Páginas

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Artigo Dr. Rosinha :: Prefiro-o negro

 
O que pensava o Michael Jackson rico, famoso e quase branco a respeito do menino negro e pobre como foi em seu passado?
 
 
Não lembro com que idade ouvi pela primeira vez uma música que não fosse a sertaneja. No sítio, o dial do rádio tinha endereço certo: estações que tocavam música sertaneja. Não ficava passeando, procurando estação para estacionar.
 
No geral, o aparelho permanecia desligado o dia todo. Só no final do dia, ali pelas cinco da tarde, era ligado. Um dos nossos programas era ouvir a Ave Maria às seis horas da tarde. O rádio ficava ligado até perto das nove da noite.
 
No momento da Ave Maria, fazia-se certo silêncio e minha nonna (avó em italiano) colocava um copo de água ao lado do rádio para ser benzida. Essa água, "benzida" ou "benta", curava muita coisa e era consumida naquela mesma noite até o momento de ir para a cama. Se tivesse tosse, era bom tomar um gole. Creio que hoje seria útil até mesmo para curar a gripe suína.
 
Creio que antes da chegada da televisão, na década de 1960, eu tenha ouvido outras músicas que não a caipira, mas não me lembro, porque as considerávamos ruins. Com a chegada da TV, conheci Roberto e Erasmo Carlos, Jorge Ben, Wanderléa, Martinha e outros da Jovem Guarda.
 
Em questão de música, sou eclético: gosto de todas, desde que tenham alguma qualidade. Continuo gostando da música caipira ou sertaneja. Escrevo tudo isto para dizer que não gosto da música de Michael Jackson —talvez até por preconceito musical. Mas senti sua morte.
 
Não sou adepto da TV, mas na última semana acabei vendo alguns documentários, clipes, trailers e reapresentações do Michael Jackson. Não poderia ser diferente, as emissoras querem faturar. Quanto mais ibope, mais lucro. Acabei vendo alguns desses programas, e gostei. Gostei mais da dança que das músicas. Anteriormente já tinha visto, e agora revi a performance de sua apresentação com o grupo brasileiro Olodum. Muito bonita —gostei até da música.
 
Michael Jackson era aquele que não se aceitava como veio ao mundo. Ele desejava ser outro. Nunca li, mas também não procurei para ler, se alguma vez ele declarou não aceitar sua condição de ser negro. Não é só ele. Muitos negam sua cor de pele e sua condição social, mas nele foi evidente demais. Todos que negam o que são e desejam ser outro, sofrem. E Michael Jackson sofria.
 
Jackson tinha dinheiro e imaginou que, com isso, poderia tentar a cura de sua condição social e étnica. Ao se enxergar como alguém que não deseja ser, passa a investir para ser outro. Fez inúmeras cirurgias, tomou sabe Deus quanto remédio, que, nos últimos tempos, tornou-se um ser fantasmagórico envolvido em lenços, máscaras, cremes e uma boa dose de solidão, tanto que morreu sozinho.
 
Na negação de si, tornou-se um desfigurado. Desfigurado e doente, na busca desesperada pela cura da dor maior, a da alma. Por mais que busque este tipo de cura, ela não está no dinheiro nem nos analgésicos.
 
O que pensava o Michael Jackson rico, famoso e quase branco a respeito do menino negro e pobre como foi em seu passado? Será que, nos momentos de solidão, nas noites de sua "Terra do Nunca" (do inglês Nerverland), Jackson não tinha saudades do passado? Talvez um dia, com alguma biografia, saibamos.
 
Ainda novo, com cinco anos de idade, Michael Jackson começou a cantar e, aos 11, já fazia sucesso. Ou seja, perdeu a infância. Será que não foi essa perda da infância que fez com que ele negasse a vida adulta e buscasse uma eterna infância e juventude? Talvez tenha achado que o dinheiro compraria isso também.
 
Na Terra do Nunca, terra fictícia do livro Peter Pan, as crianças não envelhecem. E foi esse o nome que ele deu ao seu rico rancho onde, isolado, vivia com seus filhos. Ali, como Peter Pan no romance, Jackson era o personagem mais importante. Dele dependia toda atividade do rancho, que era seu reino. Sim, deveria imaginar ser um reino, tanto que seus filhos chamam: Prince Michael I, Paris Michael e Prince Michael II.
 
Se, antes, com o rádio era só a voz, agora com a TV se vê a pessoa. E, vendo as várias fases da vida de Michael Jackson, afirmo: prefiro-o negro. Era natural e não deixava transparecer a dor da alma. Talvez a água benta da minha nonna curasse essa sua dor.

Dr. Rosinha, médico pediatra, é deputado federal (PT-PR)
 
 
 

Outros artigos de Dr. Rosinha:
 
 

Nenhum comentário:

Postar um comentário