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terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Muitos médicos, pouca qualidade


(*) Antonio Carlos Lopes no Correio do Povo



Parece haver no Brasil uma política de desqualificação de medicina e médicos. A despeito de ainda ser centro de excelência e referência mundial em variadas especialidades, o país coloca seu sistema de saúde em xeque dia a dia, por equívocos e/ou falta de visão de parte dos gestores. Atualmente, um grande vilão da desconstrução de nossa medicina é o aparelho formador. A abertura de escolas médicas não foi enfrentada com a devida seriedade e os resultados são nefastos. Recente avaliação do Cremesp com estudantes do 6 ano atestou que quase 50% deles não sabem interpretar radiografia ou fazer diagnóstico após receber informações dos pacientes. E cerca de metade administraria tratamento impreciso para infecção na garganta, meningite e sífilis. Ainda não seria capaz de identificar febre alta como fator que eleva o risco de infecção grave em um bebê.



O baixo percentual de acertos em campos essenciais da medicina, como Saúde Pública (49% de acertos), Obstetrícia (54,1%), Clínica Médica (56,5%) e Pediatria (59,3%) é alarmante. Os índices de reprovação desde que a avaliação foi criada, em 2007, mostram que muitos novos médicos não estão preparados para exercer a profissão. A responsabilidade não é só deles. É fruto da mercantilização do ensino. Faz tempo que escolas médicas são abertas com qualidade contestável. A maioria é autorizada a funcionar sem hospital-escola, com corpo docente de capacitação discutível, falhas na grade pedagógica, entre outros problemas.



Dessas faculdades saem profissionais de formação falha. Não dá para fechar os olhos: é um risco à saúde e à vida. Para agravar a situação, o perigo não mora só aqui. Também vem de fora. Nos últimos dias foi noticiado que o governo federal adotará nova estratégia para facilitar a revalidação de diploma de médicos brasileiros formados na Escola Latino-Americana de Medicina (Elam) de Cuba. Com recursos de nossos impostos, eles terão estágio em hospitais públicos, recebendo bolsa, enquanto fazem cursinho de reforço para se preparar para prova de revalidação de diploma.



Ressalto que a validação desses diplomas de médicos estrangeiros, e principalmente de brasileiros formados em outros países, é um processo democrático e republicano. Contudo, são necessárias regras rígidas para não expor os cidadãos à incompetência profissional. Tenta-se mais um arremedo para esconder a incompetência em se conceber políticas consistentes para garantir a universalidade e integralidade do SUS. Busca-se mão de obra barata, para atender em regiões de difícil acesso. Enfim, parece que se planeja oferecer medicina de segunda categoria a carentes e desassistidos. Não podemos compactuar com isso.



(*)Presidente da Sociedade Brasileira de Clínica Médica

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