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domingo, 26 de janeiro de 2014

No Rio, perseguição levou ao 'massacre de Manguinhos'


Pesquisadores tiveram direitos políticos cassados e foram aposentados 'compulsoriamente'

no Globo


Mesmo não tendo resultado em mortes, o nome como o episódio ficou conhecido já dá o tom: massacre de Manguinhos. Foi a cassação de direitos, o afastamento do trabalho e o exílio de pesquisadores daFiocruz em 1970, num caso símbolo do que será apurado pela Comissão da Verdade da Reforma Sanitária.

Em 1º de abril de 70, por um decreto baseado no AI-5, Haity Moussatché, Herman Lent, Moacyr Vaz de Andrade, Augusto Cid Mello Perissé, Hugo de Souza Lopes, Sebastião José de Oliveira, Fernando Braga Ubatuba e Tito Cavalcanti tiveram os direitos políticos cassados. Como o decreto só cassava os direitos, mas não afastava os pesquisadores do seu trabalho, novo decreto viria mais tarde para aposentá-los "compulsoriamente" juntamente com Domingos Arthur Machado Filho e Masao Goto.

No total, dez foram afastados. Mas quase foram 11 - outro dos perseguidos foi Walter Oswaldo Cruz, filho de quem dava nome à própria instituição, diz a pesquisadora da Fiocruz Wanda Hamilton, que escreveu sobre o caso:

- Seriam 11 se Walter não tivesse morrido em 67. Isso porque ele sofreu uma perseguição tremenda depois de 64, quando Francisco da Rocha Lagoa - assumiu a direção do IOC (Instituto Oswaldo Cruz).

A direção do instituto, conta Wanda, passou a enviar ofícios a entidades internacionais e universidades pedindo que os auxílios financeiros passassem "pelo seu crivo" Com isso, o laboratório da seção de hematologia, dirigida por Walter acusado de propaganda subversiva e práticas de proselitismo político , perdeu auxílios da Fundação Ford e teve de devolver material científico.

Já quem teve os direitos políticos cassados soube da cassação pelo rádio. "Era dia 1º de abril. Uma moça que trabalhava com o Herman Lent chegou toda assustada e disse: 'Dr. Sebastião, telefonaram para cá dizendo que vocês foram cassados! Eu disse: 'Você esquece que hoje é 1º de abril?.' Daqui a pouco, alguém telefonou: 'Olha, está dando na Rádio Globo que vocês foram cassados' Aí liguei meu rádio e ouvi a notícia" contou Sebastião José de Oliveira no depoimento que deu em 86 à Casa de Oswaldo Cruz, setor da Fiocruz cujo acervo contém depoimentos e imagens dos perseguidos.

Nem todos foram exilados, e apenas um, Fernando Ubatuba, foi preso, em 68: ficou 14 dias incomunicável no paiol de pólvora do Exército, em Paracambi. O grupo só seria reintegrado à Fiocruz em 86, em ato público durante a presidência de Sérgio Arouca na fundação.

- O governo militar não deu explicação oficial sobre os motivos da cassação. Muitas possibilidades foram levantadas, pelos próprios pesquisadores. Alguns ressaltam aspectos pessoais, outros, inimizades na instituição, ou chamam a atenção para divergências sobre a política científico institucional - diz Wanda, sublinhando o que significou a perseguição para o país: A instituição estava na ponta do conhecimento científico brasileiro em entomologia, micologia, fisiologia. Todos os cassados e aposentados eram líderes de projetos, e seus laboratórios foram praticamente desmontados.

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