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sábado, 22 de agosto de 2009

“Nanicos” desafiaram a ditadura




O Jornal era feito por cooperativa
Jornal desafiou a censura com dom Hélder Câmara na capa

Jornais alternativos, usando o humor ou a ideologia, gahnaram público que discordava do regime militar

Ari Silveira na Gazeta do Povo

Durante as quase três décadas de ditadura que se seguiram ao golpe de 1964, cerca de 150 publicações de oposição surgiram e desapareceram. Eram conhecidas como “imprensa alternativa” ou “nanica”, referência ao formato tabloide que a maioria desses jornais adotava. Ouvido pela Gazeta do Povo, o jornalista e professor da Univer­sidade de São Paulo (USP) Bernardo Kucinski lembra que o ciclo alternativo não ocorreu apenas no Brasil, mas aqui teve características próprias por causa da ditadura.

No fim dos anos 60, a imprensa alternativa prosperou numa era de revolução nos costumes, com a liberação sexual, a luta pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos e as revoltas de maio de 1968 na França. O Pasquim, Opinião, Movimento, Coojornal e Em Tempo eram alguns dos representantes mais expressivos desse movimento no Brasil. O mais longevo e bem sucedido deles completou, em 26 de junho, 40 anos de fundação.

Sucesso

Concebido inicialmente como um jornal do bairro de Ipanema, zona sul do Rio, O Pasquim fez do humor sua trincheira na resistência ao regime e se tornou porta-voz da contracultura, opondo-se não apenas aos valores da ordem vigente, mas também à cultura da esquerda tradicional. Sob o comando do cartunista Sérgio de Magalhães Gomes Jaguaribe, o Jaguar, o jornal permaneceu em circulação até 1991 – um feito extraordinário, considerando-se que a maioria das publicações alternativas não passava do quinto número.

Jaguar não acreditava que o jornal ultrapassasse os limites do então estado da Guanabara e achava loucura rodar 20 mil exemplares na estreia, em 1968, mas a tiragem inteira se esgotou. Em sua fase de maior sucesso, o jornal chegou a vender 225 mil exemplares.

Pregando a liberação sexual, o hedonismo e a coloquialidade, O Pasquim revolucionou o jornalismo brasileiro. Alem da oralidade, a publicação foi a pioneira no uso do palavrão. Millôr Fernandes e Ziraldo colaboraram desde o primeiro número. Em seguida vieram Henfil, Sérgio Augusto e Paulo Francis. Ou­­tros colaboradores ilustres fo­­ram Moacyr Scliar, Chico Buarque, Caetano Veloso, Ferreira Gullar e Gláuber Rocha.

O jornal dedicou uma capa ao arcebispo Hélder Câmara, vetado pela censura, e fez uma entrevista histórica com Leila Diniz, publicada no número 22, em que a atriz, com naturalidade, pontua suas respostas com palavrões – alguns transcritos e outros trocados por asterisco, mas de óbvia dedução.

O Pasquim passou a atrair muitos anúnciantes. Para a repressão, era um instrumento subversivo de desagregação da família. A redação escapou de um atentado a bomba, e em 1970 boa parte da equipe foi presa. O grupo foi libertado em 1971, mas O Pasquim foi submetido à censura prévia até 1975. No fim dos anos 70, a publicação começou a definhar, e fe­­chou em 1991. Passados 18 anos, Jaguar, o único membro da equipe original a permanecer até o fim, se recusa a falar sobre o jornal. “Já dei 500 entrevistas sobre isso”, alega.

Ideologia

Conforme narra Kucinski em Jor­nalistas e Revolucionários, a esquerda ortodoxa não ficou de fora da imprensa alternativa. Militantes de grupos clandestinos viram nos jornais um instrumento de mobilização para construir uma revolução socialista, com semanários vinculados a partidos e movimentos de esquerda. Um deles, O Sol, patrocinado pelo Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR), chegou a circular diariamente e foi citado na canção Alegria Alegria, de Caetano Veloso (“O Sol nas bancas de revistas”).

O surto alternativo da imprensa brasileira conquistou espaços na imprensa convencional. Grandes jornais e revistas mantiveram, por um breve período, uma cobertura crítica à repressão, até que o AI-5, decretado em dezembro de 1968 pelo marechal Costa e Silva, fechou as portas das publicações a jornalistas combativos. Às vozes discordantes restou a imprensa nanica, que se segmentava em vários nichos, como o humorístico, o feminista, o ambiental e o da contracultura.

A partir do meio da década de 70, quando a ditadura começou a ruir, a partir do governo Geisel, a imprensa alternativa se regionalizou – graças a cooperativas de jor­­na­­listas. No Paraná, a Copjornal, de Londrina, lançou o Paraná Re­­pórter (1980), editado por Bernardo Pelegrini, que durou quatro edições. Boca no Trombone, editado em Curitiba por Télia Negrão, não passou do número zero.

A partir de 1981, quase todos os títulos alternativos saíram de circulação. Além de O Pasquim, os que sobreviveram eram ligados a partidos e facções de esquerda. A abertura política foi decisiva para o fim do movimento, já que o combate à ditadura era a principal bandeira de luta da imprensa nanica. Mesmo encerrado, o ciclo alternativo deixou sua marca no país, formando uma geração de jornalistas, cartunistas e até políticos.

Herdeiros

A influência deixada pelo Pasquim está presente até hoje. O filhote mais famoso do jornal foi O Planeta Diário, embrião do Casseta & Planeta. Fundado pelos cartunistas Reinaldo, Hubert e Cláudio Paiva – todos da equipe do Pasquim –, o tabloide, lançado em 1984, apostava no humor anárquico e escrachado. Kucinski afirma que revistas como Caros Amigos mantêm abertos os espaços alternativos na mídia impressa brasileira. “Há ainda a Piauí, que tem uma estética alternativa, mas repete as mesmas ideias da grande imprensa”, observa. Para Kucinski, o jornalismo alternativo ainda se mantém vivo na internet. “É um espaço mais livre”, argumenta.

No Paraná, uma publicação alternativa é a revista literária Coyote, de Londrina, patrocinada pela prefeitura da cidade. “A revista não circula pelos meios normais”, explica o poeta Marcos Losnak, um dos editores. Com tiragem de mil exemplares, Coyote é distribuída em livrarias. Lançada há 7 anos, a publicação, que está chegando ao número 20, é a única do estado com conteúdo exclusivamente literário, em prosa e poesia. Já o jornal Rascunho não se limita a publicar trechos de obras, abrindo espaço para resenhas, críticas, entrevistas e notícias.


“Twitter é mesa de bar virtual”

Entrevista com Nani, humorista

Mineiro de Esmeraldas, o cartunista Ernani Diniz Lucas, o Nani, 58 anos, atuou no Pasquim, já te­­ve sua própria revista (O Na­­nista) e atuou na grande imprensa e na televisão. Em entrevista à Gazeta do Povo, ele comenta o fim da imprensa alternativa e o jornalismo virtual.

A redemocratização esvaziou a imprensa alternativa? Sem uma ditadura para combater, ela perdeu sua razão de ser?

O fim da censura fez com que os jornais voltassem a tratar de te­mas que a imprensa alternativa tratava, e o leitor se voltou pa­­ra a grande imprensa. Mas não foi só isso, a sociedade começou a se diversificar e a ditadura deixou de ser o denominador co­­mum; cada grupo social procurou veículos que melhor representassem suas aspirações. Mas os grandes jornais agora trocam a cultura pelo mundo das celebridades e isso foi um erro.

A culpa, então, é da imprensa?

A imprensa não é culpada sozinha, houve o interesse de todos os governos de manter o povo burro. E sem cultura não se en­­ten­­de a política. O povo foi se des­­politizando e os jornais fo­­ram se despolitizando junto. A imprensa hoje tem de nivelar por baixo e os aculturados correm para as outras mídias.

O destino do jornalismo alternativo é mesmo a internet?

Acho o jornal impresso insubstituível, mas hoje todo mundo virou jornalista. Sem jornal de papel os blogs vão buscar notícia onde? O cara fica em casa de pijama lendo jornal impresso e depois vai vomitar regra no seu blog. Quero ver fazerem isso sem a grande imprensa. Não sei como será o futuro, mas pode ser que seja bem legal ou uma geleia geral.

E o Twitter?

O Twitter é uma mesa de bar virtual universal: tem coisas interessantes, muita abobrinha e os chatos de sempre. Bar de verdade é melhor. (AS)


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