Valeu a pena!
Ayrton Alfredo Russo
na Gazeta do Povo
Os 88 anos do médico hemoterapeuta Ayrton podem ser resumidos pela expressão “valeu a pena!”, dita sempre no fim dos discursos proferidos ao longo de tantos anos dedicados à medicina, mas que iam além do profissional. Ele detinha o registro 222 no Conselho Regional de Medicina.
Com a família, os encontros eram na Boca Maldita. Tinha costume de tomar café com os cunhados e sobrinhos todos os domingos. Além de compartilhar notícias e saber das últimas, o caminhar naquele trecho da XV de Novembro era algo ímpar, segundo o filho Luiz. Ayrton não fazia apenas um aceno aos conhecidos ou amigos; ele precisava parar para conversar. “O tempo nunca era jogado fora.” Quando os filhos eram pequenos, sempre parava na banquinha de jornal para comprar álbuns de figurinhas, bem como doces, que serviam de surpresa ao chegar em casa.
Tradicional, ainda morava na mesma rua e no mesmo bairro que um dia o fez conhecer o amor de sua vida. Aos 15 anos, Ayrton percebeu Helena, a jovem que sempre ficava na varanda da casa na Rua Benjamim Constant, no Centro, em meio ao jardim de malvas, penteando o cabelo, enquanto os meninos jogavam bola no campinho ao lado. O amor durou e, após a formatura de Ayrton no curso de Medicina, pela Universidade Federal do Paraná, em 1950, casaram-se. E o casarão manteve ao longo dos anos as portas abertas, principalmente durante a fase de adolescência dos filhos, para lanches e bate-papos. Era uma referência, na década de 60/70.
Em sua trajetória profissional, dr. Russo tinha em seu currículo a criação do Banco de Sangue do Hospital de Clínicas, assim como médicos formados e treinados por ele. Até 1980, esteve entre a equipe. Depois disso, era possível vê-lo, até outubro no ano passado, na Santa Casa de Misericórdia. Nos encontros do café, o assunto da semana era dividido com discussões médicas que apaixonavam o médico dedicado. Nunca se aposentou.
Para o filho Luiz, que acompanhou o pai durante as visitas aos hospitais ao longo das últimas décadas, ele era “um anjinho que estava na terra”. Foram inúmeras as situações em que presenciou conversas do pai com pacientes, alunos e colegas. “Resolvia o problema das pessoas com serenidade.” E assim foi durante os mais de 50 anos em que deu aulas no curso de Medicina da PUCPR. Para o amigo e médico Mauro de Sá Merlin, a figura magra e de baixa estatura transpassava ternura e sabedoria. “Era um exemplo de humanidade e amor à profissão e aos pacientes.” Deixa a viúva Helena, três filhos, três netos e uma bisneta.
O "meu" tio Ayrton
Tio Ayrton foi como um segundo pai. Frequentei muito a casa na Rua Dr Faivre. Maria, Luiz, Celina são como meus irmãos. Tio Ayrton tinha sempre uma palavra de incentivo, sempre a mão estendida e uma paciência interminável...
Quando passamos no vestibular, foi ele que foi até a Reitoria e voltou com a notícia em primeira mão - literalmente - pois estendeu o punho cerrado em gesto de vitória quando o avistamos lá na esquina da Marechal.
Quando meu pai ficou enfermo, era Tio Ayrton quem corria para nos socorrer.
Eu o visitava quase todos os dias quando estava no HC durante o curso de medicina e durante a pós graduação. O cafezinho no Banco de Sangue era o ponto de encontro de todos nós. Eu era um pirralho aprendendo medicina e bebia da sabedoria do Tio, Dr Iseu, Dr Veiga...
Valeu a pena ter o privilégio de ter você em nossas vidas, querido Tio.
Você valeu a pena.
Fica em paz e manda um abraço bem apertado para o meu pai Zizo, para o Raymundo e para o teu grande amigo tio Mario...
Nós que aqui ficamos vamos tentar fazer jus a tua memória.
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