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sexta-feira, 17 de junho de 2011

Faz de Conta


Na saúde, os governos acham que gastam muito e os profissionais acham que ganham menos do que deveriam -e trabalham além do que seria justo. E os usuários do serviço pedem sempre além. E o distinto público pagador de impostos não quer nem ouvir falar em pagar mais


A Câmara dos Deputados prepara concluir a votação da emenda constitucional 29, aparentemente com acordo para não recriar a Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) renomeada. A ideia é boa. Garantir recursos suficientes para a saúde, essa primeira preocupação dos brasileiros em todas as pesquisas.
Há entretanto uma lacuna permanente no debate. Quantos seriam os “recursos suficientes”? Ninguém sabe, ou pelo menos ninguém diz. A única referência sempre apresentada é comparar o que se gasta aqui e em outros países. E os números relativos são assustadores.
Nos Estados Unidos, que também enfrentam uma disputa política interminável nessa pauta, investe-se dez vezes mais, por habitante.
Duas conclusões. A primeira: a saúde precisa de mais verbas. A segunda: nenhuma proposta colocada na mesa resolveria, nem de longe, o problema do financiamento. É só olhar os números de receita adicional projetada pelas alternativas.
Em resumo, se é verdade que deputados, senadores e membros do Executivo participantes da empreitada ganham pontos políticos mostrando preocupação com uma agenda tão sensível, é verdade também que até agora ninguém apareceu com a mágica de resolver mesmo o problema, na real.
Pois alguém precisará pagar a conta.
Também porque se a saúde tem problemas de financiamento, a gestão não é uma brastemp. 
O ministro anterior, José Gomes Temporão, desperdiçou capital político na batalha, afinal inútil, para flexibilizar as regras do setor. Pretendeu criar as fundações estatais de direito privado, que reuniriam o “melhor” de dois mundos: garantia de verbas públicas e liberdade típica do setor privado para comprar e contratar. E demitir.
A coisa não andou, inclusive pela saudável desconfiança de que abriria uma larga autopista para todo tipo de irregularidade. 
Enfrentou naturalmente a resistência feroz das corporações mais orgânicas da área. A proposta recebia a esperada simpatia dos detentores de cargos executivos, o pessoal cobrado pela população, mas não atravessou a barreira político-corporativa.
Na saúde, os governos acham que gastam muito, enquanto os profissionais acham que ganham menos do que deveriam e trabalham além do que seria justo. E os usuários do serviço pedem sempre mais. E o distinto público pagador de impostos não quer nem ouvir falar em pagar mais.
Há algum preconceito diante do SUS (Sistema Único de Saúde), pois as pesquisas mostram que a aprovação dele no público que o utiliza é sempre maior do que na população em geral.
Mas o SUS é uma obra inconclusa. E ninguém quer assumir a responsabilidade de dizer quanto custa concluí-la. E fica esse jogo de faz de conta.

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