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segunda-feira, 29 de julho de 2013

“Há uma pressão grande nas unidades de saúde 24 horas”, admite secretário

Adriano Massuda, que comanda Pasta em Curitiba, fala sobre problemas e soluções para o sistema na Capital

no Bem Paraná

Há pouco mais de seis meses à frente de um dos cargos que considera como “um dos mais complexos do mundo”, Adriano Massuda não se deixou desanimar com a situação que encontrou. Em meio a dívidas, falta de investimento e problemas de gestão, Massuda assumiu em janeiro deste ano a Secretaria de Saúde de Curitiba. Em pouco tempo, mostrou que com medidas simples, é possível se conseguir alguns avanços significativos, como desafogar parcialmente as filas nas Unidades de Pronto Atendimento, um dos maiores gargalos da cidade.
Médico graduado pela Universidade Federal do Paraná, mestre em Saúde Coletiva e doutor pela Unicamp, ele é ainda professor adjunto da UFPR licenciado e já ocupou o cargo de secretário-executivo adjunto do Ministério da Saúde. Agora, como secretário de Saúde de Curitiba, tem quatro anos para resolver um problema complicado, com uma solução pior ainda: “A população quer ter seu problema de saúde resolvido. E é isso que temos que fazer”.
Em entrevista ao jornal Bem Paraná, Adriano Massuda conta detalhes de como enfrentou e o que vem pela frente na área da saúde da capital paranaense.

BemParaná — Qual foi a realidade que o senhor encontrou na área da saúde em Curitiba quando assumiu a pasta no início deste ano?
Adriano Massuda — Nós assumimos a saúde em Curitiba talvez no pior momento da sua história. Encontramos a rede desabastecida de medicamentos, com atraso de pagamento para prestadores assistenciais, hospitais e para prestadores de serviço de manutenção. Não sei se lembram, mas desde setembro não se cortava grama nas unidades de saúde. Por conta de tudo isso um CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) fechou em janeiro e a maternidade Bairro Novo estava praticamente fechando.

BP — Que medidas foram tomadas?
AM — Não deixamos os hospitais fecharem. Fizemos um trabalho de reestruturação, com antecipação de pagamentos para pagar trabalhadores e medicamentos. Também assumimos a gestão da maternidade Bairro Novo através da Fundação Estatal, que é vinculada à nossa Prefeitura. Hoje a maternidade está funcionando e cerca de 700 crianças já nasceram no local desde que assumimos, em março. Ainda chamamos todos os prestadores para renegociar dívidas.

BP — Quais os motivos que levaram a essa situação quase caótica? Falta de investimento? 
AM — Uma parte sim, mas a maior parte foi problema de gestão do sistema de saúde.

BP — Qual o grande desafio na gestão da Secretaria?
AM — Acho que o grande desafio que temos hoje é aumentar a qualidade do conjunto dos nossos serviços de saúde. Temos 109 unidades básicas de saúde e oito unidades de pronto atendimento 24 horas (UPAs) e existe uma pressão muito grande sobre as UPAs. Curitiba está atendendo cada vez mais gente da Região Metropolitana. O sistema de saúde da Região Metropolitana está em situação caótica, então a população está vindo toda para cá. A unidade de Pronto-Atendimento do Boa Vista, por exemplo, chega a atender mais gente da Região Metropolitana do que de Curitiba. Em alguns dias 60% do total de seus pacientes são de outros municípios.

BP — O que vem sendo feito para evitar essa sobrecarga com os pacientes da Região Metropolitana?
AM — A gente não vê uma ação coordenada para buscar reestruturar esse sistema. Quem é responsável por fazer isso é o Governo do Estado do Paraná.

BP — Como está a situação da outra ponta do sistema, a atenção hospitalar?
AM — A gente assumiu com uma relação muito desgastada da Secretaria municipal de Saúde com o conjunto dos hospitais de Curitiba. Seja pela falta de pagamento, ou por problemas de gestão da secretaria com relação aos hospitais, ou ainda por problemas internos dos hospitais. Então estamos com problemas com a nossa rede hospitalar também.

“Saída é ampliar atendimento nas unidades básicas”

BP — Quais os pontos positivos do atual sistema de saúde de Curitiba?AM — A nossa maior riqueza são os trabalhadores do SUS de Curitiba. Temos mais de 7.500 profissionais de saúde vinculados a rede de saúde da cidade, dos quais 1.200 são médicos, 800 profissionais de enfermagem, 700 dentistas e cerca de 3 mil auxiliares de enfermagem. Todos muito dedicados e comprometidos. Por isso estamos buscando uma gestão participativa, em que os trabalhadores participem. Não tem jeito de fazer saúde se não for assim.
BP — Quais as principais ações desses seis primeiros meses à frente da Secretaria?
AM — Para buscar ampliar o atendimento nas unidades básicas de saúde, nós ampliamos o horário de atendimento nas unidades. Começamos por uma unidade por distrito, então hoje já tem nove funcionando com horário ampliado, até às 22 horas. A meta é ter cerca de 30 unidades funcionando até esse horário, o que seria um terço do total. Até o final do ano pelo menos mais uma por distrito. Para isso, vamos contratar mais profissionais médicos através de um processo seletivo em agosto ou setembro. Porém, essa ampliação até 22 horas já feita até agora foi com o nosso quadro atual.

BP — Já é possível notar um reflexo dessa ação?
AM — Cerca de 12 mil pessoas foram atendidas durante esse horário estendido desde que iniciamos a ampliação. Para essas 12 mil pessoas o problema foi resolvido sem ter que ir a uma UPA. Então já deu um impacto sim, mas ainda não é o suficiente. Por isso precisamos ampliar mais. Mas o retorno é muito positivo, a pessoa tem o seu problema resolvido mais perto de casa e não precisa ir até o 24 horas, que tem atendimento focado em emergência. Ele acaba ficando sobrecarregado por esses outros tipos de atendimentos básicos, que não precisariam ir para lá.

BP — Existe algum outro projeto para desafogar as unidades 24 horas?
AM — Além da ampliação do horário de atendimento, queremos reforçar as equipes de saúde da família. Nós assumimos a gestão com 185 equipes de saúde da família e criamos mais 44 nesses 6 meses, chegando a um total de 229. Nossa meta é chegar a 500.

BP — Uma das principais reclamações da população é a falta de médicos especialistas. Essa medida visa também amenizar esse problema?
AM — Sim, mas temos alguns problemas em áreas como cirurgia ortopédica, por exemplo. Nisso, realmente a oferta de procedimentos precisa ser ampliada. A gente tem sistema de ouvidoria que capta problemas.

BP — O tempo de espera para atendimento também é uma grande reclamação. Algo já mudou?
AM — Claro que qualquer cidadão quer ter seu problema resolvido o mais rápido possível. Até julho a gente tinha conseguido diminuir o tempo de espera médio, mas com essa onda de frio, que deve ficar até agosto, nós temos um aumento em torno de 20/% nos serviços de saúde por conta de doenças respiratórias. Mas a nossa média de tempo de espera antes disso tinha caído de cerca de 3 horas para 1h30.

BP — O atendimento na área de saúde mental também vai ser revisto?
AM — Estamos vivendo um fenômeno de aumento da incidência de problemas de saúde mental e de dependência química. Nessa área o nosso grande desafio é pensar o sistema de saúde em rede. Em Curitiba os serviços funcionavam de maneira isolada. Na atenção básica a depressão leve possa ser tratada e acompanhada com o médico da família. Temos equipes muito preparadas para fazer esse atendimento e ainda vamos realizar capacitação permanente. Alem disso, vamos colocar um psiquiatra presente no núcleo de apoio da saúde da família. Outro avanço que já conseguimos foi com que quatro, dos doze, Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) funcionassem 24 horas. Também estamos ampliando os leitos. Nesse primeiro semestre, foram mais 48.

Periferia acaba afetada pela falta de profissionais

BP — O número de médicos é suficiente para atender a demanda?
AM — Tem unidade de saúde, principalmente periferia, que a gente tem mais dificuldade de colocar médicos e todos os profissionais de saúde. De maneira geral, eles não querem ir para regiões mais distantes. A outra parte do problema é que a demanda que chega é muito grande. Temos até um número maior de médicos do que o Ministério da Saúde determina. O Ministério orienta seis, nós temos 10. A questão é que volume está muito grande.

BP — Quais as dificuldades que vem enfrentando?
AM — Estamos pegando a consequência de uma política equivocada que colocou o 24 horas como solução para os problemas dos sistemas de saúde. Outra coisa é que estamos tendo que fazer uma reestruturação administrativa completa revendo todos os contratos, convênios e o funcionamento da secretaria. Hoje estamos revisando todos os contratos, desde quanto custa uma impressão de papel. E já baixamos o custo disso, por exemplo de R$ 0,17 para R$ 0,09. Não estamos fazendo corte de gasto para fazer menos, estamos contratando melhor para fazer mais.

BP — É difícil entender a complexidade do sistema de saúde. Acha que população compreende?
AM — A população quer ter seu problema de saúde resolvido. E é isso que temos que fazer. A questão é que aconteceram muitas mudanças. A saúde foi afirmada como direito de cidadania apenas com a Constituição de 1988. Então o estado precisou se organizar para atender toda a população. Desde década de 80, em Curitiba, a cada ciclo de 10 anos, há a construção de 30 unidades de saúde. Hoje estamos com 109 e antes só existiam hospitais. Hoje a gestão da saúde é uma das coisas mais complexas que temos no mundo.

BP — Em geral, a população fala muito mal dos serviços de saúde pública no Brasil. O que acha disso?
AM — Aí temos duas coisas interessantes: a percepção geral da população sobre saúde publica e a avaliação de quem usa o sistema. Quem usa o sistema em Curitiba, na média geral, o avalia bem. A percepção geral da população sobre a saúde é negativa um pouco em razão do efeito que a imprensa tem causado. Alguns jornalistas entram nas unidades sem permissão, fazendo filmagens, jogando todo mundo na lata do lixo. Claro, tem profissional que não atende bem? Tem, como qualquer lugar. O fato é que só se passa essa imagem. A quantidade de coisas que se resolvem, não é passado na mídia.

“Quanto mais cedo o aluno lidar com gente, melhor”

BP — Vimos recentemente que os médicos estão se organizando e realizando algumas paralisações e pedindo mais valorização. O que a Prefeitura faz em relação a isso?
AM — Eu sempre lutei por isso, desde minha formação. Durante minha graduação, fiz parte do movimento estudantil e uma das coisas que a gente mais reivindicava era mais valorização médica. Depois fui fazer residência e reivindicava melhoria nas condições de trabalho dos residentes. Fiz parte de sindicatos também e sempre tive história nessa luta. Mas só vamos conseguir dar boas condições quando organizarmos o sistema. Precisamos estar preparados para encarar esse desafio importante na medicina que é a humanização. Você só consegue ter uma humanização se dá boas condições de trabalho.É difícil cobrar mais humanização no tratamento 24 horas com o volume de atendimentos que é realizado.

BP — Qual sua opinião sobre o programa Mais Médicos?
AM — A gente tem que ter mais médicos no Brasil sim. Eu sou a favor da política do governo federal. Hoje, só acha que tem médico suficiente, quem não precisa de médico. Se hoje, em Curitiba temos dificuldade de alocar médicos nas regiões de periferia, imagine em outras cidades? Como o mercado está aquecido, a maioria escolhe onde quer trabalhar. Por outro lado, a queixa dos médicos de que muitas cidades não oferecem condições de trabalho também deve ser ouvida. Mas também isso só vai mudar quando o médico estiver no local, ele ajuda a construir as condições de trabalho. Acho que o Governo Federal está enfrentando de maneira corajosa essas questões.

BP — E sobre a obrigatoriedade dos estudantes de medicina trabalharem dois anos no SUS? O que acha?
AM — Sempre fui defensor de que estudantes trabalhassem no SUS desde o começo da faculdade, desde o primeiro ano. Na faculdade o aluno fica dois anos vendo células, anatomia, aprendendo fisiologia, e só vai ver gente no final do curso. Quanto mais cedo ver, melhor. Acho que tem muito que mudar na formação medica. Tem que melhorar. Uma alternativa possível seria, ao invés de aumentar para oito anos, fazer residência para todo mundo.

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