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quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

O futuro da longevidade

Supercontrolar as doenças crônicas para preservar a capacidade funcional e a autonomia física das pessoas idosas é o desafio do século no novo paradigma da geriatria preventiva para a população que envelhece

















Andrea Polimeno e Vanessa Santana

A humanidade já vive hoje o dobro do tempo vivido por seus ancestrais. Com o controle do câncer, dos processos inflamatórios, assim como a evolução dos cuidados no trauma e o desenvolvimento de fármacos que adiam o envelhecimento, a ciência médica prevê que a espécie humana possa viver ainda mais - atingindo os 100 e até mesmo os 120 anos de idade. Prolongar a vida humana no período da senescência, em que o indivíduo está naturalmente mais frágil e vulnerável, tem, como se sabe, implicações econômicas, sociais, psicológicas e até mesmo éticas. "A doença crônica malcuidada leva o indivíduo à decrepitude no seu transcorrer", atesta o pesquisador Wilson Jacob Filho, diretor do Serviço de Geriatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP). "Dos 70 aos 80 anos de idade, há a presença em média de quatro ou mais doenças crônicas. Dos 90 aos 100, são cinco ou mais", afirma Jacob, principal autor do estudo Qualidade de Vida e Multimorbidade em Idosos Ambulatoriais.

Surge, neste contexto, um novo paradigma na saúde, na área da gerontologia e geriatria. A presença ou a ausência de doenças deixa de ser um indicador importante de "envelhecimento saudável" e dá lugar à avaliação do grau de capacidade funcional mantido pelo indivíduo. A Organização Mundial da Saúde (OMS) define como incapacidade funcional a dificuldade - promovida por uma deficiência - para realizar atividades rotineiras e pessoalmente desejadas pelo indivíduo.

Adiando o início das doenças crônicas

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O impacto do envelhecimento populacional nas próximas décadas tem sido uma questão recorrente na agenda de encontros internacionais como o World Economic Forum. "Talvez não haja questão mais importante para muitas sociedades hoje do que o envelhecimento da população", afirma o parágrafo de abertura de um dos relatórios do último encontro em Da
vos, este ano. Além dos aspectos econômicos, a discussão envolve projetos de remodelamento urbano, que incluem a acessibilidade universal, ao lado da busca de recursos para controlar o declínio funcional da capacidade na vida senil. O que se deseja é atender as demandas atualmente conhecidas atreladas ao envelhecimento - como o acesso aos serviços de saúde e a medicamentos - e com o tempo reduzi-las. "O ideal seria conseguirmos postergar o início das doenças crônicas o máximo que pudermos", diz Jacob. Como o ideal nem sempre é possível, o que os cientistas buscam hoje são novos meios que possibilitem a convivência com as multimorbidades sem que se tenha de conviver, necessariamente, também com a debilidade física - e a perda da autonomia que ela implica. Esta é, de longe, a maior preocupação das pessoas em relação ao envelhecimento

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O último relatório do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) dedica uma seção especial ao tema. De acordo com o relatório, a incapacidade funcional é avaliada frequentemente por meio da "declaração indicativa de dificuldade em atividades básicas da vida diária (cuidado pessoal) e em atividades instrumentais da vida diária, mais complexas, necessárias para viver de forma independente na comunidade". As medidas de mobilidade fazem parte, também, da avaliação do declínio funcional, de acordo com o IBGE. Guralnik e outros (1995), em estudo com idosos nos Estados Unidos, mostraram que resultados utilizando as medidas de mobilidade têm provado ser valiosos no estudo da relação do status funcional com características demográficas, condições crônicas e comportamentos relacionados à saúde. Para o Brasil, pensar o envelhecimento populacional é emergente - e urgente. Os números do IBGE divulgados no dia 2 de setembro deste ano reiteram que a participação da população idosa nos recursos do sistema de saúde é maior devido a internações mais frequentes
ao maior tempo de permanência no leito e à presença de multimorbidades nessa faixa etária. Os Indicadores Sociodemográficos e de Saúde do Brasil 2009 mostram que as doenças crônicas atingem 75,5% dos idosos − na faixa etária de 0 a 14 anos, a proporção é de 9,3%. As principais causas de morte para pessoas acima de 60 anos são as doenças circulatórias, respiratórias e os tumores. Os dados do IBGE também mostram que, à medida que a população idosa aumenta no País, diminuem as taxas de fecundidade e o que era uma pirâmide etária clássica, há cerca de 40 anos, vem se retangularizando ao longo das últimas décadas. "A projeção é de que a pirâmide brasileira se inverta até 2050, com as bases muito estreitas: poucos jovens. E uma população cada vez mais idosa", prevê o médico Alexandre Kalache, ex-chefe do Programa de Envelhecimento e Saúde da OMS, em Genebra. Recém-aposentado e de volta ao Rio de Janeiro, sua cidade natal, o médico trabalha na criação do Centro Internacional de Políticas para o Envelhecimento na capital fluminense, além de ser assessor para o envelhecimento global da Academia de Medicina de Nova York. "Não temos tempo a perder", diz Kalache, lame ntando que os pesquisadores estão preocupados em saber o que vai acontecer com esse envelhecimento, mas os estudos econômicos relacionados ao futuro da longevidade estão sendo feitos, sobretudo, nos países mais desenvolvidos.






















De Nova York a Moscou

O Brasil terá a sexta maior população de idosos do planeta em 2025 - mais de 32 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, de acordo com o médico Luiz Roberto Ramos, diretor do Centro de Estudos do Envelhecimento e professor do Departamento de Medicina Preventiva da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Ramos está à frente da implementação do "Bairro Amigo das Pessoas Idosas", na Vila Clementino, onde está localizada a Unifesp, em São Paulo - com toda sua rede de ensino e atendimento distribuída pelo bairro. O programa instituído por Kalache durante sua atuação na OMS, e batizado de "Cidades Amigas das Pessoas Idosas", teve como piloto o bairro de Copacabana, em 2005, dando origem a um protocolo internacional que visa incentivar os gestores das cidades, mundo afora, a atentarem para as demandas que o envelhecimento implica e tornarem suas cidades mais adequadas e mais responsivas às necessidades dos idosos. Trinta e cinco cidades, incluindo Nova York, Londres, Delhi e Moscou, já aderiram ao protocolo. Dois anos é o tempo previsto para que a Vila Clementino esteja totalmente readaptada às necessidades dos moradores acima dos 65 anos. Ramos explica que a escolha do local é estratégica, por razões óbvias, pois, além de ser o bairro onde a escola está inserida, é "relativamente estável, sem migração" - fácil, portanto, de se acompanhar o envelhecimento populacional.
O projeto receberá incentivo da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), em parceria com o Ministério da Saúde, pelo programa Políticas Públicas no SUS (PPS), que tem a perspectiva de incrementar o serviço público de saúde com base em resultados de pesquisas de ponta feitas nas universidades. "A ideia é que a Fapesp financie o registro dessa implantação da forma como a OMS propôs, por meio de 'grupos focais'", conta Ramos, o que significa envolver diferentes especialidades médicas, além de pesquisadores e voluntários de outras áreas. A geriatria é fundamentalmente multidisciplinar, lembra o médico, que é especializado em geriatria preventiva. "O nosso trabalho será catalisador de iniciativas que já estão presentes aqui", ele diz, dando como exemplo os estudos que envolvem a Universidade da Terceira Idade, o Centro de Saúde, que é uma unidade do estado e foi terceirizada para a escola, e o Centro de Estudos do Envelhecimento, onde surgiu esse projeto. Os grupos focais deverão contribuir com dados e resultados de estudos para a elaboração das diretrizes de implantação de bairros ou cidades amigas do idoso em outras regiões do País. Na área de cardiologia, a Unifesp fez parceria com o Instituto Dante Pazzanese e o Hospital Israelita Albert Einstein, que farão a avaliação de risco de fatores cardiovasculares, de índice tornozelo-braquial, e uma série de exames coronários e laboratoriais para focar a questão do risco cardiovascular. Outras parcerias estão sendo realizadas nas áreas de sono, saúde mental e saúde do homem.

A falha é nossa

A experiência desse grupo teve origem em um estudo de coorte iniciado em 1991 para o seguimento de idosos da comunidade. A princípio, foi feito um recenseamento que selecionou 1.700 idosos para o seguimento por meio de inquéritos domiciliares com dois anos de intervalo. A partir de 1993, os idosos passaram a ir até os centros de estudos para a avaliação de fatores relacionados ao envelhecimento saudável. Os pesquisadores buscaram, então, investigar por que alguns evoluíam melhor, outros não; uns morriam mais cedo, outros mais tarde. Quase vinte anos depois, os resultados dessa experiência − e também de outras equipes que realizaram estudos de coorte com idosos ao redor do mundo - reafirmam o surgimento do novo paradigma de saúde. O indicador mais importante não é mais a presença ou não de doença, mas o grau de capacidade funcional do indivíduo. "Pretendemos encontrar um meio de fazer com que doenças crônicas como diao betes, por exemplo, ou hipertensão não sejam tão lesivas à capacidade funcional dos idosos como têm sido", diz Luiz Ramos. "Os dados estão aí mostrando que apesar de a hipertensão arterial ser uma doença altamente prevalente que é fácil de diagnosticar e de tratar, 70% dos velhos são hipertensos e menos de 20% deles estão com a pressão controlada. Essa é uma falha nossa, é uma falha do sistema, porque não é uma doença que não tem cura, que seja de difícil diagnóstico."

O QUE VEM POR AÍ

PESQUISAS ATUAIS CRIAM PERSPECTIVAS PARA O FUTURO

Viver muito tempo nos dias de hoje pode representar "levar muito tempo para morrer" - devagar, dispendiosamente, com um grande número de doenças crônicas e incapacidade funcional. A maioria das pessoas teme se tornar dependente de outros, afirma Luigi Ferrucci, 'chefe dos estudos longitudinais no National Institute on Aging e diretor do Baltimore Longitudinal Study of Aging, o maior estudo de coorte americano sobre o envelhecimento. Cientistas do mundo todo já deram a largada para a corrida em busca de uma cura para problemas que acompanham a longevidade.

CONTROLE INFLAMATÓRIO

A recente abordagem sobre a relação de causa e efeito entre a infl amação e o envelhecimento levanta a hipótese de que o sistema inflamatório seria o principal responsável pela senescência assolada por doenças crônicas. Na teoria, o controle infl amatório pode ser a chave para uma vida senil saudável. O envelhecimento não seria apenas o resultado da passagem do tempo, mas o produto de algo que o organismo criaria, como uma espécie de efeito colateral - e paradoxal - do sistema inflamatório que nos protege das doenças infecciosas. A ideia de que doenças crônicas são causadas pela inflamação persistente existe desde o século 19. Nos últimos anos, a bioquímica moderna e o crescente número de pesquisas em biologia sistêmica tornaram possível investigar as interações que envolvem as respostas do organismo à, entre outros agentes, infl amação. "Fatores inflamatórios predizem quase todos os desfechos ruins em humanos", acredita o pesquisador Russell Tracy, professor de patologia e bioquímica da Universidade de Vermont, autor da pesquisa pioneira que ajudou a demonstrar o papel da infl amação nas doenças cardíacas. Ao pensar o envelhecimento como "consequência" da infl amação, como Tracy e outros gerontologistas proeminentes têm feito, é possível começar a ver uma luz no fim do túnel. Se a decrepitude é conduzida pela super-reação do sistema imune, então ela é tratável. Alguns acreditam que encontrar a droga anti-infl amatória certa seria a panaceia para tratar diabetes, demências, doenças cardíacas e até mesmo o câncer.

EM BUSCA DA PÍLULA MILAGROSA

O desejo da eterna juventude é tão antigo quanto a humanidade. O último elixir da longa vida, uma molécula encontrada no vinho tinto, porém, continua a surpreender até mesmo os céticos nessa questão. Nos últimos cinco anos, esse composto, o resveratrol, tem se mostrado capaz de desacelerar o envelhecimento em modelos animais. Outros compostos que atuam com os mesmos mecanismos têm mostrado potencial semelhante, afetando um grupo de proteínas chamadas sirtuínas. O resveratrol começou a ser falado em 2006 quando cientistas da Universidade de Harvard, conduzidos pelo patologista David Sinclair, detalharam suas propriedades milagrosas. Eles demonstraram que camundongos obesos alimentados com uma dieta calórica puderam viver mais e envelhecer mais lentamente que o normal, mas, para obter a quantidade de resveratrol dada a eles, uma pessoa teria de consumir algo em torno de mil garrafas de vinho tinto por dia. O professor da Universidade de Boston, Thomas Perls, fundador do New England Centenarian Study e da Elixir Pharmaceuticals, além de ser autor de uma pesquisa com mais de 1.500 pessoas que viveram até pelo menos 100 anos de idade, acredita que acabar com o tabagismo e adotar uma vida saudável tem muito maior impacto do que uma "pílula milagrosa". Ele afirma que pessoas como os adventistas do sétimo dia − que não bebem, não fumam e são vegetarianos − vivem 10 anos mais do que o restante da população.


O estudo de coorte com os idosos teve quatro fases (91-92/93-94/98-99/2000-2001) e agora, com o lançamento do Bairro Amigo do Idoso, previsto para o dia 1º de outubro, Dia Internacional do Idoso, pretende-se recrutar uma nova coorte. Entre as várias metodologias aplicadas na pesquisa em envelhecimento, os estudos longitudinais ou de coorte têm se mostrado os mais interessantes para o conhecimento das questões do envelhecimento, porque permitem observar a variação das populações ao longo do tempo, como apontam os pesquisadores do National Research Council (NRC). Os estudos em painel, como são denominados os que vêm sendo desenvolvidos pela Unifesp, que continuam a acrescentar novas coortes na base da faixa de idade, parecem ser os que melhor respondem às questões do envelhecimento. Os pesquisadores do NRC entendem que os estudos de coorte longitudinais e, sobretudo, os estudos em painel têm a capacidade de capturar a dinâmica das mudanças no longo prazo "e continuam a descrever a população toda e não só uma simples coorte". Eles acreditam que as características das coortes de idosos que estão por vir serão bem diferentes das de hoje
(Friedland e Summer, 2005).



























Mais do que uma curiosidade biológica, a manutenção do estado de hibernação (ou "animação suspensa") em humanos tem se mostrado uma ferramenta clínica em potencial. Nos últimos sete anos, laboratórios norte-americanos começaram a induzir artificialmente o estado de hibernação em animais. Os testes em humanos estão apenas no início, mas a técnica já se mostra útil e aplicável em casos de intervenção cirúrgica, hemorragias, septicemias, queimaduras ou intoxicações, por exemplo. A técnica consiste em tornar mais lentas as funções vitais (sob baixa temperatura e metabolismo, e diminuição da excitabilidade) por meio de medicamentos.































Fonte:

The new science of health. Discover Magazine. 2009.
[Edição especial sobre o envelhecimento - Summer
2009 - 28 de setembro de 2009.] PP. 6-7.

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