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quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

A ERA DOS VÍRUS

Estudioso da trajetória dos vírus e sua participação na história da evolução no planeta, autor de três livros sobre o tema, Stefan Cunha acredita que vivemos em uma era virológica e que as pandemias atuais estão diretamente relacionadas à quantidade de animais domesticados, criados de maneira inadequada

A era dos vírus

Estudioso da trajetória dos vírus e sua participação na história da
evolução no planeta, autor de três livros sobre o tema, Stefan Cunha acredita que vivemos em uma era virológica e que as pandemias atuais estão diretamente relacionadas à quantidade de animais domesticados, criados de maneira inadequada


Por Alice Giraldi na Revista Pesquisa Médica

Chimpanzés do Gabão, patos e gansos migratórios do Sudeste Asiático, morcegos da África, gatos selvagens da Tailândia, porcos e galinhas das Américas: o que esses animais têm a ver com as doenças ameaçadoras que rondam o ser humano desde o século 20, como a AIDS, a gripe aviária, o ebola, a SARS (síndrome respiratória aguda grave) e, agora, a influenza A (H1N1). Segundo o infectologista Stefan Cunha Ujvari, especialista em doenças infecciosas e parasitárias pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), os animais, sejam eles selvagens ou domesticados, são hoje a principal fonte de novos vírus e doenças infecciosas.
Mas sua expectativa é de que a atual pandemia de H1N1 e a possibilidade do surgimento de uma pandemia de H5N1 - cuja letalidade é de 50% entre humanos - deve favorecer a criação de novos protocolos, que estabeleçam normas de higiene sanitária mais rígidas para as criações animais, particularmente no Sudeste Asiático. Segundo ele, já se tentou introduzir algumas regras para as criações nessa região, no passado. "Mas a tarefa não é fácil, uma vez que mais de 80% das criações, no Sudeste Asiático, são domésticas. Os animais são criados ao redor das casas e a população tira o sustento dessa atividade." Em entrevista à Pesquisa Médica, o autor dos livros A história e suas epidemias (2003), Meio ambiente & epidemias (2004) e A história da humanidade contada pelos vírus (2008) explica como acrescente pressão no meio ambiente e a necessidade de produção de alimentos infl uenciaram o surgimento de novos vírus e de que maneira os estudos genéticos, como nunca antes na história, podem nos ajudar a lidar melhor com eventos pandêmicos.


Pesquisa Médica - Os vírus têm sido nossos companheiros constantes ao longo da história, apesar de sua capacidade de mutação e potencial letalidade representarem um enorme desafio para o ser humano. Como tem se dado esse relacionamento: precisamos dos vírus, de alguma forma?

Stefan Cunha - Há indícios de que no passado necessitamos dos vírus para evoluir. O exemplo clássico são os retrovírus parentes do HIV, que é o vírus da AIDS. No início desta década, quando tivemos condições de estudar o genoma humano, vimos que em torno de 6% de nossos genes são compostos por retrovírus. Esses vírus nem existem mais hoje como doença, mas, há milênios, os seres vivos que antecederam o Homo sapiens foram infectados por eles e essa memória ficou registrada em nosso genoma. Sabemos, hoje, que eles foram importantes para a evolução humana. Alguns evolucionistas creem que a infecção pelo retrovírus que afetou nossos ancestrais teve papel importante no surgimento dos animais placentários. O material genético que incorporaram foi responsável, por exemplo, pela produção de substâncias importantes para a formação da placenta. Há hipóteses de que os retrovírus também teriam papel relevante na produção de outras substâncias que diminuem a imunidade da região uterina, o que reduziria a possibilidade de rejeição do feto pelo organismo da mãe.

Pesquisa Médica - E do ponto de vista ambiental, qual é a papel dos vírus?

Stefan Cunha - No fim do século 19, a humanidade viveu a chamada "era bacteriológica". Já tínhamos o microscópio ótico, já havíamos identificado as bactérias, mas não tínhamos desenvolvido a teoria de que as bactérias causavam as infecções. Somente em 1870 foram divulgados os primeiros trabalhos que mostravam a relação entre as bactérias e as infecções. Houve, então, uma corrida para se descobrir que doenças eram causadas pelas bactérias, como tuberculose, pneumonia, meningite, amigdalite. Na minha opinião, vivemos atualmente uma "era virológica". Estamos vendo uma série de novos vírus surgindo no ser humano - e esses vírus vêm dos animais. Quanto mais o ser humano criar animais domesticados, e quanto mais aglomerados estiverem esses animais, maior o risco de haver vírus circulando entre eles - incluindo vírus mutantes, que atingem os humanos. O vírus é, na verdade, uma forma infecciosa simples. Trata-se de um envelope com uma carga genética dentro, que pode ser RNA ou DNA. Só isso. Ele não precisa de um meio de cultura para se reproduzir, como a bactéria. É necessário, apenas, haver uma célula viva, um animal, um hospedeiro.

                                                      
                 


Pesquisa Médica - De que maneira a nossa relação com o ambiente favorece o surgimento de novos vírus?

Stefan Cunha - O que acontece com animais domesticados também ocorre com animais silvestres: quanto mais o ser humano entra em contato com esses animais, mais está se expondo a vírus novos. Foi o que aconteceu com o ebola, por exemplo, que teve origem na África. Apesar do destaque dado à epidemia de ebola de 1995, a verdade é que há epidemias desse vírus todos os anos. Quanto mais desmatamos e invadimos as áreas selvagens, mais aproximamos o homem e suas comunidades da porta de entrada de novos vírus. Um outro exemplo foi a epidemia de SARS, em 2003. Tratava-se de um coronavírus novo, que se espalhou pelo Sudeste Asiático, foi levado para o Canadá e os Estados Unidos via a navegação aérea e, finalmente, contido. Pesquisadores perceberam depois que o vírus da SARS era muito parecido com o que habita um gato selvagem chamado civeta, um felino que é até hoje caçado para fins culinários na Tailândia e na Malásia. Os asiáticos entraram em contato com um animal selvagem, que tinha um vírus mutante e este acabou causando infecção no homem. Esse também é o caso da AIDS. Originalmente, o HIV era um vírus do chimpanzé que vivia no Gabão e na República dos Camarões, na África, onde esses animais eram capturados para servir de alimento. A população entrou em conta
to com as vísceras e o sangue desses chimpanzés  e infectou-se. Há, ainda, o caso do hantavírus. Seu material genético mostra que era um vírus presente há milênios em roedores silvestres das Américas. Ao desmatar as áreas virgens para o plantio, o homem trouxe esses ratos para perto das comunidades humanas, onde esses animais passaram a eliminar o vírus pela urina e fezes e a contaminar o homem, por inalação. O hantavírus apareceu em 1994. A AIDS foi detectada na década de 1980, embora os estudos genéticos mostrem que ela tenha surgido já na década de 1930. A SARS apareceu em 2003 e o ebola, em 1976. E, quando se consideram também os vírus de animais domesticados, temos o H5N1, da gripe aviária, que foi identificado em 1997, e agora o H1N1, da gripe suína, em 2009.

Pesquisa Médica - O aparecimento de novos vírus e pandemias que afetam cada vez mais humanos seria, então, uma manifestação do desequilíbrio causado por um excesso de interferência humana no ambiente?

Stefan Cunha - Trata-se, na verdade, de uma consequência da necessidade humana de domesticar quantidades cada vez maiores de animais para dar conta da demanda por alimentos. Somos hoje 6 bilhões de habitantes, nunca fomos tantos no planeta, não há como o ser humano evitar a invasão das áreas ocupadas por animais selvagens. Por outro lado, alguns historiadores afirmam que até o século 19 a presença dos agentes virais e bacterianos funcionava como um termômetro do crescimento humano. À medida que a população crescia, começavam a faltar alimentos para todos. Ainda não tinham
sido criadas as modernas técnicas de agricultura, tais como o uso de fertilizantes e a seleção genética de grãos, capazes de aumentar a produção de alimentos. Com a fome, surgia uma população mais desnutrida, depauperada, o que favorecia o aparecimento das epidemias. As epidemias, então, segundo esses autores, atuavam na contenção do crescimento
populacional. A partir de 1900, uma série de invenções e descobertas humanas criou melhores condições de vida na Terra: foram desenvolvidos os fertilizantes e descoberta a origem dos agentes infecciosos, o que nos levou a drenar as áreas alagadas para combater os mosquitos, caçar os ratos, colocar cloro na água, direcionar os esgotos. Com isso, contivemos a fome e as epidemias. O resultado foi um salto de crescimento da população.

Pesquisa Médica - Estudiosos estimam que uma nova pandemia atinge a população humana a cada período de 50, 70 anos. Essa estimativa ainda valeria hoje num mundo cada vez mais globalizado, com enorme facilidade de transporte entre regiões e crescente pressão ambiental?

Stefan Cunha - Essa estimativa teve origem num modelo matemático criado na década de 1970. Estudando o aparecimento de pandemias ao longo da história, especialistas verificaram que elas se repetiam a cada período de cerca de 70 anos. O que de fato se sabe, hoje, é que a ocorrência de pandemias está diretamente relacionada à quantidade de animais domesticados: quanto maior for o seu número, mais intensa a troca de vírus entre espécies e maior a probabilidade de ocorrerem novas pandemias. No que diz respeito ao vírus da influenza, esse assunto tem sido bem estudado, pois há uma vigilância global, em razão do medo de novos surtos. O vírus H5N1, da gripe aviária, apareceu antes de 1997, a partir da mistura de vírus de gansos, codornas e patos e do contato entre esses animais em lagos e lagoas do Sudeste Asiático. Posteriormente, o H5N1 foi transmitido às galinhas. De lá para cá, esse vírus vem circulando entre animais domesticados. Com o H1N1 se deu algo semelhante. Ao longo de todo o século 20, da década de 1920 até os anos 1990, o
vírus do porco americano era do tipo clássico, apenas H1N1. Esse vírus ficou estável todo esse longo período. Na década de 1990, com o crescimento da população de porcos, estimulada pelo crescimento da população humana e pelo aumento do consumo de carne, juntamente com as condições insalubres
de criação desses animais, incluindo a mistura de secreções e o contato com aves migratórias, começaram a surgir novos vírus. Durante a última década apareceu nos porcos o vírus H3N2, depois uma mistura deste com o H1N1, e assim por diante. O H1N1 atual, já com os quatro vírus ao mesmo tempo (o humano, o das aves e de dois tipos de suíno, das Américas e da Eurásia), não surgiu agora. Ele estava sendo formado nos últimos dez anos, a partir de vírus de porcos e aves. Mais recentemente, uma mutação criou um vírus capaz de invadir o ser humano e de ser transmitido de humano para humano.

Pesquisa Médica - O que deve mudar na prevenção de novos eventos pandêmicos a partir da experiência com a pandemia de influenza A (H1N1)?

Stefan Cunha - A Organização Mundial da Saúde já vinha se organizando para montar protocolos destinados ao enfrentamento de uma nova pandemia, que, se acreditava, seria do vírus H5N1, da gripe aviária. Na minha opinião, a atual pandemia de H1N1 e a expectativa do surgimento de uma pandemia de H5N1 - cuja letalidade é de 50% entre humanos - devem favorecer a criação de novos protocolos para estabelecer normas de higiene sanitária mais rígidas nas criações de animais, particularmente no Sudeste Asiático. No passado, já se tentou estabelecer regras desse tipo para a região. Mas a tarefa não é fácil, uma vez que mais de 80% das criações, no Sudeste Asiático, são domésticas. Os animais são criados ao redor das casas e a população tira o sustento dessa atividade. De qualquer maneira, é preciso evitar que o homem transmita vírus para os animais e que ocorra o caminho inverso, dos animais para o homem. Para isso, seria necessário reforçar as medidas de biossegurança nas criações, intensificando o uso de botas, máscaras, luvas e roupas especiais pelo pessoal responsável pelo manejo. É importante, também, promover um isolamento maior das aves migratórias, em relação às criações, de porcos ou aves, para evitar, por exemplo, que a água utilizada para esses animais seja contaminada por dejetos das aves migratórias.

Pesquisa Médica - De que maneira os avanços no conhecimento genético podem auxiliar no manejo de pandemias?

Stefan Cunha - A atual pandemia de influenza A (H1N1) tem mostrado que os estudos genéticos sobre os vírus podem ajudar a esclarecer a origem
dos agentes infecciosos, o que permite estabelecer as estratégias mais adequadas de prevenção e contenção, e também de monitoramento de uma possível mutação do vírus para uma versão, eventualmente, mais agressiva ou resistente aos antivirais. Os estudos genéticos têm, ainda, papel importante no esclarecimento dos mecanismos de higiene que realmente funcionam e no direcionamento da produção de novos medicamentos e vacinas.

Pesquisa Médica - Um dos motivos que gerou o atual pânico em torno do vírus A (H1N1) foi a comparação com a pandemia de 1918. Como você vê uma e outra?

Stefan Cunha - Os estudos genéticos mostram que não há muito sentido nessa comparação, já que a gripe espanhola, de 1918, foi causada por um vírus de ave, não por um vírus de origem suína. Além disso, o nível de conhecimento científico que temos hoje e os recursos disponíveis nos colocam em condições de enfrentamento muito diferentes das que existiam em 1918. Naquela época não havia antibióticos. É importante lembrar que mais da metade das vítimas da gripe morreram por infecção bacteriana decorrente das complicações causadas pelo vírus e não se tinha conhecimento adequado para o manejo da pandemia, até mesmo sobre medidas simples, como a importância de se lavar as mãos para evitar o contágio. Finalmente, mas não menos importante, é o fato de o vírus A (H1N1) ter se mostrado bastante estável. Não estamos esperando que sofra mutações capazes de causar uma segunda onda pandêmica mais agressiva, como aconteceu com a gripe espanhola.
















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