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sexta-feira, 27 de maio de 2011

Sonho da nova classe média


Em todo o Brasil, 1.100 empresas ativas atuam na área da saúde suplementar para um universo de 45 milhões de beneficiários


O sonho de ter um plano de saúde, realidade que hoje se limita a menos de um quarto dos brasileiros, começa a ser embalado pelas classes C e D, em razão direta do crescimento dos níveis de renda. Para atingir essas faixas, as operadoras estão desenhando planos mais acessíveis e menos burocráticos, com maior diversidade de pontos de vendas. A concorrência, acirrada pelas novas regras regulatórias e pelo grande número de empresas no setor, desencadeou uma série de aquisições e fusões. Enquanto de um lado cresce a preocupação com os riscos da concentração, de outro se aposta numa concorrência saudável que resulte em preços mais acessíveis e serviços de melhor qualidade.

Em todo o Brasil, são 1.100 empresas ativas atuando na área da saúde suplementar para um universo de 45 milhões de beneficiários. "Quase toda a classe A/B já está dentro dos planos de saúde. A classe C é a que chama a atenção dentro desse mercado. E o alvo de todas as operadoras, sejam elas seguradoras, sejam cooperativas médicas, sejam empresas de medicina de grupo", diz Arlindo Almeida, presidente da Associação Brasileira de Medicina de Grupo (Abramge). As seguradoras respondem por 19% do mercado de saúde suplementar.

Em oito anos, o crescimento do setor foi de 150%, em 2010 foram 200 milhões de consultas e um faturamento de R$ 70 bilhões. A adesão vem aumentando na esteira do crescimento do emprego formal, já que 70% dos planos são corporativos. "Todo dissídio coletivo de qualquer categoria pleiteia assistência médica por planos de saúde, de gari a desembargador", diz Almeida. Os planos individuais e familiares representam menos de 30% do conjunto dos beneficiários. Os demais se concentram em planos coletivos contratados principalmente por grandes e médias companhias. Na atual fase de caça ao cliente, as operadoras estão mirando em duas frentes. Uma delas é o vasto mercado ainda disponível para os planos não coletivos. "Nessa classe encontram-se 30 milhões de pessoas que passaram a ter a possibilidade de sonhar com o acesso a uma medicina de alta qualidade", diz Norberto Birman, diretor da Amil Assistência Médica. Uma pesquisa da operadora revela que "o primeiro desejo dessa classe é ter casa . própria, e o segundo é possuir um plano de saúde".

Em outra frente, as operadoras estão mirando as pequenas e médias empresas (MPEs), onde estão cerca de 30 milhões de contratados em comparação com 20 milhões de funcionários de grandes e médias companhias. "Dentro da SulAmérica, o segmento que mais cresce depois da odontologia é o de pequenas e médias empresas, que já passa dos 30% ao ano", diz Gabriel Portella, vice-presidente da SulAmérica. Na Bradesco Saúde, o segmento que mais ganhou espaço foi o Seguro para Pequenos Grupos (SPG), empresas de quatro a 99 segurados. Em 2010 o SPG cresceu 36%, enquanto a companhia corno , um todo teve um acréscimo de 18%. "Ele é o grande fenômeno de vendas.e incremento na empresa", diz Flávio Bitter, diretor da Bradesco Saúde.

A Bradesco Saúde, que tem 2S milhões de segurados e está entre as três maiores empresas do setor também quer ampliar espaços na classe C e entre as 4 pequenas empresas "Quando a economia vai bem o seguro-saúde também vai. A classe C está aí, ávida por consumo, incluindo a saúde entre seus bens diz Flávio Bitter, diretor da Bradesco Saúde e da Medservice. Segundo ele, a partir de 2007 a companhia lançou, de maneira experimental, no Rio e em São Paulo e depois no restante do Brasil, o Saúde Bradesco Perfil, produto que têm a mesma cobertura de um plano convencional com a diferença de ter abrangências regionais. "Consideramos que a cobertura nacional não era necessária para empresas de atuação local", diz Bitter.

A Amil Assistência Médica desenvolveu uma nova grade de produto que deve chegar ao mercado no segundo semestre e que contempla a classe C com planos até 25%. abaixo daqueles propostos atualmente. "Criamos uma grade de produtos para atender todos os segmentos da sociedade. Estamos atentos aos quase 30 milhões de pessoas da classe C que passaram a ter a possibilidade sonhar com o acesso a uma medicina de qualidade", diz Birman. A nova grade chegará ao mercado nos próximos meses com a bandeira Amil Medial e com a "novidade da coparticipação", em que o beneficiário desembolsa certa importância em alguns atendimentos, o que permite planos a custos menores.

O grupo Amil criou núcleos especializados para atender pessoas com determinados tipos de doença e uma estrutura regionalizada, com hospitais e centros médicos, de acordo com a necessidade do paciente. "À medida que as coisas vão ficando mais sérias do ponto de vista de saúdes há os hospitais centralizados em partes cardiológica, neurológica, câncer etc.", diz Birman. Para colocar em prática essa estrutura, a Amil vem fazendo aquisições. Desembolsou R$ 43 milhões pela compra da participação de 60,85% do Hospital Pasteur que o controlador indireto da Amil, Edson Godoy de Bueno, tinha no hospital e R$ 47 milhões para os demais cotistas, o que totalizou os R$90 milhões do negócio. O Pasteur fica na Zona Norte do Rio de Janeiro e tem 200 leitos. A empresa já havia adquirido o Hospital Samaritano, no Rio, por R$ 180 milhões, a Excelsior Saúde, por R$ 50 milhões, e a Medial Saúde, por R$ 612,5 miIhões, no final de 2009.

Ao investir mais em planos. individuais do que em corporativos - diferentemente do que fazem seus concorrentes -, o Grupo Memorial Saúde espera crescer entre as classes B e C. "O maior incremento virá do plano individual, que deverá ter elevação de 25%, contra 17% do corporativo", diz Aziz Chidid Neto, diretor-presidente do Grupo Memorial. Cerca de 70% de seus planos são individuais e familiares. As aquisições ilustram esse crescimento: em março deste ano, o Grupo Memorial adquiriu o controle societário da operadora Assim Saúde, a maior rede própria de hospitais da América Latina. Com 35 hospitais próprios e todas as unidades localizadas no Rio de Janeiro, o Assim Saúde conta hoje com mais de 340 mil usuários. "Ainda em 2011, o grupo investirá na aquisição de três unidades de saúde no Rio e em melhorias das instalações e equipamentos, além de pôr em prática ações de propaganda e marketing", diz Chidid Neto.

Entre os novos concorrentes a Caixa Econômica Federal (CEF) chega com peso. "Esperamos iniciar a comercialização dos nossos produtos no primeiro semestre de 2011. Nos últimos anos a CEF aumentou muito sua atuação para clientes pessoa jurídica. Isso nos levou a oferecer a essas empresas, clientes do banco, produtos coletivos de saúde", afirma Thierry Claudon, presidente do Grupo Caixa Seguros.

A estratégia da nova seguradora é cercar esse mercado por todos os lados ofertando seus serviços a todo tipo de empresa, independentemente de seu porte. "Inicialmente, vamos oferecer produtos para pequenas, médias e grandes empresas, em especial para aquelas que já têm conta na CEF. "O Grupo Caixa Seguros entra no mercado de saúde para completar o portfólio de produtos. O objetivo é garantir que os clientes encontrem tudo o que precisam para proteger a família e o patrimônio dentro da própria instituição",afirma.

Dagoberto J. S. Lima, especialista em direito da saúde, observa que, apesar de a CEF não ter knowhow na área da saúde,"irá oferecer uma alternativa a mais para o consumidor, tornando o mercado mais competitivo, o que é bastante saudável. Esse mercado é bastante heterogêneo. Entre o Espírito Santo e o Rio Grande do Sul estão localizados mais de 80% de todas as operadoras de plano de saúde do Brasil, enquanto as regiões Norte e Nordeste concentram apenas 12% delas", comenta Lima. A grande competitividade, no entanto, está entre os Estados de São Paulo, Rio, Paraná, Minas e o Distrito Federal.

Ainda no mercado de negócios das operadoras, a GreenLine comprou a Samcil, que tem 193 mil beneficiários e que estava com dificuldades financeiras. Com a operação, a GreenLine passou a ter cerca de 500 mil beneficiários, colocando-se entre as maiores de São Paulo.

Além de falhas na gestão que vem ocorrendo em operadoras, outras questões vêm preocupando a Abramge. Um dos entraves são as reservas de garantia em dinheiro que a legislação exige e que provoca o fechamento de empresas menores, diz Arlindo Almeida. "São vários bilhões parados aplicados nessas garantias. Essas dificuldades fazem com que as operadoras, principalmente as pequenas e médias, com até 50 mil usuários, tenham grandes dificuldades."

"O custo administrativo de uma empresa com mais de 1 milhão de beneficiários oscila entre 8% e 10%, enquanto nas pequenas chega a 30%. E uma diferença brutal. Para nós, é fundamental que as pequenas empresas sobrevivam, sobretudo as regionais. Se desaparecerem, nem as grandes terão recursos para atender populações em locais longínquos." Segundo Almeida, a pedido da Abramge, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) criou um departamento para pequenas e médias operadoras e hospitais para simplificar a regulamentação. "Essa aglomeração de mercado, em torno de algumas empresas, não é bem vista por praticamente ninguém. Os monopólios e oligopólios são contrários até aos princípios econômicos", acrescenta.


No final de abril, a ANS, estendeu a portabilidade sem carência migração de um plano para outro - para planos coletivos por adesão. Antes, essa migração sem carência só era possível para planos individuais. Arlindo Almeida, presidente da Abramge, avalia como "pífio" o efeito da nova regra da ANS, "a não ser quando uma empresa fecha e a pessoa pode escolher outro plano". "Mas, no geral", ele diz, "pouca gente muda de plano."

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