Também para resolver problemas pontuais
As 15 primeiras cartas são de quando Plínio ainda era cônsul, as outras são de seu governo em Bitínia. E se por um lado é possível perceber como a política era feita por meio das cartas, por outro percebe-se quais eram as prioridades de governo na época.
Plínio começou elogiando Tra jano quando ainda era cônsul. Ga nhou em troca, em 111 d.C., o cargo de governador. Em um discurso que ficou conhecido como Pane gí ri co, ele escreve sobre os aspectos po sitivos de Trajano e usa uma das crenças mais fortes da época para valorizá-lo: dizia que ele teria sido escolhido pelas divindades. O texto foi lido por Plínio no senado pa ra tentar convencer os outros de que Trajano era um bom imperador. A ideia do discurso surgiu de um boato de que Trajano, quando ain da era militar, estava subindo as escadas do capitólio para pedir a bên ção em campanha militar e a po pulação apontou dizendo que aquele que subia era um desígnio das divindades e que seria o imperador. “Como Trajano era de origem provincial, ele poderia não ser bem visto na política. No exército ti nha uma boa reputação, porque era militar, mas precisava construir esta impressão também na po lítica”, conta o historiador Thia go David Stadler. A imagem de que o imperador é poderoso tanto quanto as divindades também é representada, na época, por meio do dinheiro: a face de Trajano aparece de um lado da moeda enquanto o rosto de Júpiter está no verso. É como se os dois fossem colocados no mesmo patamar, apesar de Júpiter ser a maior divindade romana na mitologia.
Depois do discurso, Plínio começou a trocar cartas com o imperador. Elas eram públicas e mostram que por trás do pedido de reforma de um banheiro público, por exemplo, Plínio conseguiu criar a boa imagem de um homem não-romano. Eles trocaram cartas entre 98 e 113 d.C.: foram 124 ao todo – elas foram estudadas e traduzidas para o português por Stadler, durante a pesquisa de mestrado, sob a orientação do professor Re nan Frighetto. “Analisei cada uma para observar como se constrói a imagem de alguém. Como se chega a essa idealização. Plínio sempre se remete a Trajano de maneira elogiosa, o chama de santíssimo imperador, fala que ele é o melhor dos melhores ho mens”. E mesmo que o assunto fos se uma obra da cidade, Plínio tra ta o imperador da seguinte ma neira: “Santíssimo imperador, de vido a sua graciosidade vamos con seguir construir mais um tea tro”.
“As cartas mostram ainda a política não só pelas obras, mas por sua subjetividade. É preciso entender o jogo de palavras”, diz Stadler. No mundo grego acreditava-se que um homem conseguiria ser virtuoso em três situações: nascia assim, aprendia a ser ou o exercício diário o levava a ser virtuoso. Stadler encontrou um quarto ponto sobre a virtude ao analisar as 124 cartas. “Era possível ser uma pessoa virtuosa na sociedade que analisei a partir do momento que alguém o considerasse assim. Trajano poderia não ser virtuoso, mas passou a ser quando um homem público, no caso Plínio, o elevou como tal”, explica. Stadler lembra que a boa imagem de Trajano durou tanto que, 400 anos depois, na Idade Média, ele ainda era associado aos bons imperadores.
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