do Outra Saúde (via e-mail)
A NOVA PROPAGANDA
"Nós temos agora um medicamento comprovado cientificamente que é capaz de reduzir a carga viral. Com essa redução da carga viral, significa que reduz o contágio. A pessoa que toma o medicamento assim que faz o teste diagnóstico e descobre que está com covid, toma o medicamento nos primeiros dias, essa pessoa contamina menos outras pessoas. E mais, diminui a probabilidade de essa pessoa aumentar os sintomas, ir para o hospital e falecer". Quem proferiu palavras tão animadoras foi o ministro da Ciência, Marcos Pontes. O remédio em questão é a nitazoxanida, vermífugo vendido no Brasil com o nome comercial Annita – que tem sido exaltado por Pontes há meses como possibilidade no tratamento da covid-19. E o anúncio foi feito em uma cerimônia promovida pelo governo federal para, supostamente, apresentar ao público os resultados do estudo clínico do Laboratório Nacional de Biociências (vinculado ao ministério) com a droga.
O maior problema é que, dos resultados, mal conhecemos a sombra. Segundo a pasta, o estudo durou quatro meses e envolveu cerca de 1,5 mil voluntários com sintomas iniciais de covid-19; um grupo tomou a nitazoxanida, e outro tomou placebo. Mas não se sabe como foi nem o que significou essa redução da carga viral, nem como foi medida a redução do contágio, nem qual foi a diminuição nas chances de internação. No Instituto Questão de Ciência, o microbiólogo Alison Chaves critica duramente o protocolo do estudo – segundo o qual, aliás, houve cerca de 400 voluntários, e não 1,5 mil como anuncia o governo. De acordo com ele, o foco era apenas observar a redução da duração de febre, tosse e fadiga em oito dias. "Como sabemos que a maior parte das pessoas infectadas irá desenvolver uma forma leve a moderada da doença, é esperado que esse mal-estar esteja presente por algum tempo, sem que ocorra nenhum agravamento. Isso invalida completamente o raciocínio de que essa é uma intervenção precoce para proteger um paciente de uma eventual complicação", escreve o especialista.



