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terça-feira, 9 de abril de 2013

Para pesquisadora colombiana, todo sanitarista deve trabalhar com intersetorialidade


no Blog da Saúde


A diretora e pesquisadora da Fundação para o Desenvolvimento da Saúde Pública (FUNDESALUD) Colômbia, Ligia Malagón de Salazar, começou a trabalhar com a intersetorialidade ainda nos anos 70. Para ela, toda pessoa que trabalha na área de saúde pública deve entender que as respostas para diversas questões do setor só são possíveis a partir de um trabalho articulado, com a participação de diversos setores do desenvolvimento social.

Ligia de Salazar esteve no Brasil para participar de uma reunião sobre intersetorialidade promovida pela Secretaria de Gestão Estratégica e Participativa (SGEP) do Ministério da Saúde. Na ocasião, a pesquisadora respondeu a alguns questionamentos.



SGEP – O que levou a senhora a trabalhar com a intersetorialidade?

LIGIA - Todo sanitarista, toda pessoa que trabalha com a saúde pública deve entender que morbidade, mortalidade e fatores de risco são influenciados pelo contexto econômico, político, social e cultural. Este contexto influencia as ações que serão realizadas, as intervenções bem como os problemas decorrentes. Neste sentido, os que trabalham com saúde coletiva devem contemplar essa série de fatores que fazem com que determinados resultados sejam produzidos. Essa foi a razão pela qual eu me envolvi neste trabalho.


A outra razão foi porque trabalhei, durante muito tempo, em programas relacionados ao desenvolvimento, não necessariamente programas voltados à saúde. Isso foi lá pelos anos 1970. Na época, o grupo era formado por pessoas de diferentes disciplinas e setores, com diferentes visões e enfoques, diferentes formas de abordar os problemas. Desta forma, comecei meus trabalhos com a intersetorialidade, sobretudo da abordagem intersetorial.

SGEP – A intersetorialidade já é uma realidade na Colômbia e em países latino-americanos? 

LIGIA - Tanto na Colômbia, como na América Latina e em muitos outros países fora das Américas, a intersetorialidade não foi uma forma de trabalho, uma forma de planejamento, de gestão institucionalizada dentro das nossas estruturas operacionais.


Atualmente, a nova visão de saúde e a definição dos problemas – que ultrapassam o conceito de doença e requerem a articulação de vários setores – têm levado a uma dinamização deste processo de planejamento e gestão setorial. Eu diria que há contradições em políticas que tendem a considerar saúde como algo exclusivamente ligado à doença. As respostas para problemas não provêm somente deste setor, mas sim de um nível intersetorial.
Não devemos trabalhar exclusivamente com fatores de risco, mas com determinantes destes fatores, com as iniquidades em saúde. Não se deve trabalhar só com pessoas, mas com territórios, ou seja, com cenários que permitam que essas ações sejam realizadas. Em outras palavras, é preciso criar uma cultura de trabalho mais orientada ao desenvolvimento populacional e territorial, no qual o setor Saúde é uma parte importante, mas não o todo.

SGEP – Como é possível enxergarmos a questão de forma mais ampla? 

LIGIA - Sempre trabalhamos com o conceito de que existe uma associação linear entre, por exemplo, fumar e ter câncer, e esquecemos todo o resto. Descontextualizamos a relação de que quem fuma ou quem bebe pode ter sido criado num cenário de pobreza, marginalidade, estresse, de família disfuncional. Ou seja, ao cuidar somente do tratamento do câncer, uma série de outros fatores é desconsiderada. É preciso buscar resposta de outros setores. Se quero melhorar essa anomalia, é preciso trabalho psicológico e também ações em seu entorno.


SGEP – Como a participação social pode ser fortalecida? 

LIGIA - A participação da sociedade civil, em qualquer decisão que se tome, que afeta sua vida, se vê fortalecida, se há uma participação real nos processos de tomada de decisão. Por isso faço questão de enfatizar esta necessidade.


A participação social, em boa parte dos países, quase sempre vem como uma colaboração em projetos e programas que os gestores decidem, mas a sociedade não assume responsabilidades e nem é parte na tomada de decisão. Da mesma forma, devemos fomentar e fortalecer lógicas e processos de planejamento e ação intersetoriais, desde os quais façamos frente ao principal causante da saúde populacional, as inequidades em saúde.

Fonte: Paloma Abdallah / Núcleo de Comunicação da SGEP

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