health) - U.S. insurers and providers spent more than $800 billion in 2017 on administration, or nearly $2,500 per person - more than four times the per-capita administrative costs in Canada’s single-payer system, a new study finds.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Paulo Guedes investe contra pessoas com deficiência

Proposta apresentada por ministro atropela convenção da ONU que trata de inclusão. Propõe diminuir cotas, retira benefícios de incapacitados, sugere cortes de auxílio-inclusão – e amplia precariedade histórica no mercado de trabalho


Por Flávia Albaine, no Justificando (via Outras Mídias)

No final do mês de novembro foi apresentado, pelo atual ministro da economia, Paulo Guedes, o Projeto de Lei 6159/2019¹ aos membros do Congresso Nacional para apreciação sob o regime de urgência. Ao que nos parece, urgência para legalizar de vez o desrespeito para com as pessoas com deficiência.

De acordo com o artigo 64 da Constituição Federal, o presidente da República pode solicitar tramitação de urgência para os projetos de sua autoria. Nesses casos, a Câmara possui 45 dias para votação e o Senado mais 45 dias. Se o projeto não for apreciado dentro de tal período, poderá haver o travamento da pauta da Casa (Câmara ou Senado) em que ele estiver tramitando, impedindo que outras propostas legislativas sejam votadas. Na data de 03.12.2019 o presidente da Câmara assumiu o compromisso de que o referido projeto de lei não irá tramitar enquanto durar o seu mandato, entretanto, o pedido de urgência ainda não foi retirado formalmente pelo presidente da República.

quarta-feira, 29 de maio de 2019

Assista até o fim: 4 VERDADES QUE VOCÊ NÃO SABIA SOBRE O CORTE NA EDUCAÇÃO

no canal do Levante Popular da Juventude no Youtube


Tem muita coisa rodando por aí sobre as novas medidas que o governo Bolsonaro adotou na pauta da educação.


Fizemos a lição de casa e nesse vídeo vamos desmentir 4 das principais Fake News que rondam o tema.


segunda-feira, 13 de maio de 2019

A privatização do setor público de saúde

Sugerir que os problemas da saúde pública surgem em decorrência da gestão, apontando tão somente para a inovação no modo de gestão como solução, revela uma tendência em justificar sua “ineficiência” em virtude de dificuldades meramente gestacionais ao tempo em que ignora a decisão política de inviabilizar a saúde pública gerida e operacionalizada pelo Estado.

por por Arlene Laurenti* e German Gregorio Monterrosa Ayala** no Le Monde Diplomatique Brasil 

Nas décadas de 1970 e 1980, os sanitaristas explicitaram suas concepções teóricas acerca de um novo modelo de atenção em saúde para substituir o modelo médico-assistencial privatista. Destacaram as contradições internas do modelo em vigor e propuseram as premissas da universalidade, igualdade, integralidade, equidade, descentralização e participação popular para compor um novo modelo.

Assim, na década de 80 a necessidade de uma teoria de transição apareceu como fruto do movimento dos sanitaristas para a construção desse novo modelo que relevou e considerou também, os interesses específicos da sociedade. Entretanto, desde o início, a controvérsia sobre o ‘novo modelo’ foi um assunto confuso em virtude da desarmonia entre os interesses do projeto liberal hegemônico em vigor e o Estado, responsável pela viabilização da reforma abrangente proposta pelos sanitaristas.

A intenção de equidade, universalidade, integralidade e participação popular fica desprovida das mais elementares garantias materiais para a transformação do modelo de atenção à saúde, onde prevalece a dinâmica liberal. Nem a intenção abertamente anunciada de alguns sanitaristas que compuseram os quadros do governo a época produziu uma mudança fundamental nas estruturas que alojavam essa dinâmica. Enquanto esta proposta de reforma ampliou as possibilidades de crítica ao modelo médico-assistencial privatista, a adoção de medidas de acordo com as estratégias de esvaziamento do espaço público e da expansão do mercado na área, conduziu, e segue conduzindo cada vez, mais para a privatização com a consequente diminuição da regulação da atenção em saúde pelo Estado.