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quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Estudo interessante feito no DF. Deveria ser repetido em outras cidades


Menos filhos. E cada vez mais tarde 

O Distrito Federal registrou, de 2000 a 2010, uma das menores taxas de fecundidade do país. A principal queda está entre as mulheres de 15 a 24 anos. As brasilienses passaram a dar à luz mais velhas e com maior grau de escolaridade



MANOELA ALCÂNTARA no Correio Braziliense



As mulheres do Distrito Federal tiveram menos filhos entre 2000 e 2010. Nesse período, a capital registrou uma das menores taxas de fecundidade do país, com São Paulo e Rio de Janeiro. O índice chegou a 1,74 dependente por mulher, número abaixo do necessário para manter a população estável, que deveria ser de 2,1. Se depender somente desse fator, nos próximos 30 anos, a quantidade de habitantes começará a decrescer. As brasilienses optaram ainda em ter filhos mais velhas e com o grau de escolaridade maior. O perfil da mulher mais estudiosa e trabalhadora influencia diretamente na queda dos nascimentos, de acordo com dados divulgados ontem pela Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan).



A 5ª pesquisa de Evolução da Fecundidade no DF entre 2000 e 2010 mostra que há uma transição na cultura da mulher brasiliense, se for comparada ao perfil da população em meados das décadas de 1960 e 1970. Na ocasião, cada uma tinha, em média, seis filhos. Hoje, não passa de dois. Em 2000, mulheres de 15 a 49 anos deram à luz 47.615 bebês vivos. Dez anos depois, os nascimentos caíram para 44.047, o que representa redução de 7,5%.



A principal queda está entre aquelas com idade de 15 a 24 anos. O número de filhos para essa faixa etária teve redução de 27,7%. Proporcionalmente, mais da metade dos nascidos vivos foram gerados por mulheres entre 20 e 29 anos. Nos próximos anos, no entanto, o maior número de mães deve ter de 30 a 34, se o crescimento se mantiver (veja quadro). Apesar de ainda representar um percentual pequeno, a maternidade aos 40 anos aumentou mais de 90%. Em 2000, somente 1,4% das mulheres tinha filhos nessa faixa etária. No dado mais recente, houve aumento para 2,7%.



Elisângela da Silva Santos, 40 anos, segue o perfil demonstrado pela Codeplan. A mãe dela teve oito filhos, mas ela optou por não seguir o exemplo. "Tem que fazer o controle de natalidade. No segundo filho, fiz laqueadura. Cuido deles sozinha. Trabalho muito para manter uma boa qualidade de vida e estudos para os dois", disse a diarista e moradora da Estrutural. Para ela, um crescimento populacional exagerado demanda também investimento em infraestrutura. "A pior situação para nós, hoje, é a falta de água, luz, energia. O governo deveria olhar mais para esses problemas", completou.



Escolaridade



O grau de instrução das mães aumentou consideravelmente. O maior percentual de bebês (37,3%) está entre as mulheres com 8 a 11 anos de estudo. Elisângela está entre elas. Concluiu o ensino médio e já teve a carteira assinada em diversos lugares. "Foi quando trabalhava em um hotel que consegui "ligar as trompas"." Em seguida, na pesquisa, vêm as mães com 12 anos ou mais de estudo (graduação, pós, mestrado), com 27,4%. De 2000 a 2010, o percentual para esse grupo aumentou 67,2%.



Já o número de mães sem nenhum grau de instrução caiu 80,8% em 10 anos. "As mulheres têm estudado mais do que a população masculina. A priorização ao estudo e à atividade profissional têm levado-as a adiar a maternidade. Por isso, hoje, prevalecem aquelas a partir dos 30 anos", afirmou o presidente da Codeplan, Júlio Miragaya.



A intensidade do adiamento na maternidade surpreendeu os pesquisadores. O número pode levar à geração de políticas públicas voltadas para uma população mais velha. "O governo deve começar a focar mais nos idosos, em termos de serviços. Já é comum, em algumas áreas da cidade, termos ociosidade nas escolas. Em determinadas regiões, não há necessidade, por exemplo, de construir mais unidades de ensino", completou o presidente da Codeplan. A sugestão de Miragaya é que, analisadas as possibilidades, deve-se investir em políticas de relacionamento e lazer para os idosos.



Entre as mulheres, por exemplo, o estudo revela um envelhecimento da população. Houve uma redução naquelas com idade inferior a 24 anos. No grupo de 15 a 19 anos, a queda foi de 13,8%. Entre 20 e 24 anos, de 18,1%. Isso revela a diminuição das mães nascidas nas décadas de 1980 e 1990, quando já havia uma tendência de redução da fecundidade.



Opção de parto



Em todos os grupos estudados, aumentou a escolha pelo parto cesáreo. O crescimento, em 10 anos, foi de 28,8%. Mesmo entre as mais novas, o parto normal vem deixando de ser a opção principal. Em 2000, 74,1% das mães entre 15 e 19 anos escolhiam a opção natural. Em 2010, foram 68,3%. Para as mais velhas, entre 35 e 44 anos, a média é de 33,55%. "Na faixa dos 30 anos, por questão de saúde, tem prevalecido o parto cesário. Até os 29, ainda prevalece o parto normal", disse Miragaya.



Colaborou Thaís Paranhos



Fonte


O estudo da Codeplan foi elaborado a partir dos dados do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (Sinasc), disponíveis no site do Departamento de Informática do SUS (Datasus). A ferramenta, implantada desde 1990, informa o número de nascidos vidos notificados no país.



Palavra de especialista



Desejo de ser valorizada



"Os dados confirmam uma tendência de queda muito rápida no país inteiro e o Distrito Federal acompanha essa inclinação à fecundidade abaixo do nível de reposição. Isso indica que estamos reduzindo fortemente o ritmo de crescimento e, em 25 anos, teremos uma redução em números absolutos da população. Essa tendência vem desde a década de 1970, mais forte na década de 1980. As mulheres começaram a ter menos filhos e, nesta última década, estudiosos foram surpreendidos com uma redução mais drástica. A escolarização das mulheres e a participação no mercado são variáveis que explicam essa queda. Antigamente, os filhos representavam uma previdência social, você tinha seguro a partir do número de descendentes, a mãe saberia que teria um apoio. Hoje, as mulheres querem realizar o desejo de ter uma carreira profissional, de ser valorizada. Mas essa mudança terá medidas importantes no futuro. Com o processo de envelhecimento da população, teremos menos jovens e a força de trabalho estará reduzida. É um desafio grande. Quanto ao parto cesário, a tendência do Brasil vai contra o que é preconizado mundialmente na área de saúde. De certa forma, está se expondo a um risco a mãe e o recém-nascido."



Ana Maria Nogales, professora do Departamento de Estatística da Universidade de Brasília (UnB)

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