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quarta-feira, 28 de setembro de 2011

A voz da sinceridade


Paulo Moreira Leite

A BBC inglesa publicou uma entrevista sobre o abismo economico europeu que se tornou um sucesso no you tube.
Estou falando do depoimento de um sujeito apresentado como Alessio Rastani, de vocabulário e figurino identicos ao de milhares de analistas de investimentos que diariamente comparecem ao video das emissoras de TV do mundo inteiro para falar sobre as perspectivas da economia.
O detalhe é que o cidadão não emprega a linguagem dissimulada de sempre. Não esconde interesses reais nem dissimula a realidade social.  Não finge e diz verdades que não costumam ser ditas às grandes platéias.
Afirma que os mercados não estão nem um pouco preocupados com a alta do desemprego nem com o sofrimento das pessoas comuns — apenas com a elevação de seus lucros.
Diz que os governos nada pretendem fazer para evitar a derrocada economica européia, que irá deixar milhões sem emprego, sem benefícios e sem perpsectiva. Explica que autoridades não tem muito interesses nem muita capacidade para agir. Por que? Porque o mundo é governado pela Goldman Sachs.
Dizendo-se preparado para ganhar dinheiro com a crise, afirma que não dorme há três anos só de pensar nas chances de enriquecer nos próximos meses.
Citando a depressão da década de 30, lembra que nem todos ficam pobres nas grandes tragédias economicas. Recorda que muitas fortunas foram feitas a partir das desgraças alheias, por investidores que souberam fazer as escolhas na hora certa.
O depoimento de Rastani provocou reações variadas. A entrevistadora da BBC agradeceu sua sinceridade, e contou que os funcionários dos estúdios da emissora, em Londres, estavam todos de queixo caído.
Compreende-se. Não é todo dia que se ouve uma voz dizer para grandes audiencias do mundo, sem subterfúgios nem eufemismos, que populações inteiras tem sido convocadas a fazer sacrifícios inúteis para sua vida apertada — mas de grande valia para grandes instituições e seus executivos milionários.
É uma linguagem hipocrisia, sem vergonha do próprio egoísmo. É um autoretrato sem retoques, num universo além do cinismo.
Desde o primeiro minuto o público coloca a pergunta se Alessio Rastani é um analista verdadeiro ou se não passa de uma ativista muito talentoso que conseguiu driblar os controles da BBC para exibir ao mundo inteiro um discurso sem hipocrisia sobre a crise.
É uma informação relevante, obviamente. Ninguém sabe, até agora.
Se for apenas um personagem, Alessio Rastani foi muito bem construído e ensaiado. A cor da gravata, rosa brilhante, parece bem de acordo com o espírito dos tempos. O cabelo bem aparato também. Suas palavras são claras, diretas, coerentes com o jargão desumano do mercado.
Qualquer que seja a conclusão, porém, não se deve misturar as coisas. O mensageiro até pode ser uma farsa mas a mensagem é absolutamente verdadeira: entregar a crise do capitalismo aos mercados é, sem dúvida, a melhor forma de jogar o mundo no precipício.
O depoimento pode ser reconstruído, palavra por palavra, a partir das melhores análises já feitas sobre a crise desde o ano passado, quando os gregos foram chamados a aprovar o primeiro de seus diversos planos de austeridade — que foram seguidos pelos planos irlandeses, portugueses, espanhois, italianos…
Na hipótese de Alessio Rastassini ser uma falsificação, o episódio não deixa de representar uma lição surpreendente — a de que tornou-se mais fácil encontrar palavras verdadeiras num analista de ficção do em profissionais contratados pelo mercado.
Se você não viu, assistia agora:
http://www.youtube.com/watch?v=CEwRj3zfM6E

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