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sábado, 18 de agosto de 2012

O debate sobre o amianto

A tentativa de ganhar mercado pelo medo


O poeta e prêmio Nobel mexicano Octávio Paz enxergava no medo o veneno que os poderosos costumam injetar na sociedade quando querem dominá-la com menor dispêndio.

Na guerra que se transformou a disputa pelo mercado de telhas no Brasil, a poderosa indústria multinacional de fibras artificiais passou a disseminar a ideia de que a população corre risco de contrair câncer se adquirir qualquer produto contendo fibra de amianto, mesmo se tratando de telha ou caixa d'água. Quanto mais medo, melhor -eis aí algo realmente contagioso e barato.

Quando a indústria do fibrocimento com amianto tentou reagir, promovendo na mídia uma campanha educativa para mostrar que a realidade é bem diferente e que esse perigo ficou no passado, rapidamente buscou-se nos órgãos reguladores uma forma de tirar a mensagem do ar. E conseguiram. Esclarecer para quê? Jamais! Afinal, sendo o medo uma arma por si só demais poderosa, o que dizer quando ele vem associado à desinformação?

Dizer que mais de 50 países já baniram o amianto (em especial na Europa) porque é um produto perigoso e que, portanto, deve o Brasil entrar nessa onda é uma meia verdade e uma péssima aula de geografia.

Há 120 países onde o amianto é manipulado, que nem sequer são citados. Canadá, Rússia e também os EUA, por exemplo. Nem mesmo os europeus deixaram de adquirir o mineral e importam, inclusive do Brasil, para fabricação de cloro-soda.

O que muitos países adotaram (inclusive o Brasil) foi o não uso do amianto anfibólio, uma variedade altamente prejudicial à saúde humana. A Europa exportava e usava o anfibólio à larga na construção, principalmente para conforto térmico na forma de jateamento, expondo milhares de trabalhadores às fibras nocivas, até se dar conta do problema.

A produção brasileira é exclusivamente de amianto tipo crisotila, dentro de controles que, como já foi dito, superam até mesmo as exigências da lei, provando que existe, sim, limite seguro para quem nela trabalha. Enquanto a lei permite o uso do crisotila com no máximo duas fibras em suspensão por centímetro cúbico de ar, na mineração e em toda a cadeia produtiva se trabalha com um limite de 0,1, o mesmo que nos EUA.

Sobre fibras sintéticas substitutivas ao amianto crisotila, pouco ou quase nada se sabe, o que é preocupante. Mas sabe-se, de saída, que sendo derivadas de petróleo, as fibras sintéticas são poluentes e apresentam toxicidade se inaladas.

O crisotila, convém lembrar, é uma fibra natural. Outra dúvida está no risco que a fibra sintética, justamente por ser uma fibra como outra qualquer, oferece ao trabalhador. Dúvida esta que levou a própria OMS a concluir pela existência de "risco indeterminado" à saúde humana, a merecer mais atenção das autoridades. E, por fim, dúvida esta que nos leva a perguntar se devemos, agora, trocar o que é certo, regulamentado, fiscalizado, auditado e controlado pelo que é duvidoso.

As mais recentes pesquisas científicas não apenas confirmam esse quadro, como dão tranquilidade aos trabalhadores do setor (do minerador até o montador de telhado) e a quem adquire o produto.

Mais de 25 milhões de residências no Brasil -50% das moradias- estão cobertas com telhas de fibrocimento com amianto. O setor do amianto movimenta R$ 3,1 bilhões ao ano. Esses dados esclarecem o apetite da concorrência internacional por essa fatia do mercado brasileiro em franca ascensão. O que não se justifica são os métodos para obtê-la, próprios de uma guerra suja.

Agora, com o assunto judicializado no STF, finalmente tem-se a oportunidade, numa audiência pública que se dará nos dias 24 e 31 de agosto de 2012, para separar verdades de mitos, ciência de especulação.

MARINA JULIA DE AQUINO, 67, presidente-executiva do Instituto Brasileiro do Crisotila (IBC)




Não há maneira segura de usar o amianto



O amianto é um mineral fibroso reconhecidamente cancerígeno para os seres humanos, segundo as mais importantes academias de ciência e entidades da área de saúde.

Uma vasta literatura médica dá sustentação à tese de que não há maneira segura de se trabalhar com ele ou utilizar produtos que o contenham, e que a melhor forma de se eliminar as doenças provocadas pela fibra mineral é o seu banimento.

Campanhas em todo mundo, apoiadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), buscam o fim da chamada "catástrofe sanitária do século 20", tal a gravidade do quadro epidêmico das doenças provocadas pelo amianto.

A OMS estima que 125 milhões de trabalhadores em todo o mundo estão expostos ao amianto em seus locais de trabalho. Segundo essas estimativas, cerca de 107 mil trabalhadores morrem por ano pelas doenças relacionadas ao amianto.

Entre elas, o câncer de pulmão, o mesotelioma (tumor maligno raro e incurável, atribuído ao amianto, que leva ao óbito a maioria de suas vítimas menos de um ano após o diagnóstico) e a asbestose (enrijecimento do tecido pulmonar, que conduz à falta de ar acentuada e progressiva, podendo matar por asfixia). Uma em cada três mortes por câncer ocupacional está associada ao amianto.

Mas o amianto não é um problema só dos trabalhadores que se expõem às suas fibras microscópicas e letais. Pode atingir indistintamente os seus familiares, vizinhos de minerações e das instalações industriais onde se produz e manipula o amianto, e os consumidores de mais de 3.000 produtos à base deste mineral, como materiais de construção (telhas, caixas d´água, divisórias de cimento-amianto), produtos de fricção para veículos automotivos (freios, juntas de cabeçote) e para vedação e isolamento térmico.

A OMS vai além ao afirmar que milhares de mortes podem ser atribuídas anualmente à exposição ambiental ao amianto, ao qual todos nós estamos expostos devido às propriedades aerodinâmicas destas tênues fibras, que viajam quilômetros de distância e que podem atingir órgãos do nosso trato respiratório, principalmente pulmão e pleura, a membrana que reveste o pulmão.

Já são 66 os países que proíbem a produção e utilização de produtos à base de amianto, inclusive nossos vizinhos Argentina, Chile e Uruguai. No Brasil, cinco Estados e dezenas de municípios já têm leis que vetam a utilização do amianto, mas infelizmente nossas autoridades preferem fazer vistas grossas, não punindo os infratores, já que há fortes interesses políticos e econômicos envolvidos com a produção e utilização deste mineral.

Goiás é hoje o único Estado produtor do chamado amianto branco ou crisotila. O Brasil é o terceiro maior produtor mundial, o segundo exportador e o quarto utilizador.

Há um forte grupo parlamentar de deputados e senadores goianos, a "bancada da crisotila", que impede sistematicamente que o debate sobre proibir a fibra cancerígena avance no Congresso. Alguns dos mais proeminentes políticos pró-amianto frequentaram recentemente o noticiário, como o ex-senador Demóstenes Torres, o deputado Carlos Leréia e o governador Marconi Perillo.

Temos plena convicção de que o banimento do é uma emergência, pois já se domina em todo o país as tecnologias livres de amianto. Custos iniciais adicionais serão compensados pela redução das despesas de diagnóstico, tratamento e indenização das vítimas e da disposição final dos resíduos perigosos gerados.

A proibição do amianto salvará o Estado de São Paulo de demitir 10.500 trabalhadores nas 170 empresas que já se adequaram à lei de proibição e que não suportarão as consequências da concorrência desleal.

FERNANDA GIANNASI, 54, engenheira, é gerente do Programa Estadual do Amianto da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego em São Paulo


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