por Camila Salmazio no Blog da Saúde no Vi o Mundo
Mulheres de barrigas cheias de vida, crianças correndo pelo espaço, bebês felizes nos seios maternos. É nesse ambiente que a Casa da Borboleta, primeiro centro de apoio à humanização do parto, à maternidade e à paternidade ativa da Zona Leste, oferece apoio e referência às famílias.
“O objetivo é oferecer um espaço onde os pais podem se informar, encontrar apoio para suas decisões e trocar experiências e vivências. Uma maneira de retribuir a oportunidade que tive de encontrar círculos como o nosso que fizeram toda a diferença em minha maternidade”, diz Reila Miranda, coordenadora da Casa da Borboleta.
Muitas mulheres encontram nos grupos de apoio a oportunidade de amenizar a dor da violência que sofrem em um dos momentos mais marcantes de suas vidas: o nascimento de um filho. Procedimentos invasivos, partos normais transformados em cesarianas desnecessárias e não ter tido a oportunidade de segurar o filho nos braços após o nascimento são só algumas das marcas que elas lutam para entender e transformar a dor em coragem de lutar pela humanização, para que outras não passem pelo mesmo.
“O sexo frágil, como fomos ‘carinhosamente apelidadas’, trabalha, estuda e, entre outras tarefas, dá à luz com a força da natureza nas entranhas. Somos protagonistas de muitas lutas e mudanças sociais hoje, apesar de toda a violência que a mulher sofre.”, explica Reila.
A Casa da Borboleta possui grupos gratuitos de gestantes, pós-parto e amamentação, além de oferecer apoio às mães empreendedoras e seus negócios. O espaço de troca e vivência também trabalha para ajudar a mudar o atual sistema de industrialização do parto, um problema de saúde pública no país.
O Brasil lidera o ranking da América Latina de nascimentos por cirurgia. Em 2011, o número chegou a 83,8% nos hospitais particulares, segundo a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). A recomendação da Organização Mundial da Saúde é que apenas 15% sejam via cesárea, indicadas apenas em casos com risco de morte. Coincidentemente, a violência obstétrica tem crescido junto com os números de cesáreas. Uma em cada quatro mulheres sofre violência no parto (pesquisa realizada pela Fundação Perseu Abramo).
“O parto para mim é como o nascimento de uma borboleta, se alguém toca no casulo no momento na hora de vir ao mundo ela pode ter asas tortas ou até mesmo não nascer. Por isso, dei o nome do espaço de Casa da Borboleta. A mulher e sua família têm o direito de escolher como quer receber seu filho”, diz Reila.
A Casa possui uma equipe de voluntárias, entre elas doulas, obstetrizes e mães com experiência adquiridas na maternidade. O espaço está aberto a novas parcerias e colaborações. Reila acredita que empoderar a mulher e torná-la protagonista de suas próprias escolhas são maneiras de melhorar a saúde e diminuir as taxas de mortalidade materna e infantil. “É preciso se conectar com o feminino, com a nossa ancestralidade. O gerar, gestar e parir são processos naturais do corpo feminino. Somos mamíferas!”
Diante da atual cultura da cesárea querer sentir a dor do parto pode soar como um ato de coragem. Mas ter coragem mesmo é lutar pelas próprias escolhas e ir contra o sistema.
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