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domingo, 10 de janeiro de 2010

Compra de vacinas contra gripe A cria dilema entre países ricos


Alemanha, EUA, França e até Luxemburgo são exemplos de nações que estão lidando com o problema de estoques gigantescos de doses de remédio

na Gazeta do Povo

Para se precaver de uma nova onda de gripe suína, países do Hemisfério Norte iniciaram no último trimestre do ano passado uma compra massiva de vacinas contra o vírus H1N1. O principal temor era que a chegada do in­­ver­­no – em dezembro – causas­­se uma nova leva de vítimas e transtornos. Chegando agora ao período mais rigoroso da estação, esses países enfrentam dois problemas controversos: a pouca adesão da população, desmotivada pelas notícias de baixa letalidade do vírus; e os grandes estoques ociosos, que provocam desgaste político.

O bate-cabeça do governo francês é ilustrativo. Na semana passada, partidos da oposição pediram a abertura de uma in­­vestigação para apurar as compras excessivas de vacina. A Fran­­ça, um país com 63 milhões de habitantes, havia encomendado 94 milhões de doses, a um custo total de US$ 1,25 bilhão. O volume da compra representa 10% do estoque mundial.

Segundo o governo francês, a compra foi embasada em análises iniciais que afirmavam ser necessário duas doses por pessoa. Estudos posteriores apontaram o erro. Além disso, a diminuição no relato de casos fatais desmotivou a população francesa a enfrentar as baixas temperaturas em busca de imunização. Até a semana passada, 5 milhões de pessoas haviam se vacinado. Para evitar acúmulo de estoque e desperdício do remédio, a Fran­­ça cancelou o pedido de 50 mi­­lhões de doses que ainda não ha­­viam sido entregues.

O mesmo roteiro se repete em outros países da Europa, e também nos Estados Unidos. Na Es­­panha, o ministério da saúde di­­vulgou a informação de que está conversando com os laboratórios para devolver a medicação não utilizada. O pequeno grão-ducado de Luxemburgo, que tem uma população de 450 mil habitantes, encomendou 700 mil do­­ses. Após a campanha de vacinação estacionar em 50 mil pessoas, o país pretende doar o excedente a outras nações, pois o contrato firmado com as indústrias farmacêuticas não permite a devolução.

Liberação

Os Estados Unidos, com o estoque atual de 100 milhões de doses, cancelaram a restrição da aplicação aos grupos de risco (grávidas, jovens) e autorizaram a distribuição geral. Mesmo assim, a per­­­­cepção de que o surto de gripe A está diminuindo afastou os re­­ceptores, e levou a Casa Branca a destinar 10% do estoque para doação.

A Alemanha cancelou metade do seu pedido de 50 milhões de doses. O governo acredita que 25 milhões de doses são o suficiente para proteger os seus 80 milhões de habitantes, dos quais 6 milhões já foram vacinados. No país também há baixa procura por imunização.

Outros cuidados

Na avaliação de Enrique Gil, re­­presentante em exercício da Orga­­nização Pan-Americana de Saú­­de no Brasil (braço da Organi­­za­­ção Mundial da Saúde, OMS), uma campanha de vacinação global precisa estar atrelada a outros cuidados. “A população deve continuar reforçando os há­­bitos de higiene pessoal e, caso apresente sintomas da doença, permanecendo distante do contato público e procurar ajuda mé­­dica. E os governos devem preparar seus sistemas de saúde para re­­ceber os pacientes. Somente um trabalho integrado entre po­­pulação, serviços de saúde e go­­verno pode deter a gripe suína”, ressalta.

Para evitar o conflito moral que a geopolítica da vacina pode causar, a OMS iniciou um programa global de relocação do estoque mundial do medicamen­­to contra a gripe suína. O estoque, doado pelas nações mais ricas, deverá ser repassado a 95 países, que serão beneficiados de acordo com o risco em relação a uma nova pandemia.

Beneficiados

Os primeiros destinatários serão países pobres do He­­misfério Nor­­te, por estarem atualmente no “grupo de risco” do inverno. Afeganistão, Azer­­bai­­jão e Mongólia estão no topo da lista, e a es­­timativa da OMS é que estes países possam contar com a ajuda até o fim desta semana.

Enrique Gil acredita que o órgão in­­ter­­na­­cional precisará vencer alguns obstáculos para ser bem-su­­cedido na distribuição das va­­cinas. “É uma corrida contra o tempo. A produção atual não é suficiente para co­­brir toda a população mundial. Além disso, os países que vão receber grandes quantidades da vacina precisam ter certeza de que terão ca­­pa­­cidade de armazenamento em refrigeradores”, prevê.

Brasil

O Brasil prescinde da ajuda in­­ternacional. Na se­­mana passada, o governo anunciou a compra de 83 mi­­lhões de doses, ao custo de R$ 1 bilhão. Se o cenário europeu se repetir no inverno brasileiro, a quantidade adquirida de­­­­verá ser o suficiente para atender toda a demanda. “O Hemis­­fério Norte está saindo da segunda onda de gripe A e os países do Hemisfério Sul, como o Brasil, precisam se preparar com antecedência para o mesmo, no in­­verno deste ano”, afirma Gil.

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