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terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Colonialismo x colonialidade do poder

Ateneia Feijó no blog do Noblat

Você desconfiava que existiam cerca de 370 milhões de índios no mundo? E que eles correspondem a um terço dos 900 milhões de humanos que vivem em extrema pobreza em áreas rurais deste planeta?

Eu tinha razões para acreditar em milhares de índios com dificuldades de usufruir uma vida digna nas periferias de pequenas cidades. Aí fiquei sabendo do relatório sobre o estado das populações indígenas do mundo divulgado na última quinta-feira pela Organização das Nações Unidas (ONU).

Entre as causas da miséria dos índios estão o analfabetismo, o desemprego e a discriminação. Mesmo quando se imagina não haver mais colonialismo. Pelo menos nas Américas. Talvez alguma "colonialidade" como diz o pesquisador argentino Walter Mignolo, professor da Universidade Duke (EUA). O que é grave. Você vai entender mais adiante.

Outra coisa. Deveria ser inimaginável que em países considerados desenvolvidos como os Estados Unidos, Canadá, Austrália e Nova Zelândia os indígenas, além de pobres, sejam atingidos pela obesidade, diabetes tipo 2 e baixa expectativa de vida. Para se ter uma ideia, na Austrália um arborígene vive em média 20 anos menos que os demais australianos. Está no relatório.

E no Brasil? O aviador e escritor Marcos Terena, articulador do Comitê Intertribal - Memória e Ciência Indígena (ITC), considera a situação dos guarani kaiowá em Mato Grosso do Sul a mais dramática entre os problemas indígenas brasileiros.

Além de sofrerem com desnutrição, desemprego, falta de terras e violência, os guarani kaiowá são vítimas de alcoolismo e suicídio. Não é novidade. Tampouco é novidade que as taxas de pobreza dos povos indígenas de vários países da América Latina estejam acima do restante da população.

No Brasil, Bolívia e Chile, mais da metade deles vive em áreas urbanas. Seria essa a razão? Ou seja, ausência do poder público nas questões de educação e saúde de que tanto necessitam para se inserir no mercado de trabalho?

O baixo acesso a mecanismos que lhes garanta terra, saúde, educação e participação nas decisões políticas e econômicas em seus países têm explicações históricas. Daí o documento concluir: colonização e expropriação fundiária são responsáveis por esses indicadores.

Nove países americanos se preparam para comemorar os bicentenários do fim do império espanhol nas Américas Central e do Sul. E o tema indígena estará na crista da onda. Movimentos indigenistas na Bolívia, no Peru e no Equador consideram a colonização como o início de um período de opressão que se mantém até hoje.

Na edição do último sábado, pautada nessas comemorações, o caderno Prosa e Verso do jornal O Globo traz uma entrevista de Guilherme Freitas com o professor Mignolo, na qual ele distingue colonialismo da colonialidade que citei lá em cima.

Colonialismo espanhol, inglês, português ou francês tem a ver com momentos históricos específicos. Já a colonialidade é "a lógica de repressão, opressão, despossessão, racismo", explica o professor.

Mais. Ele se refere criticamente à denominação "América Latina". Argumenta que a latinidade satisfaz as populações de origem europeia, mas não as populações indígenas. E vê a formação das Américas como um processo heterogêneo, e complexo, derivado de diversidades indígenas, africanas e europeias.

Ele enfatiza que mesmo após as independências do século XIX prevaleceu o saber e o poder de decisão de países europeus, estabelecendo uma espécie de "colonialismo interno" em territórios americanos. "Os últimos duzentos anos foram dominados pela lógica da colonialidade controlada pelos criollos (descendentes de europeus) e imigrantes assimilados ao espírito criollo."

Mignolo acredita que hoje esteja havendo um desprendimento da colonialidade. E na ex-colônia lusitana, com sua população cabocla e cafuza? Marcos Terena tem uma resposta significativa: "Um índio não consegue ser presidente da Funai (Fundação Nacional do Índio)!"

Ateneia Feijó é jornalista

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