Páginas

terça-feira, 19 de maio de 2009

Cidade repudia nome de torturador

Todos progressistas e democratas do país que conheceram a sinistra e brutal atuação de Fleury, ficarão aliviados com este ato de justiça reparatória

Todos progressistas e democratas do país que conheceram a sinistra e brutal atuação de Fleury, ficarão aliviados com este ato de justiça reparatória
Caio N. de Toledo

Na incessante luta pelo aprofundamento da democracia política no Brasil, os vereadores de São Carlos, SP, foram responsáveis por uma decisão histórica: na tarde do dia de 12 maio, por unanimidade, os vereadores dessa cidade aprovaram um projeto de Lei que altera o nome da rua Sérgio Paranhos Fleury. A partir dos próximos dias, com a sanção da Lei pelo prefeito municipal, a rua passará a se denominar D. Hélder Pessoa Câmara.

Certamente, este ato em nada mudará o cotidiano dos moradores da rua nem dos demais habitantes da cidade. No entanto, na batalha em defesa do “direito à memória e do direito à verdade” sobre os fatos ocorridos durante a ditadura militar, a decisão dos vereadores de São Carlos tem um inestimável valor simbólico. Por meio deste ato, um dos mais violentos e sádicos torturadores da ditadura militar – cujo nome foi imposto à cidade por meio de decreto de um obscuro prefeito, no ano de 1980 – em breve, deixará de ser lembrado pelos habitantes de São Carlos: pelos que transitam pela rua, pelos registros dos imóveis, pelas correspondências recebidas por seus moradores etc. Mais do que isso: todos progressistas e democratas do país que conheceram a sinistra e brutal atuação desse policial - sempre acobertado e respaldado pelos altos escalões militares -, ficarão aliviados com este ato de justiça reparatória. Depois de quase 29 anos, a vexatória homenagem - conferida ao policial que comandava sessões de torturas nos sinistros porões da OBAN/DOI/CODI e que foi agente direto em ações que resultaram nas mortes de combatentes da ditadura militar – será, finalmente, varrida da cidade.

Simbólica e singular vitória dos democratas e progressistas que reconhecem e respeitam a memória de brasileiros e brasileiras que tiveram suas vidas sacrificadas no combate à ditadura militar.

Dupla derrota dos que ainda hoje cultuam a ditadura militar: é escorraçado da cidade de São Carlos o nome de um dos “heróis” do regime militar; em seu lugar entra o pequeno e frágil, mas, sempre destemido, “bispo vermelho” - D. Helder Pessoa Câmara.

A decisão dos vereadores de São Carlos – tendo à frente o presidente da Câmara, Lineu Navarro (PT), e apoiada vivamente por entidades em defesa dos direitos humanos, por acadêmicos de várias partes do país, estudante, artistas, jornalistas etc. – deveria se constituir em exemplo para todos legislativos brasileiros. A defesa do “direito à memória e do direito à verdade” deve implicar também a luta pela ressignificação dos nomes de nossas ruas, praças, edificações públicas etc. que hoje cultuam os “heróis” e os patronos da ditadura militar de triste memória no Brasil.

Caio N. de Toledo é Professor da Unicamp.

Nenhum comentário:

Postar um comentário