Luciano Martins Costa no Observatório da Imprensa
Os jornais desta quarta-feira tentam fazer render o depoimento da ex-secretária da Receita Federal, Lina Vieira, ocorrido nesta terça-feira no Senado.
Todos os três jornais de circulação nacional abrem manchete para o depoimento que não produziu qualquer informação adicional, qualquer esclarecimento sobre o caso que a imprensa vem perseguindo há semanas.
Lina Vieira seguiu dizendo que foi recebida pela ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, e que esta lhe teria pedido para agilizar a fiscalização sobre o empresário Fernando Sarney.
Mas não soube explicar o que a ministra pretendia com o pedido nem comprovar que realmente esteve no gabinete da Casa Civil.
O Globo registra toda a decepção da oposição (e da imprensa) com o depoimento: em mini-editorial, o jornal carioca lamenta que Lina Vieira “sequer consegue se lembrar do dia do encontro (…) sequer soube dizer se era manhã ou de tarde quando foi ao Planalto”.
A rigor, portanto, a única notícia que existe é a mesma afirmação, que vem sendo repetida pelos jornais, de que a ministra pediu pressa na fiscalização.
Mas Lina Vieira nunca afirmou, nem procurou saber, para que o governo quereria apressar a fiscalização das atividades do filho de José Sarney ainda antes da eleição para presidente do Senado.
Portanto, não existem fatos que justifiquem a manutenção do tema nas manchetes, a não ser, é claro, que os jornais tencionem manter aquecido artificialmente um assunto que esfria naturalmente por falta de conteúdo.
Sabe-se que José Sarney se candidatou a presidente do Senado, em janeiro deste ano, com a intenção de reagir à perda de espaço político no Maranhão, onde sua filha Roseana havia sido derrotada na eleição para governador e usar o cargo para proteger seu filho Fernando, já naquela ocasião envolvido em investigações da Polícia Federal e do Ministério Público.
Também convém lembrar que Sarney só se elegeu presidente do Senado porque recebeu o apoio maciço da oposição.
Se a própria oposição contribuiu decisivamente para dar o poder a Sarney, que significado tem a insistência na exploração de uma frase suposta, cujo sentido nem mesmo a ex-secretária da Receita sabe esclarecer?
Às vezes, o noticiário vale mais pelo que não diz do que por aquilo que anuncia.
Nenhum comentário:
Postar um comentário