Europa proíbe o uso de técnicas alternativas contra celulite e gordura localizada
Antônio Marinho
Tratamentos de medicina estética que prometem acabar com a celulite e a gordura localizada, como mesoterapia - injeção de drogas na derme -, laser, injeção de gás carbônico, radiofrequência e ultrassom, podem estar com os dias contados na Europa. A França decidiu proibir a aplicação de algumas dessas técnicas por causa dos riscos à saúde e a Espanha deve aumentar as restrições, segundo o jornal espanhol "El País". No Brasil, o Conselho Federal de Medicina (CFM) não reconhece a especialidade medicina estética.
Apesar de protestos de profissionais que trabalham com a área, a União Europeia prepara um decreto para regulamentar a prática, que cresce no vácuo legal. O Brasil vai na mesma linha e o CFM está elaborando um manual de publicidade médica para coibir os abusos na chamada medicina estética.
Na Espanha, onde esses tratamentos são cada vez mais populares, oMinistério da Saúde os considera seguros. Mesmo assim o órgão está consultando autoridades francesas para saber os motivos dos vetos a procedimentos alternativos à plástica. E associações de médicos e pacientes exigem a elaboração de normas determinando quem, como e onde as técnicas podem ser aplicadas.
O problema é que certos métodos contra gordura localizada, como mesoterapia e aplicação de ondas ultrassônicas, não são considerados atos médicos na maioria dos países. Na França, o Ministério da Saúde registrou casos de complicações graves em pacientes e a Alta Autoridade de Saúde do país definiu os tratamentos como arriscados.
Um dos alvos da proibição é a lipólise, a quebra de gordura e sua degradação, feita por meio de injeções de uma mistura de água destilada, bicarbonato de sódio e cloreto de sódio. O governo francês também proibiu a carboxiterapia. Esta técnica, popular no Brasil, injeta dióxido de carbono na área tratada para romper as células de gordura. E vetou ainda a lipólise com laser transcutâneo, se não for acompanhada de lipoaspiração.
Brasil também restringe procedimentos
Em relatório, a Autoridade Sanitária francesa relatou "complicações graves" em 23 pacientes submetidos a ultrassom contra celulite e gordura localizada. Eles sofreram necrose, hematomas ou tromboses. Dez precisaram de cirurgia para se recuperarem dos danos. A França também proibiu a mesoterapia, porque a técnica pode causar sérias infecções. Há casos de pacientes que tiveram que tomar antibióticos por semanas.
E o governo francês vetou ainda técnicas que usam produtos lipolíticos, como a fosfatidilcolina, bem conhecida no Brasil. Esta substância, receitada inicialmente contra embolias pulmonares, passou a ser aplicada contra gordura localizada e pode causar hematomas, edemas, nódulos e alergias.
Para elaborar o informe, o Ministério da Saúde francês analisou os dados sobre o tema, casos detectados por médicos e reportagens. E consultou sociedades de cirurgia, profissionais que aplicavam as técnicas e representantes de pacientes; além de medidas adotadas em outros países. Agora é a vez de a Espanha apertar o cerco.
- Estas técnicas, principalmente aquelas que necessitam de infiltração, oferecem risco. São um perigo desnecessário de infecção e de incontáveis efeitos adversos. Sem mencionar que os resultados, se é que existem, são temporários - diz Carmen Flores, presidente da Associação de Defesa do Paciente, na Espanha, que conseguiu, há um ano, um acordo extrajudicial para 28 mulheres infectadas gravemente por uma bactéria num tratamento de mesoterapia. Elas tiveram que tomar antibiótico por um ano e algumas sofreram lesões irreversíveis.
Bogdana Victória Kadunc, presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia, diz que o CFM tem se pronunciado, como ocorreu no caso de preenchedores e na lipoaspiração. E acrescenta que é necessário fazer pesquisas sérias sobre evidência científica de segurança e eficácia de tratamentos estéticos.
- A pressão de grandes empresas na venda de aparelhos caros acaba por sobrepor as análises. Também a mídia, buscando novidades, acaba exercendo grande influência nos pacientes, divulgando técnicas não estudadas. Por exemplo, a SBD não aconselha mesoterapia, devido a relatos de grave infecção por bactéria - diz a médica.
Eliandre Palermo, diretora da Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica, afirma que as técnicas não cirúrgicas contra celulite e gordura localizada podem ter valor, se aplicadas com aparelhos e substâncias aprovadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária e respaldo da medicina baseada em evidencias científicas.
- É preciso ter resultados objetivos e reproduzíveis comprovados em grande grupo de pacientes. Isto nem sempre ocorre na maioria dos tratamentos ditos alternativos, fitoterápico, ortomolecular ou mesoterápico. Há muita controvérsia na literatura medica a respeito desses tratamentos. Sem falar no risco de se submeter a técnicas invasivas com profissionais não habilitados e em ambientes sem condições de higiene - alerta a médica.
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