A geléia geral não compensa
Cada qual pode ter a sua leitura da condenação, pelo STF, de dois nomes históricos do PT, José Dirceu e José Genoino, por corrupção ativa. São várias as interpretações para os termos duros utilizados, como os que escolheu Celso de Mello –”agenda criminosa”, “organização criminosa”. Ou para a expressão ainda mais inclemente usada pelo presidente do Supremo, Carlos Ayres Britto, de que foi “um golpe”.
Para mim, não faz sentido dizer que naquele plenário se perpetrou um golpe, tanto quanto é nonsense dizer que Britto viu na trama uma tentativa de golpe por parte do governo petista. O que ele condenou foi o vale-tudo, o golpe que é dado nas instituições republicanas quando um político se utiliza de trapaça para governar ou ganhar eleição –seja isso chamado de caixa dois ou “mensalão”. A íntegra do trecho do voto do ministro é clara:
“Com a velha, matreira e renitente inspiração patrimonialista, um projeto de poder foi arquitetado. Não de governo, porque projeto de governo é lícito, mas um projeto de poder que vai muito além de um quadriênio quadruplicado, muito mais de continuidade administrativa. É continuísmo governamental. Golpe, portanto, nesse conteúdo da democracia, que é o republicanismo, que postula renovação dos quadros de dirigentes.”
É importante lembrar que, denunciado, o esquema acabou –isto o próprio Roberto Jefferson falou na fatídica entrevista à Folha de S.Paulo. Após contar a Lula, “a fonte secou”, disse Jefferson à repórter Renata Lo Prete. O que isso significa? Que se, por um lado, o Supremo decidiu que o mensalão existiu (apesar de não haver provas cabais), por outro também decidiu que acabou, é passado. Que foi um episódio pontual –sim, condenável– na história do governo Lula, mas não uma prática dos oito anos que durou seu governo, seis além do mensalão. E que houve crimes, pelos quais muitos irão pagar agora, justa ou injustamente.
Não enxerguei em nenhum dos ministros a intenção deliberada de proteger ou de destruir à margem da lei. Vi, de um lado, dois votos vencidos que optaram por se basear estritamente nos autos, o que é legítimo; e vi, de outro, oito votos convictos de que havia uma caçamba de irregularidades e que viram evidências do envolvimento de dirigentes do PT com uma organização corrupta. Como negar que havia depósitos e saques à boca do caixa, dinheiro circulando para lá e para cá, delivery de boladas em cash entregues ao portador? Como um eleitor pode entender que políticos possam ser absolvidas em circunstâncias assim? Pior: que sejam SEMPRE absolvidos?
Obviamente existe uma disputa eleitoral como pano de fundo do julgamento que se desenrola desde agosto no plenário do STF, mas isso pouco ou nada tem a ver com o fato de que há muitos crimes ali. Cada um dos ministros desencavou do processo os fatos que mais o deixaram indignado. São condutas que causam vergonha e repugnância no cidadão brasileiro que trabalha e ganha seu dinheiro honestamente. Não há como desmentir esta realidade.
É duro, para um eleitor do PT, descobrir que o publicitário Marcos Valério saltava de gabinete em gabinete do governo, fazendo sabe-se lá o quê. 17 vezes com dirigentes do Banco Central! Para quê? “Tinha o dom da ubiquidade”, disse Ayres Britto. “Está ligado a todos os envolvidos nesta denúncia. Esteve no BC, com Henrique Pizzolato, com o presidente da Câmara dos Deputados várias vezes, com dirigentes do BMG, do Rural, da Portugal Telecom, da Telemig, com a mais alta cúpula do PT…”
É duro, para um eleitor do PT, descobrir que o partido “diferente” que, jovem, abraçou, caiu na geléia geral quando chegou ao poder. As alianças com raposas da política já eram difíceis de engolir. Mas que a realpolitik também incluía uns trocados “por fora” é intragável. Mensalão ou caixa 2, tanto faz. O voto do ministro Ayres Britto, que como presidente da Corte amarra o julgamento, é absolutamente translúcido ao definir o que se passou naquela Casa nos últimos dois meses: acabaram-se os tempos do dinheiro sujo na política, “da prata mediante o voto”, como completou Marco Aurélio Mello.
Há quem esteja chateado, com razão, porque o PT foi o único partido a ser punido. Eu prefiro acreditar que foi o primeiro de muitos –e será, se a sociedade cobrar, exigir do Supremo que não pare por aqui. O mensalão só irá destruir o PT se ele deixar. A partir de agora, julgados e condenados, os petistas poderão voltar a se sentir à vontade para resgatar seu velho e bom discurso da ética na política. Todos erram, mas só um partido até hoje respondeu na Justiça por seus erros. Não há razão alguma para se envergonhar, pelo contrário.
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