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quarta-feira, 31 de março de 2010

Falta a vacina contra paranoia


Marcelo Migliaccio no JB


Não jogo mais na mega-sena pelo mesmo motivo que me faz não ter medo de andar de avião. Basta analisar as probabilidades, essa maravilha matemática que pode tornar nossa vida muito mais leve. A chance de acertar as seis dezenas com uma aposta mínima é de uma em 55 milhões, e a de morrer num desastre aéreo, de mais de 8 milhões 450 mil. Para acreditar que uma dessas hipóteses poderia acontecer justamente comigo, eu jamais poderia voltar a atravessar uma rua na vida, pois de cada 45 mil pessoas que o fazem uma é atropelada, algo relativamente muito mais provável...


Probabilidades são muito valiosas para orientar nossas ações e desmontar nossos medos. Digo isso para chegar até essa onda de vacinação que ora varre o planeta. A cada dia, surge uma doença nova nas páginas dos jornais, e quase sempre a notícia é sucedida pelo anúncio de uma nova vacina. Conhecendo meu métier, só me resta lembrar que, nos anos 20, o jornalista norte-americano H. L. Mencken já dizia que a imprensa vive de assustar o leitor num dia para, na manhã seguinte, tranquilizá-lo.

O que eu quero dizer é que o ser humano, mesmo o metido a machão, é um medroso de carteirinha e se assusta muito por nada. Vamos voltar à década de 90, quando o Brasil tremeu diante da possibilidade de uma epidemia de cólera. Teve muito jornal respeitável publicando na primeira página que o número de mortos chegaria à casa dos 3 milhões. E o que se viu? Nada. O monstruoso vibrião colérico mostrou-se um blefe daqueles...

Agora, a onda é em torno da gripe suína. Há um ano, as previsões eram alarmantes. Teve gente amaldiçoando feijoadas com crucifixo em riste. Eu mesmo cortei relações com uns quatro conhecidos que torcem pelo Palmeiras, time cujo símbolo é o porco.

Mas, nesta semana, ouvi no rádio que até agora no Brasil morreram pouco mais de duas mil pessoas dessa doença. Se levarmos em conta que, em meados da década de 80, mais de um milhão compraram o compacto Vem fazer glu-glu, gravado pelo Sérgio Mallandro, o vírus H1N1 não é o que se pode chamar de um sucesso de público. Vejam bem: não estou criticando a campanha de vacinação em massa do governo brasileiro, afinal, seguro morreu de velho, e não da Influenza A, mas não há motivos para que nossa natural tendência a entrar em pânico, mais uma vez, venha à tona.

Muito mais agressiva e letal que a gripe suína – ou a aviária, que também fez muito barulho no galinheiro por nada – é a dengue, obra de um tal de Aedes aegypti, que matou, só no Rio, cerca de 200 pessoas nas duas últimas epidemias. Atualmente, o mosquito transmissor está de férias, mas promete voltar dentro de três ou quatro anos, porque os focos estão por aí, alimentados pela falta de saneamento e de educação da população.

E o mal da vaca louca, lembram? Foi outro tsunami que virou marola. Lá se vão quase 20 anos, e eu nunca vi nenhum boi com uma melancia amarrada no pescoço rasgando notas de R$ 100 por aí. Devem ter internado todos os bovinos ensandecidos no Pinel antes que pudessem contaminar a nossa gente.

Em suma, devemos nos vacinar também contra o mal do peru, que nos leva a morrer de susto na véspera, a exemplo da ave favorita das ceias natalinas. Não vale a pena entrar na paranóia, mas, mesmo assim, não deixe de passar num dos postos de vacinação. Porque, de graça, a gente toma até injeção.

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