Páginas

segunda-feira, 25 de abril de 2011

PADILHA-ENTREVISTA VALOR ECONÔMICO-25-4-2011


O meteoro petista da Esplanada
Alexandre Padilha é filho da geração que lutou contra a ditadura.

Por. Cristiane Agostine no Valor Econômico (via Gilson Carvalho)

De chefe de gabinete de uma secretaria do governo federal para o comando de um dos principais ministérios da Esplanada, com orçamento de cerca de R$ 77 bilhões. Em cinco anos, a ascensão do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, foi meteórica e o petista é tido como aposta do partido para disputar a eleição em São Paulo. Filho da geração que lutou contra a ditadura, seguiu a mesma cartilha da presidente ao conciliar a militância com a formação profissional e ao conquistar projeção no governo em pouco tempo. Sem nunca ter disputado uma eleição, Padilha está em seu segundo ministério desde a gestão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O ministro tomou gosto pela política em casa e a história de seus pais se cruza com a da presidente Dilma Rousseff.
Nos anos de chumbo, a mãe de Padilha, Macilea Chaves, trocou o quinto ano da faculdade de medicina, em Maceió, pelo chão de fábrica, em São Paulo. Militante da Ação Popular, envolvida com a Juventude Universitária Católica (JUC), a estudante de 25 anos queria viver perto dos operários e ganhar as massas para derrubar o regime, sem armas.
Em São Paulo, foi acolhida por Anivaldo Padilha, protestante da igreja metodista, que articulava uma rede internacional de apoio aos perseguidos políticos. O estudante de ciências sociais, ligado à Ação Popular, buscava abrigos no exterior e denunciava torturas cometidas pelos militares. Entre a conscientização dos operários e a articulação de redes de apoio, Macilea e Anivaldo casaram-se e tiveram Alexandre Padilha em 1971, em um dos momentos mais difíceis do AI-5.
Macilea fazia a comunicação da Ação Popular com os trabalhadores, apesar de nunca ter conseguido trabalhar como operária numa fábrica. Anivaldo foi perseguido pela ditadura e, em 1970, foi torturado no DOI-Codi, e encarcerado por dez meses no presídio Tiradentes. Teve Dilma como vizinha de parede.
Quando Anivaldo saiu do Tiradentes, Macilea engravidou. A perseguição continuou e ele teve que se exilar. Saiu do país em 1971, pouco tempo antes nascimento de Padilha, e só pode voltar de vez em 1983. É uma das grandes dívidas que a ditadura tem comigo, emociona-se.
Padilha foi criado pela mãe, com ajuda de amigos e militantes da Ação Popular. Macilea voltou para Maceió para terminar o curso de medicina e depois retornou a São Paulo. Nesse período, Lula despontava como liderança sindical e política. Eu levava o Alexandre no colo para ver Lula na Vila Euclides, lembra Macilea.
Sobre o aborto, não vamos mudar as regras. Nosso esforço é atender quem precisa, sem discriminar
O ministro militou desde a juventude, mas sem abdicar da formação profissional. Na Unicamp, estudou medicina e ascendeu como liderança estudantil. Antes de completar 18 anos, em 1989, engajou-se na campanha presidencial de Lula, coordenando os jovens no PT. Na faculdade, trancou o curso para militar, a exemplo do que seus pais fizeram. Por três anos, cursou poucas matérias para dedicar-se à Direção Nacional dos Estudantes de Medicina. Ele dizia que não queria terminar a faculdade muito jovem, com 22 anos. Queria ter outro tipo de experiência, lembra o pai.
Padilha tentou comandar a União Nacional dos Estudantes (UNE) pouco antes de a entidade se envolver na campanha pelo impeachment do então presidente Fernando Collor de Mello. Sua chapa perdeu para Lindbergh Farias e ele não quis compor a direção, como era de praxe. Estávamos em campos opostos. Ele dizia que comigo a UNE andava de marcha ré, lembra Lindbergh, senador pelo PT do Rio. Ele era ligado ao PT e eu, ao PCdoB. Era hiperativo, articulador e extremamente inteligente, diz. Padilha era cotado para sucedê-lo, mas optou por não disputar. Uns defendiam que eu presidisse a UNE, outros que eu fosse para a direção do PT. Não conseguiria me formar se ficasse na UNE, comenta o ministro.
No PT paulista, Padilha integrou a direção entre 1991 e 1995 e novamente coordenou os jovens na campanha de Lula, em 1994. Com formação católica e contato com as comunidades eclesiais de base, aproximou-se de Gilberto Carvalho, atual ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência.
Em paralelo à militância, Padilha optou na faculdade pela área de infectologia e fez residência na USP. Na universidade, conheceu o médico Marcos Boulos, atual diretor da Faculdade de Medicina, que o convidou para atuar no combate a uma epidemia na Amazônia. Precisava de voluntários. Ele pediu férias e foi para lá, lembra Boulos. Depois da residência, Padilha fez pós-graduação no Departamento de Doenças Infecciosas e Parasitárias na USP e mudou-se para Santarém para montar, com Boulos, um núcleo de extensão em medicina tropical da USP, em 1997. O ministro conciliava meses de trabalho no Pará com o estudo em São Paulo.
Junto ao atendimento a populações ribeirinha e indígena, Padilha fez um trabalho científico sobre medicamentos para combater a malária, em parceria com o médico Wilson Alecrim, atual secretário estadual de Saúde do Amazonas. Com um barco pequeno, ia de casa em casa nos povoados. O resultado foi publicado em uma das revistas científicas de medicina tropical mais importantes do mundo, conta Alecrim. Foi extremamente importante porque constituiu a base para o tratamento da malária, explica. O petista teve de negociar com indígenas e ambientalistas, a prefeitura e o Ministério da Saúde para dar andamento ao projeto e destacou-se ao controlar um surto de malária que afligia o povo indígena Zo é. Na cidade, ganhou fama de bom articulador. Ele era carismático e tornou-se uma referência na área. Trabalhava em condições limitadas, diz o médico Paulo Abati, que trabalhou com Padilha no Pará e é amigo da família.
Em Santarém, Padilha articulou-se no PT e coordenou as campanhas de Maria do Carmo, atual prefeita, à Assembleia Legislativa (1998), à prefeitura (2000) e ao governo do Estado (2002). Ele se inseriu na vida da cidade. É o paulista mais amazônico que conheço, diz a prefeita. O vínculo de Padilha com Santarém continua e ele manteve o título de eleitor lá, assim como a filiação ao PT municipal.
O trabalho com os indígenas o cacifou para assumir a diretoria na Fundação Nacional de Saúde (Funasa) em 2004, na gestão Lula. A saúde indígena passava por grave crise e o petista foi convidado por um professor dele da Unicamp, Gastão Wagner, ex-secretário executivo do Ministério da Saúde.
Depois de um ano na Funasa, Padilha começou a galgar postos no Planalto. O petista ingressou na articulação política do governo quando o presidente Lula enfrentava a crise do mensalão e, em pouco tempo, aproximou-se do núcleo político da gestão e do partido.
Em abril de 2006, menos de um ano depois de chegar à chefia de gabinete, o petista assumiu o cargo de subchefe-adjunto e, em janeiro de 2007, foi para o lugar de seu chefe, Vicente Trevas, a quem já conhecia do PT paulista. Depois, Padilha foi nomeado ministro no lugar de José Múcio Monteiro, na Secretaria de Relações Institucionais, em 2009. A ascensão teve o patrocínio de Gilberto Carvalho e de Trevas, atual consultor da Caixa Econômica Federal.
Ao trabalhar em Assuntos Federativos, o petista ganhou a simpatia não só de prefeitos e governadores, mas também de Lula e de Dilma, então ministra-chefe da Casa Civil. O governo federal investiu em uma política municipalista, com contato direto entre União e prefeitos, e Padilha recebia as demandas dos gestores municipais. O petista aproximou-se de Dilma ao articular o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), em reuniões com prefeitos e governadores. Tínhamos o papel de facilitar o contato, explica Trevas. Ele construiu uma relação estreita com prefeitos e governadores. Era voz do governo nas prefeituras e, no governo, era um braço da Casa Civil, diz Múcio.
Meses depois de assumir seu primeiro ministério, Padilha mergulhou na campanha de Dilma e tirou férias para fazer articulações políticas pelo país. Com o empenho na campanha, era cotado para continuar no cargo, mas viu no apetite do PT, para retomar do PMDB a Saúde, uma chance para viabilizar seu nome. A Pasta era prioridade do PT desde a campanha, lembra o senador e ex-ministro Humberto Costa (PE). No lobby pelo cargo, pesou a proximidade com Dilma e Lula e a não rejeição do PT.
O petista começou a gestão com boas notícias da presidente: a saúde ficou fora do corte orçamentário de R$ 50 bilhões e foi escolhida para que as promessas de campanha começassem a ganhar corpo. Dilma lançou a Rede Cegonha (programa de atendimento a gestantes e bebês), campanhas contra o câncer de mama e de colo de útero e expandiu a entrega gratuita de medicamentos a hipertensos e diabéticos no programa Aqui Tem Farmácia Popular.
Os embates, no entanto, já começaram. O primeiro foi com o PMDB. Contrariado por perder a Pasta e a Funasa, o líder do partido na Câmara, Henrique Alves (RN), bateu boca com o ministro. O petista, por sua vez, diz que não vai ceder à pressão de partidos e que a Funasa, feudo do PMDB, passará por uma reformulação.
Outro confronto se deu no Conselho Nacional de Saúde. O ministro assumiu a presidência do conselho, responsável pelo controle social do Sistema Único de Saúde (SUS), e foi alvo de críticas. Para o secretário do conselho do Rio Grande do Sul, Paulo Humberto da Silva, o controle social será prejudicado. Como ele pode presidir um órgão que tem de fiscalizar o ministério? E a isenção? O fiscalizado vai se fiscalizar?, questiona.
O antecessor de Padilha, José Gomes Temporão, enfrentou a resistência do conselho em sua gestão, ao defender as fundações estatais. A pressão do conselho foi tanta que o projeto não vingou. Houve um conflito absurdo, que tentamos contornar, mas o conselho reagiu de maneira muito aguda, lembra Temporão. O ex-ministro, no entanto, não é favorável à presidência do órgão por um ministro. É o único conselho da Esplanada com um ministro no comando. Havia o desejo de que não fosse com alguém do governo, diz.
A polêmica enfrentada por Temporão sobre o aborto é outro ponto que Padilha tenta evitar. Ao ser questionado sobre o tema, que marcou a campanha presidencial, o petista tem um discurso pronto. Vamos fazer cumprir a lei que existe e não mudaremos as regras. Temos que atender as pessoas que chegam às unidades de saúde. Elas têm de ser acolhidas e tratadas. Não podemos discriminar ninguém por qualquer escolha, declara. Ministro não tem opinião pessoal. É a opinião do governo. Temos de evitar a morte, complicações e doenças, sem abordagem moral ou religiosa, diz.
O ministro diz que quer deixar como marca na saúde a redução no tempo de atendimento à população, um dos grandes problemas do SUS. Vamos trabalhar no planejamento para que as pessoas tenham acesso aos serviços de saúde em tempo adequado, diz. Para ajudar no controle, Padilha anunciou a criação de um índice nacional de saúde, para checar a qualidade dos serviços prestados por Estados e municípios e premiar quem tiver bom desempenho. Nosso esforço será melhorar a percepção das pessoas sobre o SUS e ter unidades de saúde mais próximas da população. O petista pretende pressionar os planos de saúde para ampliar o ressarcimento. O ministério quer identificar as pessoas que usam o SUS e que têm plano de saúde para depois cobrar das operadoras os serviços prestados. Padilha costuma dizer que sua Pasta precisa mais de melhorias na gestão - que não passam pelo projeto das fundações estatais - do que de recursos e evita discutir a criação de um imposto para financiar a área.
Ao propor mudanças no repasse de recursos, por avaliações de desempenho, Padilha deve enfrentar a resistência de prefeitos, governadores e parlamentares. O meu relacionamento com o Congresso era dificílimo. Foi a questão mais delicada, comenta o ex-ministro e deputado Saraiva Felipe (PMDB-MG). Padilha vai sofrer muitas pressões pelo financiamento do SUS. Vai ter que pensar em formas de agregar recursos e ter muita habilidade no relacionamento com o Congresso, opina.
Apesar das propostas anunciadas por Padilha desde sua posse, existe a percepção entre especialistas na área da saúde de que as ações estão apagadas. O presidente da Sociedade de Medicina de Família e Comunidade, Gustavo Gusso, faz três críticas: Ele ainda não apontou quais os caminhos para financiar a saúde - hoje está apenas apagando incêndios, com campanhas de prevenção já conhecidas -, não se abriu para o diálogo e paralisou novos incentivos para profissionais da saúde. Tudo o que era dinheiro novo mandou bloquear.
A ascensão rápida no governo e a projeção que ganhou no PT nacional fazem do ministro uma das apostas do partido para futuras eleições. Sem nunca ter disputado uma eleição, nem ter cargo de comando no PT, é cotado para disputar a Prefeitura de São Paulo, em 2012, ou o governo paulista, em 2014. Petistas costumam comparar o perfil do ministro da Saúde com o do ministro da Educação, Fernando Haddad, outra aposta eleitoral. Em conversas reservadas, dizem preferir Padilha. Ele é uma máquina política. Passa o dia em ligações, não deixa de receber um político, fala com todo mundo, transita bem no partido. Haddad não é unânime nem dentro do partido, resume um dirigente, repetindo um discurso comum no PT.
Padilha descarta disputar a próxima eleição. Tenho plena noção do desafio a enfrentar na saúde. Quero ficar os quatro anos. Não seria justo com a presidente, pela confiança que ela me dedicou, sair do ministério. Isso nem passa pela minha cabeça, diz. Sobre 2014, Padilha desconversa.
A agenda do ministro em São Paulo tem sido intensa. Só no último mês, teve atividades em praticamente todas as semanas na capital, litoral, Campinas e Osasco, na região metropolitana - regiões que concentram a maior parcela da população paulista. Petistas destacam que o ministro, solteiro e sem filhos, se entrega ao trabalho e às missões partidárias. E ao Corinthians, brincam. Mesmo em São Paulo, Padilha mal tem visto os pais. A mãe, que trabalha na rede estadual de saúde, comprou um laptop para se comunicar com ele por e-mail. O pai, referência do movimento ecumênico, à frente na ONG Koinonia, aposta na comunicação via Twitter, já que Padilha passa o dia tuitando.
Dentro do PT, avalia-se que, se Padilha souber aproveitar a chance, terá projeção nacional no ministério tido como prioridade por Dilma. A saúde foi uma das áreas mais criticadas do governo Lula e a presidente disse que colocaria a Pasta no centro da agenda de desenvolvimento do país. A pressão não será fácil, como mostra um aliado. Padilha é jovem e bem intencionado, mas acha que pode tudo. É a onipotência aliada à falta de experiência, diz um ex-ministro de Lula.

Nenhum comentário:

Postar um comentário