Conversei na última sexta com Astrid Lima, que vive na Itália, sobre o referendo que dará aos italianos a chance de decidirem se querem a água como bem público ou se preferem a participação privada em sua gestão.
Com poucos detalhes sobre a campanha de Astrid (pela água pública), perguntei qual era o cenário atual, depois de saber que o spot abaixo já estaria sendo exibido nas tevês nacionais como parte da campanha, que segue os moldes de um pleito eleitoral. Não cabe às emissoras decidirem se veiculam ou não, é campanha, e todos os envolvidos têm seu espaço. O referendo ocorre nos dias 12 e 13 de junho.
“L’asta” (“O leilão”) : Spot oficial da campanha referendária italiana contra a privatização da água.
O vídeo que você vê acima foi criado por Astrid Lima, documentarista amazonense, militante do movimento pela água pública e coordenadora do Comitê Promotor do referendum “Due sì per l’acqua bene comune” (“Dois ’sim’ pela água bem comum”) do complexo de cidades ao sul de Roma, Castelli Romani. O referendo é resultado do esforço de Astrid e de outras pessoas, que vêm abordando aspectos sociais da gestão da água e denunciando, por exemplo, a contaminação por arsênico em algumas regiões da Itália.
Astrid mantém no portal D24AM o blog “Amazon Street“, a versão em português do blog italiano onde relata o dia-a-dia do ativismo e do trabalho junto ao marido, o também documentarista Andrea Paladino. Siga a Astrid no Twitter no perfil @astrid_lima.
Idealizadora do spot, Astrid fala sobre o vídeo: “O filme mostra um clube exclusivo de poderosos disputando o controle sobre serviços fundamentais, como a energia e a água. A atmosfera é rarefeita, o ambiente pode ser localizado em qualquer periferia de uma moderna cidade. Nenhuma surpresa, na economia mundial real nem sempre as decisões estratégicas são tomadas nos arrranha-céus, como nos ensina o livro Gomorra, de Roberto Saviano.”
Depois da decisão histórica da cidade de Paris de retomar a gestão da água (controlada antes pelos grupos Veolia e Suez) e após o sucesso do referendo de Berlim que reivindica o retorno da gestão hídrica ao Estado, o referendo italiano está sendo seguido com atenção pelo mundo inteiro.
Colo aqui um trecho do que Astrid me disse sobre a votação:
“Na Itália se jogará a partida fundamental sobre a importância dos ‘bens comuns’, aquele conjunto de serviços e valores que devem continuar nas mãos da coletividade e não de interesses de mercado. Uma grande discussão nacional está nascendo, e supera o conceito de ‘estatalização’. Juristas de grande perfil nacional e sociedade civil discutem não mais a contraposição entre público e privado, mas o conceito de ‘interesse coletivo’. A água, sendo um bem essencial à vida de todos os seres viventes não pode obedecer às leis do mercado, não pode ser cotada em bolsa, não deve ser considerada uma mercadoria. Como diz a campanha: é de todos.”
O referendo italiano já bateu um recorde: assinaram pela sua realização mais de 1 milhão e 400 mil pessoas, superando os históricos pelo aborto e pelo divórcio. É uma iniciativa dos comitês pela água pública, de associações e de cidadãos, criando uma das maiores redes sociais que a Itália já viu.
Apesar disso o governo Berlusconi, com uma inicial cumplididade transversal dos principais partidos italianos, tem boicotado e criado obstáculos para promover seja a informação de que existirá uma consulta referendária nos dias 12 e 13 de junho (junto ao nuclear e legítimo impedimento) seja a abertura de espaços de discussão nas televisões nacionais.
Abaixo, o texto do vídeo em português:
“Vendido ao grupo Negócios e Energia”
- “A próxima proposta, como bem sabem, é um negócio certo. É um bem essencial à vida. gera um lucro de 7%. É garantido pelo Estado. Sem risco para a empresa. É um business grande e em expansão. Estamos falando da gestão da água. Espero ofertas interessantes…”
Menina: Senhor, a água não se vende, é de todos.
Mais informações sobre o referendo dos dias 12 e 13 de junho na Itália:
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