Durante a campanha eleitoral do ano passado, o governador Beto Richa rechaçou a “acusação” de ser lernista. Mas o início de seu mandato guarda semelhanças profundas com o começo da gestão de Jaime Lerner no governo estadual
na Gazeta do Povo
Qualquer semelhança não é mera coincidência. O governador eleito do Paraná recebeu o cargo das mãos do vice-governador do estado, provisoriamente no poder após o governador eleito, Roberto Requião (PMDB), ter renunciado ao mandato para disputar uma bem-sucedida campanha ao Senado Federal.
Como vinha de duas administrações muito bem-avaliadas na prefeitura de Curitiba, em seu discurso de posse o novo governador prometeu levar a estrutura e alguns projetos de destaque da administração municipal para a esfera estadual. Com as palavras de ordem “mudança e modernização”, o governador prometeu “revolucionar o Paraná” e tirá-lo do atraso após administrações seguidas do PMDB.
Na composição do primeiro escalão, os cargos considerados estratégicos no governo foram entregues a políticos da base aliada que representassem as diversas regiões do estado que lhe garantiram os votos necessários à eleição.
O governador, por exemplo, nomeou Cássio Taniguchi, com quem já trabalhara na prefeitura de Curitiba, como secretário de Planejamento. Criou também uma Secretaria da Criança e da Família – para a qual nomeou a própria mulher. E nomeou amigos e pessoas muito próximas para outros cargos – sendo que alguns nomes controversos geraram polêmica.
O novo governador não escondia ainda que sua intenção era fazer uma reforma administrativa. Mas, antes, precisou lidar com a sucessão da Mesa Diretora na Assembleia Legislativa. O maior problema estava em acomodar os interesses da bancada do PMDB, a maior da Casa, sem ferir os brios dos partidos aliados. Uma mexida equivocada neste xadrez político poderia lhe criar obstáculos à governabilidade logo no início do mandato.
Atestado rasgado
O texto acima é o resumo do início do mandato do ex-governador Jaime Lerner, então no PDT, em 1995. Poderia, porém, descrever perfeitamente o início da gestão Beto Richa (PSDB) como chefe do Executivo paranaense.
O início da gestão Richa guarda várias semelhanças com o período em que Jaime Lerner foi governador do Paraná (de 1995 a 2002), tanto na agenda política como na escolha da equipe e nas alianças – embora na campanha eleitoral do ano passado o atual governador tenha rechaçado por várias vezes a “acusação” de seu principal adversário, Osmar Dias (PDT), de que ele era um “lernista”.
Durante o calor das discussões eleitorais, Lerner chegou a emitir um atestado de não lernista para Richa e para Osmar, em tom de brincadeira. Talvez o ex-governador hoje tivesse de rasgar o diploma de Beto. Afinal, muitos nomes do primeiro e do segundo escalão do atual governo já tinham atuado no governo na época de Lerner (veja quadro ao lado).
Servidores públicos de carreira que conversaram com a reportagem (e pediram para não serem identificados) disseram que há um sentimento de que a “era Lerner” voltou. Nomes que estavam afastados dos cargos de chefia, durante os últimos oito anos, voltaram a assumir funções relevantes.
Mais semelhanças
A principal medida anunciada até agora por Beto Richa como governador – o decreto que determina a redução de gastos de custeio nas secretarias – também encontra fortes semelhanças com uma medida tomada por Lerner no início de seu segundo mandato.
Logo após a reeleição, em janeiro de 1999, Lerner criou um Conselho de Reestruturação e Ajuste Fiscal (Crafe) que reunia as quatro secretarias e órgãos com grande poder – Administração, Fazenda, Planejamento e Governadoria. A ideia do Crafe era promover uma reforma administrativa no estado e a ordem de Lerner era para “apertar o cinto e evitar os gastos desnecessários”.
Estratégia parecida já havia sido usada por Richa na prefeitura de Curitiba e foi agora apresentada como o “choque de gestão” que o Paraná estaria precisando e que foi prometido na campanha. O decreto publicado pelo governo no último dia 3 de janeiro para fazer a atual reforma administrativa, por exemplo, contempla um conselho integrado pelos secretários das mesmas áreas que existiam na era Lerner, com a inclusão do procurador-geral, Ivan Bonilha.
A base política de apoio na Assembleia é outro ponto de semelhanças entre Richa e Lerner. O ex-líder do governo no Legislativo no período lernista, Valdir Rossoni, foi ungido por Beto para ser o novo presidente da Assembleia.
Para compor a direção da Casa, Rossoni escolheu pessoas que já trabalharam para Lerner, como Benoni Manfrin e Eduardo Paim. Além disso, parlamentares como Ademar Traiano (PSDB) e Durval Amaral (DEM), que compunham a “tropa de choque” de Lerner na Assembleia são aliados importantes de Beto. Traiano é líder do governo na Assembleia e Durval é o secretário-chefe da Casa Civil.
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