Brasília - Em outubro, mês das eleições, a venda do Banestado para o Itaú completa dez anos. A década, porém, não foi suficiente para cicatrizar as feridas políticas que envolvem o negócio. Até agora, a privatização do banco tem sido o tema favorito de Osmar Dias (PDT) para criticar Beto Richa (PSDB) na campanha pelo governo do estado.
O tucano admite sem restrições que votou a favor da venda quando era deputado estadual. E contra-ataca o pedetista lembrando que o presidente do Banestado na época é hoje um dos principais aliados de Osmar – o deputado federal Reinhold Stephanes (PMDB).
Ministro em quatro governos diferentes (Ernesto Geisel, Fernando Collor, Fernando Henrique Cardoso e Lula), Stephanes critica a escolha do tema para o debate estadual. “O Banestado hoje é uma discussão estéril. Não tem mais razão de ser, está vencida há dez anos.”
Convidado para ser vice de Osmar, o parlamentar tem uma visão diferenciada sobre o Banestado. Foi contra a privatização, mas não coloca a culpa pelo rombo no banco apenas nas costas do então governador Jaime Lerner. “O Banco Central constatou que pelo menos desde 1985 as coisas já vinham sendo conduzidas de forma errada.”
Stephanes concedeu entrevista à Gazeta do Povo na quinta-feira. Os principais tópicos da conversa seguem abaixo:
Dificuldade de escolha
“Como é que eu entrei nessa história de saneamento do Banestado? Quando me ligaram para assumir o banco eu estava nos Estados Unidos (final de 1997), onde iria passar uma temporada. Evidentemente eu não aceitei. Então voltaram a me ligar e eu continuei negando. O histórico era mais ou menos o seguinte: o Lerner já havia indicado três ou quatro nomes para assumir o banco e todos eles foram recusados pelo Banco Central. O único nome que poderia ser aceito era o meu, até porque eu tinha ótimas relações com o Pedro Malan (então ministro da Fazenda). Antes de aceitar, eu vim a Curitiba, conversei com alguns ex-presidentes do banco. Um deles, o Luiz Antonio Fayet, me disse: ‘Não aceite que isso não tem mais solução’.”
Saneamento de contas
“Eu entrei no Banestado (em janeiro de 1998) como aquele sujeito que tinha um bom relacionamento com o BC, com o Malan, com o governo federal e que tinha uma imagem pública que poderia ajudar a recuperar a imagem do banco. Depois que eu conversei com várias pessoas, eu cheguei à conclusão de que tinha condições de encarar o desafio. De fato, eu recuperei o banco e ele dava lucro quando foi privatizado (em outubro de 2000). Quando eu assumi, o banco estava no interbancário (sistema de empréstimo entre bancos) com uma dívida de R$ 1 bilhão ao dia. E o interbancário tem uma taxa de juros elevadíssima, uma taxa duas vezes superior àquela que você está emprestando. É claro que não há banco que resista.”
Demora do BC
“Apesar disso tudo, o banco teria salvação. O problema é que o BC demorou cerca de três meses até fazer as liberações para que a gente pudesse sair do interbancário. Eles deveriam ter feito isso no dia que eu assumi. O que eu observei de cara foi o seguinte: se uma intervenção ou o auxílio ao banco tivesse ocorrido seis meses antes de eu assumir, o banco teria saldado a própria dívida. Houve uma sucessão de erros para trás e, depois que eu assumi, ainda aconteceu essa demora no começo dos repasses do BC.”
Prejuízo por 15 anos
“Cheguei à conclusão de que o grande problema era a cúpula que vinha sendo nomeada historicamente. E quando digo historicamente é bom lembrar que até aquela época haviam sido abertos pelo BC 70 inquéritos para apurar irregularidades administrativas envolvendo quase 500 pessoas. As investigações atingiram pessoas dentro de um período de 15 anos. O BC constatou que pelo menos desde 1985 as coisas já vinham sendo conduzidas de forma errada. É claro que a coisa se acelerou no governo Lerner, que na minha opinião não soube tomar decisões no momento exato, mas você não pode culpá-lo sozinho, os problemas vinham de muito antes.”
A demora de Lerner
“Se ele tivesse tomado a decisão antes (de socorrer o Banestado), ele (Lerner) teria salvo o banco, sem necessidade de privatizá-lo. Pelos meus cálculos, um ano antes já teria resolvido. Agora, teria de ter nomeado os dirigentes certos. Se eu tornei o banco lucrativo, outras pessoas com capacidade também poderiam ter feito isso antes. Agora, o que foi que eu fiz? Eu tinha 12 diretores e reduzi para cinco no dia que assumi. Promovi mais de 2 mil demissões voluntárias. Fui buscar meu vice-presidente no Rio Grande Sul para isolar a questão política que existia. A gente sabe que aconteceram empréstimos absurdos. Só eu cataloguei 300. Na época, eu escrevi um artigo na Gazeta do Povo em que desabafei e disse que nunca em toda minha carreira pública havia encontrado algo tão irregular e corrupto quanto no Banestado.”
Contra a privatização
“Eu acabei sendo contra a privatização, embora essa já fosse uma decisão tomada quando eu assumi o Banestado, porque eu achava que se tratava de um banco muito bom – desde que bem administrado. Se ele já estava dando lucro, poderia gerar ainda mais e pagar a própria dívida que tinha gerado. Mas ele teria de ser administrado como banco, nunca como uma repartição pública. Se fosse assim, como aliás era o costume, era óbvio que não iria para frente. Há um dado muito interessante sobre a qualidade do Banestado: quase todos os gerentes de agências do interior foram mantidos pelo Itaú. Significa que eles eram bons. Os superintendentes que eu havia nomeado também ficaram, alguns até foram transferidos para outras partes. O problema residia no uso político e na má administração da parte central do banco.”
Imposição do BC
“Tenho a impressão de que o Lerner foi forçado pelo BC a privatizar o banco. À medida que ele precisava de dinheiro para acabar com a sangria das dívidas, precisou de socorro e não tinha muito como negociar. Imagino o seguinte: quando ele chegou no BC dizendo que precisava de mais de R$ 1 bilhão para acabar com o empréstimo interbancário, eles devem ter dito para ele: então você vai privatizar esse banco. Ele deve ter aceitado porque sentiu que não havia outro caminho. O pessoal técnico não via perspectivas no banco. Mas eu posso garantir uma coisa: se eu tivesse chegado um ano antes, teria recuperado o banco.”
Tamanho da dívida
“Um ano antes de se decidir pela privatização (1997), o rombo era de mais ou menos R$ 1 bilhão. Em um ano de empréstimo interbancário e com a imagem do banco caindo, com má administração, os clientes também foram deixando de investir. Todo mundo sabia que a situação era difícil. Um ano e meio depois, o rombo era de R$ 2,5 bilhões. A dívida total cresceu muito rápido. E o atraso que eu mencionei no fluxo de dinheiro do BC para o saneamento deve ter elevado a um buraco adicional de mais R$ 500 milhões. Deve ter ficado em cerca de R$ 3 bilhões.”
Outros caminhos
“Quando eu cheguei, o acordo de privatização já estava assinado. Tentei reverter esse negócio, mas era complicado. A minha atitude pessoal foi contra a privatização. Eu tentei ao menos segurar um pouco, mostrar que o banco ainda tinha alguma chance. Minha atitude era mais simbólica. Era um protesto contra o que fizeram contra uma instituição que no passado havia sido muito saudável.”
Discussão estéril
“O Banestado hoje é uma discussão estéril. Não tem mais razão de ser, está vencida há dez anos. A discussão deveria ter sido mais aprofundada na época, o que não ocorreu. Eu me lembro que torci muito para a Assembleia demorar mais para aprovar a privatização, mas votou o essencial em 48 horas. Seria bom para todos se tivéssemos mais um tempo. Mas havia um clima generalizado para votar logo e se livrar do ‘abacaxi’.”
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