na Gazeta do Povo (via boletim do NEMS-PR)
Um
rapaz moreno caminha a passos indecisos e para na esquina. Por detrás
dos cabelos desgrenhados, os olhos vagos e um sorriso débil no rosto. Os
sinais
confirmam: ele é um dos mais de 12 mil dependentes de crack em
Curitiba. Assim como outros usuários, ele vai todos os dias à Rua
Desembargador Clotário Portugal, no Centro da capital, para “estourar
pedras”. Assim que a droga acaba, perambula pela região,
sob efeitos do entorpecente.
Medo
Pontos de consumo assustam moradores do Centro da capital
Os
carros e os transeuntes não parecem incomodar quem vai à Rua Clotário
Portugal, no Centro de Curitiba, para usar crack. Os dependentes acendem
os cachimbos
improvisados à plena luz do dia, agachados entre os veículos
estacionados. O movimento é maior principalmente no começo do dia e no
cair da tarde. Reúnem-se em frente a um casarão de luxo, de muros altos e
grades. “Esse movimento é o dia todo. A gente nem
pode sair na rua. O dia todo é portão trancado. A gente está preso por
causa dessa cracolândia”, disse um morador.
Uma
mulher que pediu para não ser identificada adotou uma medida mais
drástica para se sentir segura: só sai de casa empunhando uma chave de
fenda preta,
escondida sob a bolsa. “Um policial me orientou. Se eu for revistada,
[a ferramenta] não se enquadra como arma branca. Se os ‘crackentos’
vierem, furo eles”, assegurou, em tom grave.
A
Polícia Militar (PM) informou, por meio de nota, que “tem conhecimento
de diversos locais utilizados para o uso de drogas, tendo atuação
constante para
coibir o ilícito”. O recém-empossado secretário estadual de Segurança
Pública, Leon Grupenmacher, vê “com grande preocupação” o avanço do
crack. “Mas isoladamente não vamos resolver. É algo que requer a
integração com diversas outras secretarias. É isso que
vamos fazer”, disse.
Sem futuro
Um
dos habitantes da minicracolândia, Luiz Antonio dos Santos, de 52 anos,
parece ser pacífico. Trabalhou como carpinteiro por 25 anos, até que a
solidão
o levou ao crack e este, à ruína. Diariamente, lê jornais. O que traz
na mochila, estampa a manchete “Rumo ao Futuro”. “Mas que futuro a gente
tem?”, questiona ele.
Hoje
o crack já não provoca o bem-estar de quando começou no vício. Fuma
para fugir da paranoia causada pela abstinência. “Prazer é só no começo.
Depois,
a pessoa se afunda. Eu mesmo já não sei o que fazer”, desabafou.
Pelo mundo
Conheça outras ações de combate às drogas
São Paulo
A
prefeitura passou a oferecer R$ 120, moradia e refeições gratuitas a
frequentadores da cracolândia. Após 60 dias, o município planeja ampliar
o número
de vagas e oferecer cursos profissionalizantes.
Uruguai
No
fim do ano passado, aprovou a liberação do uso recreativo de maconha. A
droga pode ser adquirida em farmácias e a venda e a produção são
controladas
pelo Estado.
República Tcheca
Em
2010, liberalizou o uso de drogas, inclusive sintéticas, como LSD,
cocaína e ecstasy. O tráfico, no entanto, continua sendo crime.
Holanda
Legalizou
o consumo de maconha em cafés e lojas. A medida provocou uma redução no
índice de encarceramento – oito presídios foram fechados em 2009. Há
anos, a Holanda está entre os países com menos mortes causadas por
drogas.
Suíça
O
governo fornece heroína para usuários que não conseguem largar o vício
por tratamentos tradicionais. O fornecimento controlado derrubou pela
metade os
índices de overdose e de HIV transmitido por seringas.
Canadá
No
início da década passada, Vancouver abriu a primeira sala de consumo
supervisionado de drogas da América do Norte. As mortes por overdose
caíram 35%
nas imediações da sala.
Portugal
Em
2001, descriminalizou a posse de drogas. Uma década depois, o país
constatou a queda no consumo entre adolescentes. O índice de usuários de
entorpecentes
se tornou menor que o de países próximos que proíbem as substâncias.
“Eu acabei de fumar. Faz dois minutos”, assente Everton Oliveira, 23 anos. “[O crack] me ajuda a esquecer”, completa.
Assim
como a Clotário Portugal, outros pontos de Curitiba se tornaram focos
de atenção, por atraírem cotidianamente uma clientela fiel de usuários
de drogas.
São áreas como as margens do Rio Capanema, a Rua Riachuelo, terrenos no
Parolin e alguns reassentamentos. Espaços que funcionam como
“minicracolândias”, que já preocupam o poder público.
Enfrentamento
Nessas
próximas semanas de abril, a prefeitura deve pôr em prática uma nova
tentativa de tratar os dependentes químicos. Dois ônibus – com
psicólogos,
psiquiatras, assistentes sociais e agentes de saúde – vão circular
pelos pontos de consumo, com o objetivo de estabelecer vínculo com os
usuários e oferecer-lhes um atendimento “mais humano”.
Para
isso, o município capacitou mais de 600 agentes comunitários, treinados
em identificar pessoas em situação de risco – como Everton e outros
tantos
frequentadores das minicracolândias – e sensibilizá-los para
necessidade de tratamento. Em outra ponta, o poder público vai convidar
líderes comunitários a fortalecer esta rede.
Essência paulista
Apesar
de não prever auxílio em dinheiro, o projeto curitibano tem a mesma
essência da iniciativa lançada em janeiro pela prefeitura de São Paulo,
que
oferece trabalho e hospedagem a frequentadores da cracolândia. “O uso
de drogas não pode ser visto como uma questão moral, de caráter. É uma
questão de saúde pública. É uma doença e precisa ser olhada sob esse
prisma”, ressalta o diretor do departamento
de Política Sobre Drogas da Secretaria Municipal da Defesa Social de
Curitiba, Diogo Busse.
A
cidade planeja, também nas próximas semanas, a expansão dos Centros de
Atendimento Psicossocial (Caps) para além das seis unidades que hoje
prestam atendimento
aos dependentes. O programa também inovou ao incluir métodos
terapêuticos não convencionais. Pacientes do Caps do Cajuru, por
exemplo, passaram a frequentar aulas de ioga.
“A
ideia é aumentar a cobertura [dos Caps] e a diversidade de ações. Além
da abertura de novas unidades, queremos manter todas funcionando 24
horas”, sintetizou
o diretor do departamento de Saúde Mental da Secretaria Municipal de
Saúde, Marcelo Kimati.
“Eu sou fraco perante a droga. Mas nunca roubei”
Três
anos atrás, o vício em crack e em álcool fez com que Marcelo Avancini,
de 38 anos, deixasse para trás o lar, a mulher e o emprego – trabalhou
por
anos como garçom do Graciosa Country Club. Não queria que a família
sofresse por vê-lo corroído pela dependência química. Na rua, vive da
venda do artesanato que faz a partir de sucata de alumínio. Usa as
latinhas para fumar “pedras”, várias vezes ao dia.
“Eu sou fraco perante a droga. Mas nunca roubei, nunca fui preso”,
ressaltou.
Articulado,
o homem de fala mansa virou uma espécie de “líder do bem” da Praça
Constantino Fanini, às margens do Rio Capanema, uma das minicracolândias
de Curitiba. Ensina artesanato aos outros usuários e orienta-os a “não
cair no lado errado”. Os conselhos e os cuidados dispensados aos amigos
lhe renderam o apelido de “Paizão”.
“Eu
roubava para comprar crack. Foi esse cara que me fez parar e sonhar com
coisa melhor”, diz Rodrigo, de 25 anos, um dos “filhos” de Avancini, e
que
se viciou depois que a mulher morreu.
Avancini
reconhece a força da pedra. Já esteve internado por três vezes, mas
sucumbiu às recaídas. “Não podia tomar uma cerveja, que já era”,
relembra.
Sente vontade de se livrar do vício e recomeçar vida nova, mas sabe
que, sozinho, não conseguirá abandonar o cachimbo.
De frente pro mar
Perto
dali, outro frequentador da minicracolândia, Anderson Moreira, de 25
anos, construiu um barraco, à beira do Capanema. Caprichoso, decorou o
local
com um crucifixo, vasos de flores e bonecos. “E é de frente pro mar”,
brinca. É ali que se esconde para usar crack. Para comprar a droga, faz
malabares em sinais de trânsito. O vício roubou um de seus muitos sonhos
de juventude: trabalhar em circo. “Agora
sei que é difícil. É difícil sair dessa, irmão. Por mais que queira, a
pedra não deixa”, lamentou.
No interior, atendimento a dependentes é “básico”
Denise Paro, da sucursal
Boa
parte das principais cidades do interior do Paraná não contam com
propostas alternativas para tratar de usuários de crack como a que
Curitiba tenta
implantar agora. À exceção de Londrina, que já implantou o Consultório
de Rua, com uma equipe multidisciplinar que vai até os usuários, Ponta
Grossa, Foz do Iguaçu, Maringá e Cascavel investem no tradicional:
Centros de Atenção Psicossocial (Caps), leitos
psiquiátricos, clínicas terapêuticas e recebem recursos do programa do
governo federal, Crack é Possível Vencer. Na prática, porém, cada um tem
suas dificuldades.
Em
Foz do Iguaçu, por exemplo, cidade com fácil acesso às drogas em
função da fronteira, não há clínicas terapêuticas. Os usuários precisam
ser encaminhados
a outras cidades.
Em
Cascavel, a demanda é grande. Só o Conselho Municipal Antidrogas
(Comad) atende cerca de 15 famílias por semana, encaminhado os
pacientes para internações
ou desintoxicação.
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