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sábado, 12 de fevereiro de 2011

O humor egípcio chega aonde sua política não consegue


Fazer piada de autoridades tirânicas é uma parte essencial da vida egípcia desde a época dos faraós. Um comentário datado de 4.600 anos registrado em papiro gracejava que a única maneira de convencer o rei a pescar era colocar garotas nuas nas redes de pesca. Sob o império romano, os advogados egípcios foram proibidos de exercer a profissão por causa do hábito que tinham de fazer piadas, o que para os austeros romanos corroía a seriedade própria dos tribunais. 
Até Ibn Khaldun, o grande filósofo árabe do século 14, de Túnis, observou que os egípcios eram um povo extraordinariamente irreverente e hilário. 
O ator egípcio Kamal al-Shinnawi, também um mestre do sarcasmo, disse certa vez que "a piada é a arma devastadora que os egípcios sempre usaram contra invasores e ocupantes. Foi a corajosa guerrilha que penetrou nos palácios dos dirigentes e nos bastiões dos tiranos, interrompendo o seu descanso e deixando-os em pânico".
Os egípcios, conhecidos pelo seu subversivo humor político, vivenciaram até ontem este cenário: Hosni Mubarak, seu presidente octogenário, às vésperas de entrar na sua quarta década de governo, agarrando-se ao poder e à vida com uma enorme força de vontade. Os piadistas egípcios, que de início caricaturavam seu líder nada carismático como um matuto ganancioso, passaram os últimos anos nervosamente fazendo piadas sobre sua insistência tenaz em permanecer no trono. 
E justamente agora, quando o humor começava a parecer um pouco obsoleto, veio a renúncia do ditador.

A mais famosa das piadas sobre Mubarack é a seguinte:


Deus convoca Azrael (o anjo da morte) e lhe diz: "É hora de buscar Hosni Mubarak"."O senhor tem certeza?", pergunta Azrael, timidamente.
Deus insiste: "Sim, chegou a hora dele; vá e traga-me a sua alma".
Azrael desce para a Terra e dirige-se ao palácio presidencial. Chegando lá, tenta entrar, mas é capturado pela Segurança do Estado. É jogado numa cela, espancado e torturado. Depois de alguns meses, é libertado.
De volta ao céu, Deus, ao vê-lo todo machucado e arrebentado, pergunta: "O que aconteceu?"
"A Segurança de Estado de Mubarak me espancou e me torturou", Azrael responde. "E agora me mandaram de volta." Deus fica pálido e, com uma voz apavorada, pergunta: "Você não disse que fui eu que o mandei, não é?"

Outra bem boazinha apareceu quando ele (com 70 anos) estava doente e se pensou que ele morreria:
Mubarak no seu leito de morte, lamentando para o seu assessor: "O que o povo egípcio fará sem mim?" Procurando confortá-lo, o assessor, respondeu: "Senhor presidente, não se preocupe com os egípcios. É um povo forte que conseguirá sobreviver mesmo comendo pedra!". Mubarak faz uma pausa, reflete sobre isso e depois diz ao assessor que era preciso dar ao seu filho Alaa o monopólio do comércio de pedras.
As piadas ficaram mais acerbas nos anos 90, à medida que Mubarak consolidou seu poder e começou a vencer eleições com mais de 90% dos votos, expurgando seus rivais no Exército.

Uma história sempre relatada é a de que ele enviou seus assessores políticos para Washington para ajudarem na campanha de reeleição de Bill Clinton, em 1996, pois o presidente dos Estados Unidos admirava a popularidade do egípcio. Ao chegarem os resultados, Mubarak é que teria sido eleito o presidente dos EUA.

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