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segunda-feira, 23 de maio de 2011

Coronéis da reserva são os zeladores da higienização em Sampa

na página do deputado Adriano Diogo - SP (via @vleonel)


A antiga obsessão de colocar ordem na desordem está de volta. Essa doutrina, que fez parte do passado do País, tomou conta da cidade de São Paulo. O prefeito Gilberto Kassab já nomeou em seu governo mais de 80 oficiais da Polícia Militar. Hoje, com patentes de coronéis da reserva, eles comandam 25 das 31 subprefeituras de São Paulo. Outros 50 oficiais estão espalhados pela máquina pública. Com todo respeito à corporação, cabe uma pergunta: o que pretende o alcaíde da nossa cidade?
Na linha do tempo podemos encontrar algumas explicações. Durante a ditadura, entre os anos 60 e meados de 80, militares se valeram de número maciço de engenheiros e de economistas que ocuparam cargos públicos de importantes esferas do poder. Foi a era da ditadura dos tecnocratas. O pensamento único desses tecnocratas era o progresso pelo progresso. Anseios populares? Nem pensar. Um momento emblemático resume essa época de chumbo. Numa rara indagação conseguida pela imprensa, então sob forte censura, com relação a situação do Brasil, o general mandatário da nação, Emílio Garrastazu Médici, disparou: “A economia vai bem e o povo vai mal”.
É esse modo autoritário de governar sem o olhar nos anseios populares que prevalece na administração municipal com a entrada em cena dos coronéis. O estopim começou em 2008 quando estourou o escândalo da Máfia dos Fiscais na Mooca, numa reedição do mesmo episódio do governo Pitta em 1998.
De olho na reputação de seu governo, Kassab resolveu nomear o precursor desse exército de PMs: Coronel Rubens Casado. Ele substituiu o subprefeito ligado a juventude tucana (Eduardo Odloak), desgastado pela mídia por manter um assessor (Marcelo Eivazian do DEM), apontado como o chefe do esquema de arrecadação de propinas junto aos ambulantes do Brás.
Não tardou para outros locais da cidade sofrerem igual tratamento. Sem cerimônia, figuras políticas que perderam eleições em cidades do interior, e que foram nomeadas pelo então prefeito José Serra, foram perdendo os seus cargos. Essa drástica guinada evoca a intenção de blindar setores suscetíveis de cometer irregularidades. A busca é a projeção da imagem de seriedade e limpeza da coisa pública. A conseqüência dessa atitude é que aos civis sobra a pecha de serem propícios às falcatruas e irregularidades. 
 Percorrer 5 Km por dia 
Mas não basta colocar militares da reserva em postos chaves. É preciso cumprir ordens em todos os escalões. Embriagado pelo sucesso da Lei Cidade Limpa e de olho em outros ganhos, o prefeito baixou uma curiosa e severa norma: todos os subprefeitos devem percorrer diariamente 5km em suas regiões. A missão: caçar irregularidades e fazer valer a ordem da desordem.
Outra medida expressa de forma simbólica a doutrina dos anos de chumbo. É a tal de operação delegada. O prefeito conseguiu oficializar o bico da PM que fardada combate o comércio informal em vários pontos da cidade. O ambulante é visto como inimigo a ser reprimido a todo custo e não um cidadão a ser integrado à roda da economia formal.
Aliás, é esse o pensamento de marginalizar as pessoas que hoje predomina. O subprefeito não é o gestor capaz de aglutinar forças para o desenvolvimento econômico e social de sua região. Ele não é mais o agente público que incentiva a inclusão social e fomenta a melhoria das condições de vida das populações locais. Ele deixou de ser o servidor identificado com as aspirações de sua região e que combate as desigualdades sociais. Avesso à participação popular na gestão pública, afirmando aos quatro ventos não terem partidos políticos, os atuais xerifes das subprefeituras se mostram imunes aos pedidos das comunidades que deveriam representar. O subprefeito hoje é o zelador da filosofia de higienização. 
Com tantos militares nas ruas o que se poderia esperar. Não por coincidência, as manifestações populares são alvos de intensas truculências. Quem não se recorda das recentes repressões gratuitas contra os protestos dos estudantes contra o aumento da tarifa de ônibus, quando até três vereadores sofreram agressões em frente à sede da Prefeitura.
As preocupações com as condições sociais passam longe dos seus olhos. Ou melhor, eles as olham de cima. As declarações de dois subprefeitos de que basta um sobrevôo de helicóptero para conhecer a realidade que os cercam mostram o tanto que estão identificados com as regiões que receberam para administrar.
Com tantos militares em cargos públicos e pela lei da probabilidade um novo horizonte é possível. Quem sabe um deles tome gosto pela coisa, filie-se a um partido e se lance candidato. Corremos o risco de ter um prefeito coronel da reserva de verdade e não um camuflado.  
P.S. Com tanto zelo pela ordem no espaço público era de se esperar por melhores resultados na segurança pública. Uma foto, porém, resume a questão.
Uma mãe da varanda de seu sobrado acompanha de binóculo o trajeto diário a pé de sua filha até a Estação do Metrô de Vila Prudente. No entorno, cresceram há dois meses os crimes de todos os tipos, apesar da operação delegada. É do alto, mas não de helicóptero, que essa mãe pode respirar aliviada ao ver sua filha chegar sã e salva em casa ou entrar no metrô.
Jose Patricio/AE

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