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domingo, 14 de fevereiro de 2010

Vida mais segura

Riad Younes na Carta Capital

Na maior parte dos últimos quinze anos tive a chance e o privilégio de acompanhar e de colaborar comCartaCapital. Para escrever a coluna Evolução e Saúde era necessária a constante atualização, avaliação das novidades e dos problemas relativos à saúde e à medicina. Testemunhamos e relatamos acon--tecimentos médicos de grande importância. Neste período vimos novos problemas e novos tratamentos. Apesar do avanço da tecnologia, de métodos cada vez mais precisos de diagnósticos e de avaliação clínica, doenças graves continuaram a se alastrar pelo mundo. A tuberculose e a malária, entre outras, estão muito longe de ser controladas. Afetam milhões de pessoas ao redor do mundo. Mas o que mudou nestes últimos quinze anos na medicina?

Não há duvida: drogas novas e técnicas avançadas melhoraram o cuidado com os pacientes. A expectativa de vida nas grandes cidades aumentou de forma significativa. A pesquisa científica tornou mais compreensíveis os mecanismos básicos por trás do desenvolvimento das doenças. Apesar dos avanços extraordinários, várias doenças, como Alzheimer, continuam a desafiar os pesquisadores. Tratamentos sofisticados e métodos revolucionários ocupam as capas e as primeiras páginas de jornais e revistas. A medicina preventiva, por mais sentido que faça, chama pouco a atenção da mídia, da sociedade, e, infelizmente, das autoridades públicas.

Provavelmente seria mais fácil falar do que ficou na mesma nos últimos quinze anos. Antes de começar a elaborar este texto, peguei em meu escritório dois livros de atualização em medicina. A série é publicada anualmente, trazendo o que de mais novo ocorreu em todas as áreas da medicina, de forma compacta e resumida. Representa um acesso rápido para os avanços do setor. Escolhi, de propósito, os volumes correspondentes a 2009 e a 1994.

Uma década e meia separam as duas publicações. Comecei a ler os capítulos ligados à minha especialidade, câncer de pulmão. Fiquei espantado nos primeiros parágrafos. Em 1994, não existia nenhum tratamento quimioterápico eficiente, considerado padrão no tratamento de pacientes com tumores malignos de pulmão, disseminados pelo corpo. O autor deste capítulo citava a expectativa limitada de sobrevida desse grupo de doentes. Quatro a seis meses. Fechei rapidamente aquele livro e comecei a folhear o volume mais recente. Bem diferente. Existem, hoje, mais de cinco esquemas de quimioterapia bem estabelecidos, relativamente eficientes, contra o câncer de pulmão. As chances de atividade contra o tumor melhoraram, assim como a sobrevida. Mais da metade dos pacientes vive por no mínimo um ano. Lendo partes deste capítulo e de outros no livro de 1994, não pude deixar de sorrir ao observar o modo como tratávamos nossos pacientes. As coisas mudaram muito. Ainda bem. Os feitos mais impressionantes são inúmeros. Selecionei algumas das mais expressivas novidades que influenciaram a medicina e a saúde.

A clonagem foi divulgada, discutida, condenada e regulada. Por tudo e por todos. De cientistas a padres. Quando a ovelha Dolly foi apresentada publicamente, para espanto e descrédito geral, a medicina tinha transposto uma fronteira nunca antes imaginada. A reprodução sem necessidade de fecundação sexual. De uma curiosidade científica, e do medo de clonarem um exército de Hitler ou Saddam Hussein, a clonagem terapêutica se tornou um ramo científico estabelecido, sério e com potencial enorme. Mas, desde 1997, continuamos com o potencial não traduzido em beneficio óbvio para os pacientes em geral.

O câncer se tornou um campo de batalha difícil nas fronteiras do conhecimento. Um pesquisador americano, Judah Folkman, encheu o mundo de esperança ao conseguir bloquear a proliferação dos vasos sanguíneos, artérias e veias, que nutrem os tumores malignos. Ao curar metástases em camundongos, seus ensinamentos permitiram a descoberta de alvos específicos nas artérias novas, formadas especialmente para sustentar o crescimento do câncer. Hoje, quimioterápicos desenhados sob medida para bloquear esses alvos acrescentaram eficiência aos tratamentos con---vencionais da doença disseminada. Pacientes com câncer de intestino e de pulmão recebem hoje, rotineiramente, drogas ativas no bloqueio da nutrição tumoral. O controle de suas doenças se tornou mais fácil e mais duradouro. O manejo dos efeitos colaterais da quimioterapia se modificou de tal maneira, que raros são os pacientes que sofrem de vômitos desconfortáveis durante o tratamento.

A cirurgia minimamente invasiva, a videocirurgia, e a cirurgia robótica se disseminaram pelo mundo. Operações com incisões mínimas, menor trauma para os tecidos normais, menor índice de complicações e tempo mais curto de internação são a regra hoje. A retirada da vesícula biliar, repleta de pedras, é considerada, hoje em dia, um procedimento quase ambulatorial. O paciente se interna e a vesícula é operada por videolaparoscopia. Algumas horas depois, está de alta para retorno precoce às suas atividades profissionais e sociais.

Esse avanço permitiu, também, o desenvolvimento de técnicas operatórias para ajudar as pessoas a perderem peso, e até a curar doenças crônicas como diabetes. A era da cirurgia bariátrica, com a perda de dezenas de quilos de sobrepeso, começou. O mundo acompanhou, atônito, vários obesos ilustres, literalmente derretendo em frente das câmeras de tevê. A cirurgia produziu muitos milagres. E alguns desastres. Mas esta técnica veio para conquistar e garantir seu lugar de honra na tecnologia médica.

Membros artificiais, aperfeiçoados por estudos de engenharia e com o emprego de ligas e materiais mais adequados, têm beneficiado vítimas de traumatismos graves, militares ou civis. A leveza das próteses de fibra de carbono permitiu aos amputados a possibilidade de vida mais produtiva, integrada à sociedade, com satisfação pessoal e sentimento de recompensa.

O mapeamento do genoma humano começou, de fato, na última década. A cada dia, surgem dezenas de estudos desvendando fragmentos do código genético. Milhões de informações. Poucas com aplicação imediata na rotina dos consultórios médicos. Apesar disso, os cientistas já identificaram qua--se por completo os mais de 20 mil genes que compõem o núcleo de nossas células. Encontraram genes ligados à predisposição individual para doenças como câncer, diabetes e hipertensão. Prometem os cientistas, para um futuro muito próximo, a individualização da orientação médica, baseando suas recomendações nos riscos que cada paciente carrega. E está tudo escrito e predeterminado em nosso DNA.

O comportamento humano foi afetado, sem possibilidade de reversão, pela presença nas prateleiras das farmácias de todo o mundo, de uma nova pílula azul. O Viagra. A revolução sexual deflagrada por este minúsculo comprimido recuperou a joie de vivre de adultos jovens e idosos, portadores de problemas ou de disfunções eréteis. O prazer, nada mais que uma lembrança de idos anos, se reacendeu em pessoas que tinham perdido, por completo, suas esperanças. Quer seja por avanço da idade, ou por procedimentos cirúrgicos que modificaram o funcionamento normal. Na linha do Viagra, vários outros medicamentos foram lançados. Todos com sucesso instantâneo e apreciação quase unânime de quem deles necessitava.

Outra droga fez milagres. Superficiais. Produzida a partir de um veneno fatal, a toxina botulínica, a injeção de Botox conseguiu o feito inédito de apagar as marcas dos anos, no rosto de nossos cidadãos ansiosos por uma aparência jovem. Eternamente. Exageros à parte, a técnica disfarça eficientemente rugas e depressões faciais. Mas também tem sua aplicação expandida para produzir relaxamento de músculos e espasmos dolorosos, causados por lesões traumáticas ou paralisia. Está sendo utilizada também para diminuir a produção excessiva de suor em mãos e axilas. Tem substituído e evitado muitos procedimentos cirúrgicos, plásticos ou não.
As células-tronco ocuparam frequentemente as manchetes nos últimos anos. Sua capacidade infinita de produzir os mais variados tecidos e órgãos de nosso corpo tornou as células-tronco uma vedete incontestável do imaginário público e científico. Desde a produção de órgãos ou partes de órgãos, até a reconstituição de nervos cortados por tiros ou facadas, ou de áreas do coração destruídas por infartos graves, a tecnologia das células-tronco certamente mudará o modo de tratar várias doenças. Resultados preliminares. Potencial infinito.

O desenvolvimento da tecnologia de alta precisão do laser permitiu a milhões de pessoas jogarem seus óculos no lixo. Operações rápidas, seguras, precisas, praticamente corrigem os problemas de visão, restaurando a capacidade de enxergar sem auxilio de lentes. Algumas mais grossas que fundos de garrafas antigas. Os oftalmologistas tiveram, e têm, dificuldade de atender as filas em suas portas.

As indústrias farmacêuticas conseguiram, finalmente, colocar rédeas curtas nos antes rebeldes níveis de colesterol em nosso sangue. O vilão dos vilões, responsável pelo maior número de mortes nos países desenvolvidos, foi finalmente domado. As estatinas, medicamentos que reduzem a concentração do colesterol ruim, modificaram o tratamento e a prevenção de doenças cardiovasculares, como infarto e derrame.

O sono, e seus problemas, foram colocados no centro das atenções na última década. O ronco, velho e desagradável conhecido de muita gente, parece ser associado, além do cansaço do dia seguinte, a doenças graves. Muito graves. Obesidade. Hipertensão. Diabetes. Infarto. Foi definida a síndrome metabólica. Tratamentos mais eficientes dos distúrbios do sono, e de suas sequelas, fazem parte de qualquer programa de saúde integral.

Aparelhos novos tiveram um impacto definitivo no manejo dos pacientes com câncer. O PET-CT, ou tomografia por emissão de pósitrons, consegue, atualmente, uma precisão extraordinária na detecção de doença tumoral em qualquer órgão. Os doentes se beneficiaram por terapias mais bem dirigidas, evitan-do procedimentos desnecessários e até nocivos. A radiocirurgia, técnica que permite a destruição de tumores no cérebro, sem operação formal, é considerada o tratamento de escolha para pacientes com pequenos nódulos tumorais. Os resultados são excepcionais, se igualando ao tratamento cirúrgico convencional. Da mesma forma, esta tecnologia de radioterapia consegue controlar com alta eficácia tumores malignos da próstata. A cirurgia ficou limitada a grupos selecionados de pacientes. E as taxas de cura se mantiveram elevadas com ambas as técnicas.

De longe, duas mudanças foram cruciais para o avanço da medicina moderna. Nenhuma dependeu de tecnologia de ponta. De laser ou de informática. Primeiro, a atitude do médico diante do paciente. A informação esclarecida. Objetiva. O respeito por seus direitos, suas opções e seus desejos. E, segundo, a atitude diante da doença. Desaparece o médico todo-poderoso, detentor do conhecimento absoluto. Foi substituí-do pela disseminação da filosofia de abordagens multidisciplinares, que envolvem uma variedade de especialistas, cada um oferecendo o que tem de melhor para ajudar o doente em determinada situação. O uso racional e adequado de métodos novos, drogas revolucionárias, é mais importante que a simples disponibilidade das novidades nas prateleiras. Nossa tarefa para os próximos quinze anos? Atingir, com a tecnologia e com a modernidade, todos os pacientes. Independentemente de credo, raça ou condição social. Amém.

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