À COMISSÃO INTERGESTORA
TRIPARTITE (CIT)
ASSUNTO: Reforma Psiquiátrica Ameaçada
Nós, da Rede Nacional Internúcleos da Luta Antimanicomial
(RENILA), temos acompanhado atentos e preocupados o debate que se processa no
interior do governo Dilma sobre as medidas a serem adotadas para o cuidado dos
usuários de crack, álcool e outras drogas. É visível o embate interno ao
governo relativo à possibilidade de incorporação das chamadas “comunidades
terapêuticas” como um recurso do Sistema Único de Saúde passível inclusive, de
ser financiado diretamente pelo governo federal.
Tal condição associa-se ao absurdo
debate em torno das internações compulsórias de usuários de crack, álcool e
outras drogas, posição que, apesar de ser sistematicamente rechaçada pelos
equívocos jurídicos e assistenciais que
comporta, vem, reiteradamente, sendo reintroduzida com muita força.
Identificamos como ponto de
sustentação das propostas apresentadas pelo governo federal, a articulação
existente entre a Ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, setores religiosos
que se expressam no Congresso Nacional e as Federações das comunidades
terapêuticas que são
patrocinadoras do projeto político da Ministra, senadora eleita pelo Paraná.
Entendemos que o triunfo desta
perspectiva representa um retrocesso na política da Reforma Psiquiátrica e uma
ameaça para o SUS, num momento em que o próprio governo se vê inundado por
crises invariavelmente relacionadas com a malversação de fundos públicos e a
corrupção gerada por modos de relação promíscuos, via transferência de dinheiro
público para organizações não-governamentais. Reconhecemos que a legitimidade
social das comunidades terapêuticas advém de sua
condição de serem empreendimentos autônomos, geradas por iniciativas da
sociedade no vácuo de respostas públicas para os usuários de álcool e outras
drogas por parte do Estado.
A inclusão das comunidades
terapêuticas no campo da saúde violará o SUS e a Reforma Psiquiátrica em seus
princípios e objetivos e o que é pior, reintroduzirá a segregação como modo de
tratamento, objetivo oposto ao que orienta os serviços substitutivos,
resgatando no mesmo ato a cruel face de objeto mercantil para o cuidado em
saúde, ao privatizar parte dos recursos assistenciais.
Que a escolha por uma comunidade
terapêutica e pela supressão dos direitos de cidadania seja a opção de alguns é
algo que só pode ser respeitada no plano da decisão individual, mas jamais como
oferta da política pública e resposta do Estado à sociedade.
A questão que se coloca hoje, com o
confuso, parcial e precipitado debate sobre as drogas, convoca-nos à urgente
mobilização em defesa do SUS e da Reforma Psiquiátrica, ameaçados, neste
momento, pelo envio, por parte do Ministério da Saúde, à Comissão Intergestora
Tripartite (CIT), de proposta de portaria que inclui as comunidades
terapêuticas como serviços integrantes da rede de atenção psicossocial.
Apelamos à CIT que não aprove estas
portarias ministeriais até que o governo federal estabeleça um diálogo com as
entidades que têm se pronunciado contrários a esta forma de se pensar e fazer
política. Que se aguarde a Consulta Pública, estratégia gestada pela Secretaria
Geral da Presidência da República, onde todos poderão opinar e construir
coletivamente uma política para os usuários de álcool e outras drogas e não
apenas as Federações de Comunidades Terapêuticas, únicas entidades recebidas
pela Presidenta Dilma.
Nossa posição não é sustentada em
interesses particulares nem em preferências. É coerente cm a ampla mobilização
social em todo o país que resultou na IV Conferência Nacional de Saúde
Mental-Intersetorial, fórum que foi claro e decidido neste ponto: comunidades
terapêuticas não cabem no SUS, como também não cabem internações compulsórias.
O tratamento dos usuários de álcool e outras drogas, incluído neste conjunto o
crack, deve seguir os princípios do SUS e da Reforma Psiquiátrica, sendo também
este o caminho a ser trilhado pelo financiamento: a ampliação da rede
substitutiva.
III
ENCONTRO NACIONAL DA RENILA
Goiânia, 17
a 20 de Novembro de 2011.
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