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quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Entrevista: Paulo Buss

no sítio da ESP-MG

Após alguns meses em que as publicações no site da ESP-MG ficaram restritas devido à legislação eleitoral, retornamos com matérias especiais para alimentar a reflexão sobre a saúde pública. Confira agora a entrevista que a nossa equipe realizou com o médico Paulo Buss, vice-presidente do Comitê Executivo da Organização Mundial da Saúde (OMS), ex-presidente da Fundação Oswaldo Cruz, com atuação destacada em organismos nacionais e internacionais de promoção da saúde.

ESP-MG: Considerando suas experiências nacional e internacional, quais são os fatores internacionais que interferem na formação do profissional de saúde?

Paulo Buss: As questões que envolvem a saúde pública têm passado por mudanças de forma acelerada. Embora apresente características essencialmente nacionais e locais, a saúde pública é influenciada globalmente. Um exemplo disso é a transnacionalização dos riscos – hoje, as viagens ao redor do globo estão muito mais rápidas. Um passageiro que embarca na Tailândia estará no Brasil em menos de 30h, ou seja, um tempo que pode ser o de incubação de um vírus, por exemplo. Entretanto, considerando que há vários modelos de desenvolvimento econômico, a distribuição dos recursos para lidar com esses riscos são desiguais. Essa é uma tarefa importante para as escolas, que poderão formar quadros mais preparados para essa nova realidade.

ESP-MG: Quais seriam os temas internacionais mais atuais para aqueles que trabalham com a saúde?
Buss: O profissional deve entender o funcionamento de organismos como a Organização Mundial de Saúde (OMS) e fóruns de negociação de questões globais de saúde. É importante saber também como funcionam as resoluções e os documentos técnicos, por exemplo, porque esses mecanismos influenciam os procedimentos adotados em unidades de saúde no plano nacional. É necessário, além disso, conhecer os regulamentos sanitários, nacionais e internacionais, entender os novos riscos associados à globalização e estudar as questões relativas à chamada diplomacia da saúde.

ESP-MG: E quais temas são ainda mais relevantes para os profissionais que atuam no Brasil?
Buss: Há temas com especial relevância para o cenário brasileiro. Existe hoje um consenso de que a saúde é um produto social e, como tal, afetado pelas iniquidades do modelo de desenvolvimento. De forma paradoxal, os menos favorecidos têm acesso mais dificultado aos serviços de saúde, e a análise dessa situação deve levar em conta os determinantes sociais – fatores sociais, econômicos, culturais, étnico-raciais, psicológicos e comportamentais que influenciam a ocorrência de problemas de saúde e seus fatores de risco na população. O Brasil tem participado ativamente dos debates em torno do assunto e tomou a iniciativa, junto à OMS, de realizar, em outubro de 2011, no Rio de Janeiro, a Conferência Mundial sobre Determinantes Sociais da Saúde. O Brasil foi o único país a criar, em 2006, a Comissão Nacional sobre os Determinantes Sociais da Saúde (CNDSS), que já apresentou seu informe em 2008. Esses resultados foram submetidos à consulta pública e têm o objetivo de subsidiar propostas para redução das iniquidades em saúde, políticas públicas e intersetoriais, que envolvam educação, trabalho, habitação e meio ambiente, por exemplo. Essa é mais uma questão a ser continuamente trabalhada pelas escolas de saúde pública.

ESP-MG: E quanto à atenção primária?
Buss: Ao lado dos determinantes sociais, acredito que a atenção primária é outro fator preponderante para a realidade brasileira. Mais de 90% dos atendimentos assistenciais demandados pela população podem ser resolvidos pela atenção primária, que está em constante discussão. Nas décadas de 80 e 90, houve um forte movimento em prol da tecnificação, de aparelhos de alta complexidade etc. A partir dos anos 2000, ressurge a necessidade de fortalecer a atenção primária, que depende, essencialmente, de um adequado modelo pessoal de saúde bem preparado e de recursos financeiros suficientes. Nesse quesito, o nosso SUS é referência mundial. Embora ainda apresente falhas, mostra-se em acelerado processo de amadurecimento. Os progressos foram muitos, e os indicadores críticos, a exemplo da mortalidade infantil e materna, apresentaram melhoras gigantescas. Há programas considerados um sucesso, como o programa nacional de imunização e o atendimento a pacientes soropositivos para HIV, entretanto isso ainda não é suficiente. A consolidação e o aperfeiçoamento desse sistema dependem de decisão política sustentada e da dedicação e do empenho dos profissionais que estão na ponta. É importante que eles participem dos movimentos de discussão sobre os desafios do sistema e dos espaços de reivindicação de melhores condições de trabalho. Um trabalhador participativo e com postura crítica é aquele que será capaz de influenciar de forma positiva o ambiente em que trabalha.

Autora: Letícia Orlandi

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