Caminhos do Cuidado - no Portal da Saúde
(dica da Luciana Elisabete)
A aproximação entre as áreas de saúde mental e atenção básica deve ocorrer a partir das semelhanças entre as duas e não por suas diferenças. A afirmação foi feita por Leon Garcia, representante da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad), que foi um dos destaques na abertura da Oficina de Tutores do Projeto Caminhos do Cuidado nesta segunda-feira (16/12).
Ele comentou a pesquisa encomendada pelo Senad à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) que traçou o perfil dos usuários de crack, e que segundo ele, aponta, claramente, que há um componente racial e de exclusão social no uso prejudicial dessa droga, já que 80% são negros e não chegaram ao ensino médio. Para ele, a discussão sobre drogas no Brasil se dá ainda por um viés da moralidade de costumes, muito mais do que pela saúde pública.
Leon Garcia, atualmente no Senad, contou que há apenas três meses ocupava um cargo na Coordenação de Saúde Mental do Ministério da Saúde. Uma ação importante de aproximação da saúde mental e da atenção básica rendeu frutos, como a produção do Caderno de Atenção Básica. Leon defendeu a aproximação entre essas duas áreas partindo dos pontos em comum e não ao contrário.
- Isso significa dizer que a saúde mental não é uma atenção especializada, como muitos pensam, e está muito mais próxima da atenção básica. O tipo de cuidado que a saúde mental oferece é de base territorial, todo desenho da rede de atenção psicossocial não faz nenhum sentido se não for um trabalho territorial, com populações de tamanho humano, adscritas a cada um dos serviços. Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) que cobrem grandes populações dificilmente conseguem trabalhar como CAPS, logo a importância dessa aproximação com o território é fundamental, porque é no cotidiano das pessoas que essa rede pretende atuar. Ela não pretende atuar nos sintomas avaliados numa consulta eventual ou num grupo uma vez por semana, ela pretende atuar e conseguir modificar a vida das pessoas na sua relação com a comunidade, esse é o objeto do nosso trabalho na saúde mental – comentou.
Leon disse ainda que é preciso uma atenção de cuidado longitudinal, que também é uma característica comum entre a saúde mental e atenção básica. Nesse tipo de cuidado, a pessoa atendida mantém seu vínculo com o serviço ao longo do tempo, de forma que quando uma nova demanda surja esta seja atendida de forma mais eficiente.
“Se não for feito esse cuidado longitudinal, as atuações serão sempre pontuais. Talvez nos momentos de crise ou o que é pior, passar para outro a responsabilidade por cuidar desses outros momentos entre as crises”.
Para Leon, partindo do princípio que há mais pontos em comum, trabalhar em conjunto com a atenção básica significa para a saúde mental a possibilidade de reforçar suas características fundamentais, o que facilitaria muito o contato e a interação com os atores da atenção básica e vice-versa. “A trajetória do desenho da atenção básica no país e da Reforma Psiquiátrica, não por acaso são paralelas e vão se alimentando uma das outras, esse curso pela característica nacional é uma oportunidade de reforçar isso”.
Leon acredita que o projeto Caminhos do Cuidado terá um alto impacto, já que o seu foco é uma atenção psicossocial na questão do uso prejudicial de substâncias psicoativas, com uma meta de formar cerca de 300 mil Agentes Comunitários de Saúde (ACSs) e Auxiliares e Técnicos de Enfermagem (ATENFs).
Debate sobre drogas no Brasil
De acordo com Leon, a principal característica do debate sobre a questão drogas, hoje, no Brasil é que ele ficou totalmente centrado no crack, embora do ponto de vista de saúde pública, se tenha conhecimento que o maior problema das substâncias psicoativas diz respeito ao álcool, contudo, reconhece que o crack é uma questão emergente.
A discussão mais comum, segundo ele, é a de “como fazer com que as pessoas que têm comportamentos desviantes passem a ter um comportamento mais adequado, com o que as pessoas dizem que é a norma da sociedade”? E, isso, destaca ele, trata-se de uma questão cultural.
Ele reafirma que a questão das drogas ganhou espaço, não por ser um problema de saúde pública, mas pela ótica moralista. “Essa é a realidade da maioria dos bairros, das comunidades no Brasil quando se debate a questão da droga. E isso não deve ser diferente na interação do nosso SUS com as comunidades, com os bairros, e, portanto, nas conversas entre os agentes, as equipes de saúde e nas comunidades com as quais eles trabalham.” Leon disse aos tutores, que eles têm uma oportunidade de conseguir trabalhar essas visões de mundo, colocando outra alternativa de enxergar o problema. “Talvez seja para além da formação, e pela amplitude desse curso é uma oportunidade de virar um pouco o clima geral e a maneira como se debate a questão no país”.
Leon foi enfático ao dizer que “não há campanha publicitária que consiga transformar isso”, e que está comprovado que é ineficiente tentar fazer essa mudança de mentalidade, via campanha publicitária. “Por mais que as reportagens na imprensa melhorem, e que as pessoas escrevam artigos brilhantes para tentar mudar essa visão, nada vai superar essa possibilidade de se conversar dentro das equipes e nas realidades locais a partir experiências de cada um. Conversar e tentar mudar essa perspectiva da moralidade para passar a ser de saúde pública, e no caso do crack, uma questão social”.
Pesquisa da Fiocruz
Leon comentou a pesquisa encomendada pelo Senad à Fiocruz com a finalidade de traçar o perfil das pessoas que estão fazendo uso prejudicial do crack. Segundo ele, foi a maior já feita no mundo sobre esse tema, com uma metodologia inovadora, e que realizou milhares de entrevistas com usuários frequentes de crack em 100 cidades do país, nessas cenas de uso público, desde as grandes “cracolândias” de São Paulo até as pequenas concentrações de usuários em cidades médias, que estão espalhadas pelo país. Os dados que a pesquisa revela, de acordo com Leon, não servem só para os grandes centros urbanos.
O levantamento aponta que 80% dos usuários frequentes são homens, e o que chama a atenção para Leon é que 20% das mulheres são ainda mais vulneráveis do que esses homens, do ponto de vista social. A idade média dos usuários é de 30 anos. “O tempo de uso de crack é de 10 anos, ou seja, a ideia de que usando o crack em seis meses se está morto não é verdade. Do ponto de vista do cuidado é preciso entender que isso é um problema crônico, que vamos ter que trabalhar isso na longitudinalidade com o território. Não é uma guerra que vai se vencer em meses é um trabalho contínuo”.
A pesquisa mostra no perfil social dessas pessoas, usuárias de crack, que 80% são negros ou pardos, esse dado, de acordo com Leon, demonstra que o uso do crack no Brasil tem um componente racial claro, ainda mais, se acrescida à informação de que 80% dos usuários não chegou ao ensino médio.
Leon constata um claro perfil de exclusão social das pessoas que acabam se tornando usuárias frequentes de crack. Quase 60% nas grandes cidades não têm onde morar e vive na rua. No caso de homens e mulheres, mais de metade relataram episódio de prisão no ano anterior à entrevista. Das mulheres ouvidas, quase metade delas relatou violência sexual, e também metade das entrevistadas relatou prostituição para comprar droga ou se sustentar. “Você vai traçando um perfil de exclusão social. Essa é a realidade do problema colocado e tem impacto de saúde pública. Se mostrou ainda que a prevalência de HIV/Aids e de tuberculose nessa população é bem maior que na população geral”, relatou.
Leon explica que a primeira parte da pesquisa realizada pela Fiocruz mostra o perfil de uma população vulnerável e, portanto, as políticas têm que dar conta disto. Outro dado interessante é que 80% dos ouvidos disse que queria se tratar, o que segundo Leon é um bom argumento para debate, que contraria os que defendem a internação compulsória.
Quando se perguntou aos entrevistados, o que eles esperavam da saúde a resposta foi: banho. “Qualquer um que teve a experiência de aproximação do usuário sabe que foi pela demanda urgente da dor ou porque estava com um abscesso no dente ou uma unha encravada, por exemplo, que ele chegou até os serviços”.
Outras respostas mais freqüentes foram as que revelaram o desejo de ter oportunidade para voltar a estudar, de conseguir emprego e ter um lugar onde morar. “Tanto pelo perfil de vulnerabilidade e pelo que eles mostram que desejam, está claro que é preciso trabalhar em forte articulação e integração com outros setores e levar em consideração essas demandas. Eu acho que com essa pesquisa, no caso da crack, fica claro que é uma questão social. É mais uma expressão da miséria que ainda existe no país, que está mudando com relação a isso, mas ainda há pontos de desigualdade muito fortes, que são mais complicados de lidar e precisamos de políticas mais complexas e adequadas”, declarou Leon.
Falando aos alunos, Leon disse que eles têm a oportunidade de trabalhar com atenção básica, nos territórios e com as famílias. Ele acrescentou que ainda estão sendo desenvolvidas as tecnologias de cuidado no campo de álcool e drogas, onde não há a experiência de décadas como em outros campos.
“A rede psicossocial não conseguirá fazer isso em todo o Brasil se não for com o apoio da atenção básica. Mas, para isso precisam estar mobilizados e sensibilizados para o fato de que esse é um problema crucial que merece ser tratado e cuidado pelo trabalho deles”, concluiu.
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