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terça-feira, 11 de outubro de 2011

Juro ou seguridade social, quem é a 'camisa de força' orçamentária?

Governo defende debate de longo prazo sobre vinculações orçamentárias fixadas pela Constituição, que dificultariam investimentos tão prioritários quanto na seguridade social. Segundo ministra do Planejamento, Brasil mudou desde 1988 e vinculações tornaram-se 'camisa de força'. Para defensores da seguridade, juro da dívida é que engessa e atrapalha orçamento.


André Barrocal na Carta Maior (sugestão da Ligia Cardieri)

BRASÍLIA – O governo quer renovar por quatro anos dispositivo que anula parte da vinculação constitucional de recursos, mas acha que o assunto merece um debate de longo prazo. Depois de 23 anos da Constituição, o país mudou e tem novos desafios. O orçamento da seguridade social, maior atingido pela desvinculação, concentraria dinheiro que poderia ser dividido com outras áreas também prioritárias – repartição que, para alguns, devia ser feita com verba que paga juros da dívida.

“Precisamos repensar as vinculações. Hoje elas são uma camisa de força e estão muito além do limite razoável”, diz a ministra do Planejamento, Miriam Belchior. “Não será com vinculações da década de 80 que nós vamos enfrentar desafios a cada momento.”

Pela Constituição, a seguridade compreende saúde, previdência e assistência social e é financiada por quatro grandes contribuições tributárias. Duas incidentes sobre as vendas das empresas (PIS e Confis), uma sobre o lucro (CSLL) e outra sobre a folha de salário (destinada à Previdência). No ano passado, essa arrecadação acumulada foi de R$ 458 bilhões.

O governo namora o caixa da seguridade como fonte financeira para, por exemplo, investir em obras de infra-estrutura. Assim, não tem de recorrer ao “mercado” para tomar dinheiro emprestado vendendo títulos públicos e fazendo dívida nova em troca de juros altos, operação que também seria uma alternativa para financiar despesas do Estado. 

“A vinculação tem a sua racionalidade, mas em excesso pode acabar sendo contraproducente”, diz o secretário-executivo do ministério da Fazenda, Nelson Barbosa. Para ele, é possível que o Estado tenha metas e gastos sociais mesmo sem vinculações. Cita como exemplo a construção de 2 milhões de moradias populares no programa Minha Casa Minha Vida, elaborado por livre decisão do Executivo.

Segundo Barbosa, é importante que o governo tenha flexibilidade para tomar decisões conjunturais sobre prioridades, o que as vinculações impedirim ao perenizar políticas. Num determinado momento pode ser melhor gastar com infra-estrutura, em outro, no combate à miséria. “Entendo as preocupações quando se analisa a DRU isoladamente”, afirma. “Mas peço que se discuta a política econômica como um todo. Toda opção de política econômica tem um benefício e um custo.”

Abandonar a DRU e ampliar os gastos com seguridade também teria implicações para o país, já que a arrecadação é finita – o que vai para a saúde deixa de ir para obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) que ajudam o país a crescer, geram emprego e renda.

“O excesso de vinculação engessa o orçamento e impede o programa eleito nas urnas de ser aplicado na prática”, afirma o presidente da Comissão de Finanças e Tributação da Câmara, deputado Claudio Puty (PT-PA). 

Juros da dívidaO problema, dizem outros, é que haveria uma falsa dicotomia entre a seguridade social e o resto do orçamento. A canibalização entre eles seria induzida pelo pagamento de juros da dívida, que também movimenta quantia generosa. No ano passado, o superávit primário federal foi de R$ 79 bilhões. Incluindo-se estados e municípios na conta, subiu a R$ 101 bilhões. 

“A dívida pública é a maior camisa de força. Ela é que impede os investimentos prioritários”, diz o deputado Paulo Rubem Santiago (PDT-PE), autor de um projeto que blinda a seguridade social contra a Desvinculação das Receitas da União (DRU), que o governo propôe renovar até 2015.

Para o parlamentar, o Congresso deveria resistir à tentação desvinculatória e repetir o que fez em 2008 com a educação. Naquele ano, aprovou uma proposta que protegeu a área de desvinculações. Criou-se uma regra de transição de dois anos e, partir de 2011, a educação passou a contar com orçamento integral, um reforço de R$ 5 bilhões por ano.

“Os valores são significativos e ampliam os gastos mínimos do governo central em educação”, diz um estudo da Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil (Anfip). “Isso explica, em parte, o bom momento de financiamento dessas ações.”

Para a entidade, a “luta contra a renovação da DRU” seria “importante” para reforçar a seguridade social também.

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