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sábado, 10 de abril de 2021

Diagnosticando o “médico bolsonarista”

A medicina vem depois disso, para ser usada como argumento de autoridade e facilitar a inoculação desta subespécie de bolsonarismo que surgiu na pandemia, o bolsonarismo clínico. 


por Wilson Gomes na Revista Cult

Dos tipos políticos mais extravagantes encontrados no fundo desse abismo em que nos encontramos, o “médico bolsonarista” é um dos mais intrigantes. O enigma começa com as duas palavras que o designam: ele é médico por substantivo, quer dizer que exerce um ofício considerado nobre em qualquer sociedade, que consiste em curar e salvar vidas; mas é também bolsonarista, por adjetivo, portanto filiado a uma atitude política que, como sobejamente demonstrado a este ponto da nossa odisseia pandêmica, coloca a identidade tribal e o fanatismo em um lugar infinitamente superior ao apreço por vidas humanas e à missão de cuidar e curar. A tensão entre o substantivo e o adjetivo parece indicar um paradoxo. Na verdade, trata-se de um oximoro, como em “claro enigma”, “som do silêncio” ou “instante eterno”. Também neste caso, o adjetivo devora, anula ou contradiz o substantivo. O “médico bolsonarista” é, portanto, uma contradição ambulante, que só a singularidade da fauna dos abismos poderia comportar.

Não se enganem supondo a superioridade do substantivo sobre o adjetivo. O “médico bolsonarista” não é um médico que também é bolsonarista, mas um bolsonarista que ganha a vida exercendo a medicina. O bolsonarismo é que o define, posto que a ele se subordina tudo o mais o que a pessoa é, como pai, amigo, vizinho e, naturalmente, profissional da área de saúde. Não terá escrúpulos de usar, por exemplo, o prestígio, a distinção e a autoridade que a sociedade lhe concede por ser médico para fazer propaganda para a sua facção política mesmo em matérias e posições que violem francamente o seu juramento e ponham em risco a saúde dos seus pacientes, pois ele é primeiro um missionário de uma crença e o soldado de uma causa. A medicina vem depois disso, para ser usada como argumento de autoridade e facilitar a inoculação desta subespécie de bolsonarismo que surgiu na pandemia, o bolsonarismo clínico. 

quinta-feira, 18 de março de 2021

Bolsonaro e Napoleão têm uma coisa em comum

Bonaparte visitando as vítimas da peste de Jafa (1799) é o título da obra de Antoine-Jean Gros, datada de 1804, e encomendada por Napoleão Bonaparte para representar um episódio da campanha do Egito. O quadro representa Napoleão durante uma cena tocante que ocorreu em Jafa, em 1799, durante a qual o general tentou elevar o moral de suas tropas, aproximando-se e tocando a ferida de um soldado.


Rogério Galindo - no Singular 18 (por e-mail)

Existe uma imagem famosa de Napoleão (aquele) tocando nas pústulas de gente com peste. Foi numa campanha pelo Oriente Médio: os soldados franceses estavam sendo assolados pela doença e o imperador apareceu numa mesquita, onde havia um hospital improvisado. Tocou nos doentes e encorajou seus homens a prosseguirem - a doença, parecia ser o recado, não era páreo para a máquina de guerra da França.

A tela sobre o tema faz parte da tentativa de tornar Napoleão um semideus. Mas por trás de todo tirano existe um lado B, como sabe quem lê um pouco de história. E Napoleão não foge à regra: na verdade, o imperador queria elevar o moral da tropa não só a golpes de coragem pessoal. Ele forçou a barra para que a ciência se dobrasse diante de suas necessidades políticas, e quis que os estudiosos mentissem na cara dura, para afirmar que a peste não era contagiosa.

A nova biografia de Napoleão, escrita por Adam Zamoyski, publicado no Brasil pela Planeta (tradução minha e da Rosiane), conta a história em detalhes. Segue um trecho:

"Ele (Bonaparte) também frequentava as reuniões do Instituto, que vinha mantendo seu trabalho durante todo esse tempo, mas em uma sessão de 4 de julho ele teve problemas quando colocou a culpa do fracasso na Síria na peste e na incapacidade dos médicos de encontrar uma cura. Ele afirmou que ao tratar a peste como uma doença contagiosa, eles haviam prejudicado o moral da tropa, e que em nome do bem geral seria melhor declará-la como não-contagiosa. Desgenettes insistiu que a integridade científica exigia que a verdade fosse dita. Bonaparte denunciou o médico e os que pensavam como ele como um grupo de teóricos enfadonhos, e Desgenettes respondeu acusando-o de ser um líder despótico a quem faltava visão, e pondo nele toda a culpa pela carnificina e pela morte durante a campanha síria."

Descrença na ciência, egoísmo, exposição dos cidadãos a vírus mortais. Todo tirano tem um lado genocida.

Quem quiser saber mais sobre o livro clica aqui.

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Os níveis de barbárie da política brasileira foram atualizados

O encontro da intolerância religiosa com a direita brasileira produziu um novo marco de violência: contra as crianças e adolescentes, mas também contra o Sistema Único de Saúde.

via Outra Saúde (por e-mail)

CUSTE O QUE CUSTAR

O encontro da intolerância religiosa com a direita brasileira produziu um novo marco de violência: contra as crianças e adolescentes, mas também contra o Sistema Único de Saúde. O uso político do caso da menina de dez anos que engravidou começou no governo federal, se espalhou nas redes bolsonaristas até que, enfim, se converteu em palanque para deputados estaduais e vereadores. 

Tudo começa, como nota a reportagem do El País, com um vazamento – que, aliás, deveria ser investigado. No dia 8 de agosto, a criança deu entrada no Hospital Roberto Silvares, localizado na cidade onde mora, São Mateus (ES). Estuprada pelo marido de uma tia desde os seis anos, ela engravidou. Mesmo a ultrapassada legislação brasileira lhe assegurava duplamente o direito ao aborto, por ter sido vítima de violência sexual e pelos riscos físicos e psicológicos de uma gestação indesejada na sua idade. Ao invés de ter acesso ao que lhe era de direito, a criança foi exposta. Seu caso foi parar nas redes sociais da ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos.

Damares Alves começou uma campanha para pressionar a menina de dez anos a levar a gravidez forçada adiante. Prometeu ‘ajudá-la’. Não satisfeita, a ministra enviou na quinta-feira “emissários” à cidade capixaba. 

terça-feira, 26 de maio de 2020

Aos ex-amigos, cúmplices da Barbárie (texto imperdível de José Eduardo Gonçalves)

Texto publicado originalmente em seu perfil, no Facebook e, replicado no Mondolivro.

Não sei quando tudo isso começou. Quando foi que pessoas que eu gostava, convivia, conversava afetuosamente e, em alguns casos, até admirava pelo exercício talentoso de seus ofícios, se transformaram em seres irracionais, irresponsáveis e levianos, defensores de ideias autoritárias, mesquinhas, rasas , preconceituosas, medievais e, em muitos casos, até fascistas. Quando foi, afinal, que pessoas que tinham uma conduta social equilibrada e pareciam olhar o mundo pela mesma janela que você – cada um à sua maneira, claro – viraram esta coisa esquisita que já não reconheço como próxima de alguma civilidade? Em Kafka, um sujeito acorda pela manhã transformado em um inseto asqueroso. A família reunida, cada um em seu papel, mas o filho surge como uma anomalia, de um dia para o outro, sem qualquer explicação. Kafka foi muito mais fundo nessa história do que esse filme de quinta categoria ao qual estou me referindo, mas confesso que não vi como a coisa se deu, apenas acordei um dia e vi como o meu mundo anda cheio de insetos repugnantes. De radicais defensores de ideias tão obtusas quanto irresponsáveis. Também não foi assim tão de repente, a coisa vem acontecendo há um bom tempo, é verdade, mas hoje sinto como se esses bichos escrotos tivessem se consolidado à minha frente. Eu os enxergo em toda a sua pequenez.

terça-feira, 5 de maio de 2020

Artigo precioso: O Jair que há em nós

Bolsonaro é uma expressão bastante fiel do brasileiro médio, um retrato do modo de pensar o mundo, a sociedade e a política que caracteriza o típico cidadão do nosso país.

por Ivann Carlos Lago (recebi de meu amigo Michel Deolindo no Whatsapp)

O Brasil levará décadas para compreender o que aconteceu naquele nebuloso ano de 2018, quando seus eleitores escolheram, para presidir o país, Jair Bolsonaro. Capitão do Exército expulso da corporação por organização de ato terrorista; deputado de sete mandatos conhecido não pelos dois projetos de lei que conseguiu aprovar em 28 anos, mas pelas maquinações do submundo que incluem denúncias de “rachadinha”, contratação de parentes e envolvimento com milícias; ganhador do troféu de campeão nacional da escatologia, da falta de educação e das ofensas de todos os matizes de preconceito que se pode listar.

Embora seu discurso seja de negação da “velha política”, Bolsonaro, na verdade, representa não sua negação, mas o que há de pior nela. Ele é a materialização do lado mais nefasto, mais autoritário e mais inescrupuloso do sistema político brasileiro. Mas – e esse é o ponto que quero discutir hoje – ele está longe de ser algo surgido do nada ou brotado do chão pisoteado pela negação da política, alimentada nos anos que antecederam as eleições.

segunda-feira, 23 de março de 2020

O que os filósofos diriam sobre estes tempos de Coronavírus?

no FB da Lara Sfair


PLATÃOFiquem na caverna, porra!
FRIEDRICH NIETZCHE
Fique em casa, por mais difícil que seja suportar sua própria presença.
RENÉ DESCARTES
Habito, ergo sum.
HEGEL
Tese: fique em casa;
Antítese: fique em casa;
Síntese: fique em casa.
HERÁCLITO
Não se pega duas vezes o mesmo vírus, na segunda vez o vírus e você já são outros.
JEAN JACQUES ROUSSEAU
O homem é bom por natureza, mas o vírus o corrompe.
ARISTÓTELES
O vírus está apenas cumprindo seu papel no Cosmos ao infectar corpos.
SANTO AGOSTINHO
A medida de amar é amar longe.
SÃO FRANCISCO DE ASSIS
Onde houver vírus, que eu leve álcool em gel.
PROTÁGORAS
O vírus é a medida de todas as coisas.
HANNAH ARENDT
Para o vírus, matar é uma tarefa banal e cotidiana.
IMMANUEL KANT
Duas coisas me enchem a alma de crescente admiração e respeito, quanto mais intensa e frequentemente o pensamento delas se ocupa: o céu estrelado lá fora e eu aqui dentro.
SIGMUND FREUD
O vírus dá plena vazão a suas pulsões reprodutivas porque não é reprimido sexualmente, na infância, pela civilização.
LUDWIG WITTGENSTEIN
Aquilo que não se pode contrair, não se pode transmitir.
JACQUES DERRIDA
O objetivo de todo vírus deve ser a desconstrução do corpo infectado.
ZYGMUNT BAUMAN
A maior evidência da sociedade líquida é sua dependência do álcool.
VILÉM FLUSSER
O DNA do vírus não pode ser decodificado porque a escrita acabou.
MICHEL FOUCAULT
Esses métodos que permitem o controle minucioso das operações do corpo são o que podemos chamar vírus.
WALTER BENJAMIN
A reprodutibilidade excessiva e sem freios do vírus traz como consequência a perda de sua aura de sacralidade.
SIMONE DE BEAUVOIR
Não se nasce infectado, se torna infectado.
JEAN PAUL SARTRE
Nada a retificar, o inferno são os outros.
KARL MARX
Trabalhadores do mundo, separai-vos.
CRISTO
Amai-vos uns aos outros ficando longe uns dos outros.
OLAVO DE CARVALHO
O vírus é um idiota, eu sou um idiota. Na verdade nem sei o que estou fazendo aqui nesta lista, nunca fui filósofo.
JUDITH BUTLER
O fato de esta lista ser composta por 95% de homens revela como a história da humanidade é a história da dominação patriarcal. Homens são o verdadeiro vírus.

sábado, 14 de março de 2020

O coronavírus e os filósofos

Bruno Cava Rodrigues, comenta as intervenções filosóficas de Giorgio Agamben e Slavoj Zizek sobre a pandemia de coronavírus
O texto é publicado no seu Facebook, 10-03-2020.


na Revista IHU Online


Eis o texto.

Nietzsche certa vez disse que a busca obsessiva pela saúde pessoal é o caminho certo para a decadência do ser humano. Um ser perfeitamente saudável se torna vaidoso, indolente e o pensamento, no mais das vezes, reflete sua obsessão com a manutenção do eu narcísico. A doença não só é um tônico da vida, como nos força a sair da zona de conforto e pensar a partir dela. O corpo doente como perspectiva sobre a saúde normal. Só sentimos o corpo, afinal, quando ele se impõe a nós. Poderíamos extrapolar o aforismo nietzschiano para pensar como uma epidemia faz emergir verdades antes colocadas para dormir pela normalidade social.
A recente pandemia de coronavírus inspirou dois filósofos famosos a escreverem pequenos textos. Talvez seja injusto avaliar esses comentários a quente, sobre um tema tão atual, mas o ônus dos textos é de quem os comete. A prova do pudim não é comê-lo? Então vamos a eles, às intervenções filosóficas de Giorgio Agamben e Slavoj Zizek.
Agamben escreveu um artigo curtíssimo ao jornal italiano "Il Manifesto". Nele, o autor de "Homo sacer" enxerga na reação ao coronavírus mais uma confirmação do novo paradigma biopolítico totalitário. Diante de uma epidemia "inventada", a resposta "imotivada" e "irracional" está fortalecendo o poder soberano, que consiste em decretar a exceção e decidir sobre ela. Assim como a contraface da luta contra o terrorismo vem sendo o aumento do terrorismo de estado, a contraface do estado de emergência é a normalização da emergência como novo estado.

domingo, 8 de março de 2020

Sem licença e com boletos, mães de SP passam a deixar bebês de 1 mês na creche


Flexibilização trabalhista leva locais a se adaptarem a recém-nascidos apesar de ressalva médica
As cadeirinhas vibratórias para bebês agora são equipamento obrigatório na creche Pequenas Turquesas IV, na Vila Gilda, bairro do extremo sul de São Paulo a mais de 30 km de carro do centro. Ali, elas funcionam como uma espécie de colo eletrônico para uma leva de crianças pequenas, de poucos meses ou mesmo poucos dias de vida, que vêm chegando à rede pública paulistana.

Esses recém-nascidos que chegam ainda não firmaram a cabeça nem conseguem ainda se virar. Tampouco se sentam, nem podem comer fruta ou papinha. Mães e pais poderão não estar presentes quando eles atingirem esses marcos pela primeira vez.

São filhos de cozinheiras, diaristas, copeiras, autônomas e outras profissões que, num ambiente profissional de crescente informalidade, muitas vezes não podem desfrutar total ou mesmo parcialmente do período legal de licença-maternidade no país, de 120 dias, e dos 30 de férias.

Filhos de mulheres sem acesso a seus direitos, acabam ficando longe das mães numa etapa que médicos descrevem como "gestação externa", um período de transição do útero para o mundo que dura cerca de dois meses.

A chegada dessas crianças à rede pública foi possível devido ao atendimento de uma demanda dos pais e das mães, o aumento de vagas em creches municipais paulistanas.

Como a espera caiu, crianças que antes aguardavam meses na fila agora chegam em poucas semanas às creches (a etapa que vai de zero a três anos).

segunda-feira, 2 de março de 2020

SP tem um caso de estupro de vulnerável por hora; estados registram aumento

"Sabe quem se beneficia de não falarmos sobre gênero nas escolas? Não termos aulas de educação sexual? Adultos abusadores. SP, 2020: um caso de estupro de vulnerável POR HORA. E esses dados são apenas dos casos que foram registrados."

Quatro meninas de até 13 anos foram estupradas por hora no país, em 2018 - Bruno MirandaQuatro meninas de até 13 anos foram estupradas por hora no país, em 2018 - Bruno Miranda



por Luiza Souto no Universa

O estado de São Paulo registrou 7,5 mil boletins de ocorrência de estupro de vulnerável de 1º de janeiro até outubro de 2019. Foram quase 25 casos por dia, ou um por hora. Nos últimos dois anos, houve um aumento de 7% no número de casos, nas formas consumada ou tentada — em 2017, foram cerca de 7 mil notificações, ou uma média de 19 por dia. Os dados foram obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação.

Estupro de vulnerável é o crime de prática de ato libidinoso ou sexo com menor de 14 anos ou ainda com alguém que não tem discernimento e não consegue oferecer resistência — como em casos de embriaguez ou enfermidade ou ainda se a mulher estiver dormindo. A pena vai de 8 a 15 anos de prisão.

Universa solicitou o número de notificações de estupro de vulnerável entre os anos de 2017 e 2019 para as secretarias de Segurança Pública dos dez estados mais populosos do Brasil, segundo o IBGE.

Oito deles atenderam de forma padronizada. Nas ocorrências do ano passado, o Paraná aparece logo atrás de São Paulo no ranking de casos de estupro de vulnerável registrados: foram 4.151 notificações até outubro. Depois vem Minas Gerais, com 2.933 (até outubro); Rio Grande do Sul, com 2.464 (até novembro); Pará, com 2.301 (até novembro); Rio de Janeiro, com 1.807 (até junho); Bahia, com 1.543 (até setembro), e Ceará, com 1.229 (até outubro).

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Bolsonaro esvazia o plano de controle de ISTs e o reduz ao uso de camisinha

Com o Carnaval se aproximando, o Ministério da Saúde decidiu preparar uma campanha de prevenção contra infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) para veiculação nos grandes meios de comunicação. Num primeiro momento, a ideia até parecia boa. Afinal, temos no Brasil epidemias como as de sífilis e HIV ainda crescentes, e uma população bastante desinformada e preconceituosa sobre o assunto. Entretanto, quando vemos o resultado da campanha encomendada é fácil constatar que quando o assunto envolve sexualidade ou ISTs, o governo sempre se equivoca.
A nova campanha "Usar camisinha é uma responsa de todos" foi lançada no último sábado em cerimônia com a presença do ministro da saúde Luiz Henrique Mandetta. Preocupada com o crescimento das ISTs entre a população mais jovem, a campanha até acerta ao tentar dialogar com esse grupo utilizando uma linguagem de rap e atores do estilo "Malhação", mas erra feio principalmente na escolha do conteúdo e na forma como a mensagem é passada.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Maria Rita Kehl: ‘O Brasil está sendo catequizado como os índios foram no século 16’

Para psicanalista, moralismo de costumes ou político de Bolsonaro e seu governo faz lembrar as Cruzadas. A política foi substituída pela moral: "Bolsonaro é a voz dos ressentidos"


A mais nova intervenção do presidente Jair Bolsonaro sobre questões relativas à chamada “moral e bons costumes”, neste quarta-feira (5), foi em defesa da ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, e sua pregação por abstinência sexual, no contexto pré-carnavalesco do país. Para a psicanalista e escritora Maria Rita Kehl, a questão envolve ou pode envolver mais do que aspectos de ordem propriamente psicanalítica.

“Dizer que a culpa da depravação é do PT é tão ridículo que comentar é dar importância a um oportunismo mau caráter. O antipetismo virou uma espécie de bandeira que admite todas as canalhices”, diz Maria Rita.

“Quando ela fala em abstinência sexual, esculhambam ela. Quem quer? Eu tenho uma filha de nove anos, você acha que eu quero minha filha grávida no ano que vem? Não tem cabimento isso aí”, disse Bolsonaro nesta quarta-feira (5). “Essa liberdade que pregaram ao longo (do governo) do PT todo, que vale tudo, se glamoriza certos comportamentos que um chefe de família não concorda, chega a esse ponto, uma depravação total”, acrescentou o chefe de Estado.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

Inadmissível termos como "ministro" da Educação uma figura tão patética e tão perversa quanto Abraham Weintraub



terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Marcos Rolim sobre o Massacre do Lami: ..."fomos arrastados para dentro de um filme de Tarantino e ele está apenas no começo".

O Massacre do Lami

por Marcos Rolim(*) no Sul21

Um jovem de 24 anos, sem antecedentes criminais, sem histórico de doença mental, ex-militar, membro de uma “família estruturada”, defendia o porte de armas para “se defender de bandidos” e se declarava evangélico e temente a Deus. Após discussão banal de trânsito no Lami, zona sul de Porto Alegre, assassinou três pessoas de uma mesma família (marido, esposa e filho). O autor do triplo homicídio, atirador treinado, mirou nas cabeças das vítimas, acertando vários disparos, com uma pistola 9mm. Depois de trucidar a família, fugiu do local, tendo sido preso nesta terça-feira (28).
No texto anterior nessa coluna (“As palavras no jornalismo”), mostrei que fatos criminais costumam ser divulgados de forma muito diferente no Brasil a depender da classe social das vítimas e dos autores. O massacre do Lami o confirma amplamente. O tom geral das notícias foi extremamente cuidadoso. Aliás, não houve matéria que tenha sequer chamado o massacre de massacre.  Ninguém empregou a palavra “bandido” tão ampla e rapidamente empregada em outros contextos e não houve quem propusesse “caçada ao assassino”. O responsável pelo crime foi designado, pela polícia e nas matérias jornalísticas, como “suspeito” o que, tecnicamente, é o tratamento correto visto que apenas o Poder Judiciário pode definir quem são os culpados. A polícia não divulgou o nome do suspeito, o que também deveria ser procedimento padrão.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Governo Bolsonaro incluiu nova política para gravidez na adolescência: a abstinência sexual

Governo Bolsonaro incluiu nova política para gravidez na adolescência: a abstinência sexual. Ministério de Damares faz eventos com $ público pregando que jovens não transem. Ministério da Saúde acabou com caderneta do adolescente. Saúde na Escola esvaziado 

Ministério de Damares fez evento pra debater gravidez na adolescência. Convidou apenas religiosos entusiastas da abstinência sexual. Na entrada, cartazes criticavam camisinha com informação fantasiosa e relacionavam aborto e pedofilia. Ministério nega ter permitido os cartazes.



quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Talíria Petrone: Eu ESCOLHI ser mãe e sigo defendendo a legalização do aborto

por Talíria Petrone* no Twitter

Hora de falar sério e fazer o debate. Eu ESCOLHI ser mãe e sigo defendendo a legalização do aborto. A MINHA escolha não é a escolha de todas as mulheres. Do mesmo modo, o direito ao aborto seguro não obriga mulheres a interromperem a gravidez. E por que legalizar? Segue o fio:

1- Defender a legalização não é defender o aborto. A fé e valores individuais devem ser preservados pra quem for contra, mas não podem motivar leis num Estado Laico e que deve servir ao bem comum. Evidências, ciência e estatísticas devem motivar legislações.

2- E o aborto ilegal é uma das principais causas de mortes maternas, maioria negras e pobres. As ricas (parte delas religiosas, aliás) têm acesso ao aborto seguro porque podem pagar. Isso é questão de saúde pública, não de polícia. É papel do Estado garantir a vida das mulheres.

3 - A ilegalidade do aborto não impede que ele ocorra. São quase 1 milhão por ano aqui. Mulheres abortam por desespero, medo, falta de condições... São tantos os motivos e nunca é algo confortável. Com tanto abandono paterno, a culpa é da mulher por que mesmo? Eu hein...

4 - Não é verdade que se legalizar, o aborto será usado como método contraceptivo. Países aonde o aborto é legal mostram o oposto. Esse argumento é absurdo e antievidência! Legalização aumenta informação, o acolhimento e o debate sobre gestação indesejada.

5 - Os mesmos que mentem sobre o significado da legalização do aborto, dialogando com a desinformação e fundamentalismo, são contra a prevenção à gestação indesejada. Não querem falar sobre educação sexual nas escolas, interditam debate tão importante!

Defender que o aborto é questão de saúde pública e que interfere no corpo da mulher é defender a vida! Educação sexual para prevenir; contraceptivos para não engravidar; aborto legal, público e seguro para não morrer!


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(*) Talíria Petrone @taliriapetrone
Professora de História, negra, feminista. Ex-vereadora de Niterói e deputada federal pelo PSOL do Rio de Janeiro.

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Leandro Karnal desmascara a escola sem partido

O caso do paciente das coxas de vidro: haverá cura para o ódio ao PT?

Quando perceberem que nada tinha que ver com o combate à corrupção ou com a moralidade, mas em intensificar a política de desmonte do Estado e do serviço público, talvez mostrem reação

O psiquiatra Philippe Pinel (1745-1826) retratado por Tony Robert Fleury (1837–1912). Foto: Reprodução



Phillipe Pinel, um dos nomes mais famosos da medicina e, principalmente, da psiquiatria, conta que um dos seus pacientes vivia sempre sentado porque estava convencido de ter coxas de vidro. Mas esbarrado por uma criada, “ele se pôs numa raiva violenta, a ponto de se levantar e correr atrás da criada para bater nela. Quando voltou a si, ficou muito surpreso de conseguir se sustentar, e viu-se curado”.

Pinel acreditava que o paciente afetado por uma profunda emoção poderia ser curado de uma melancolia, ou de outros transtornos mentais.

Muitos brasileiros parecem com esse paciente das coxas de vidro. Odeiam o PT de tal modo que são capazes de cometer atrocidades. Não pensam em mais nada, só em odiar o PT e, quando essa doença se manifesta de forma aguda, odeia-se até mesmo os petistas.

Contudo, somente em um futuro próximo, quando tiverem seus direitos violados, vir-se-ão curados. Somente quando descobrirem o real motivo da candidatura de Bolsonaro por trás da imagem fabricada e financiada por empresários, é que acordarão.

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

QUAL É A ESCOLHA? (por Rogério Cerqueira Leite*)

roubartilhado do Facebook do meu amigo Paulo Roberto Donadio


A escolha não é entre a esquerda e a direita, nem é entre o “povão” e a elite, como insinuam os bons cidadãos.

Também não é simplesmente entre democracia e ditadura, assim como também não é apenas entre paisano e militar, ou entre progresso e retrocesso.

A escolha é entre civilização e barbárie.

A barbárie na Alemanha derrotou a civilização e levou ao Holocausto e à mais sangrenta guerra da história da humanidade.

E como foi que isso pôde acontecer na altamente desenvolvida e civilizada Alemanha?

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Porque dizemos que é fascismo?

(compartilhado no FB da Rosana Pinheiro-Machado)

1) O fascismo é um fenômeno de massas, isto é, uma imensa maioria da população vê em sua limitação das liberdades, uma promessa de ordem e segurança.

2) O fascismo é um fenômeno emocional. Os que se deixam seduzir por ele, recusam-se ao debate, desqualificam o interlocutor antes de ouvi-lo, são tomados pela raiva, pelo ódio, pela necessidade de eliminar os oponentes.

3) O fascismo cria pertecimento através do fomento ao medo e a "construção" de um inimigo interno, cuja ameaça põe em risco as crenças e os limites de aceitação das massas.

4) Os projetos do fascismo são obscuros, encobertos por palavras de ordem simples, destinadas a resolução de problemas complexos.

5) O fascismo debocha do conhecimento, aposta na desinformação, diz que não disse o que disse e que disse o que não disse. Persegue professores, artistas, literatos. 

6) O fascismo usa um grande número de mentiras, algumas óbvias, mas não é porque ele quer que você acredite nelas, mas que você perca o parâmetro da verdade e não acredite mais em nada.

O texto acima foi construído com base em Hannah Arendt (Homens em Tempos Sombrios e As origens do Totalitarismo).

Espero ter auxiliado aos que têm dúvidas.