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Leandro Souto Maior, Jornal do Brasil
RIO - Samba, bossa nova, tropicalismo, Augusto Boal, Nelson Rodrigues... O diretor teatral grego Sotiris Karamesini discorre com tamanha fluência sobre nomes e acontecimentos culturais brasileiros que nem parece estar pela primeira vez por aqui. Morando há apenas oito meses na favela do Vidigal, ele prepara desde o início do ano o grupo Nós do Morro para uma aventura tipicamente grega: encenar a tragédia As bacantes, reconhecido culto a Dionísio, ou Baco, o Deus do vinho, do dramaturgo ateniense Eurípedes.
– Estudo o Brasil há 10 anos, sou um apaixonado – conta o diretor em um português capenga, porém esforçado, do alto de um varandão na sede do Nós do Morro, em pleno Vidigal.
Anoitece. As estrelas se confundem com a frisa de pequenas luzes projetadas pelos casebres da comunidade. Totalmente a vontade no lugar, o “gringo” continua:
– Estava tendo aulas de percussão brasileira em Paris quando, fuçando notícias sobre como estavam as coisas por aqui, descobri que existia este projeto social e cultural que tinha o teatro como fio condutor. Comecei a ver os atores participando em filmes como Cidade de Deus e ficava de lá sempre acompanhando. Mas eles aqui nem imaginavam.
A parceria do grego com o grupo carioca será conferida nos palcos em junho, quando o espetáculo entra em cartaz no Rio. Depois, parte para a sonhada terra onde o teatro nasceu – e que serve de base para artistas, dramaturgos e demais envolvidos nas artes cênicas até hoje. A Grécia de seu diretor, claro.
– Já temos convite para ir ao Festival Internacional de Delfos, que é evento teatral muito importante na Europa – adianta Karamesini. – Esta não será uma adaptação de As bacantes e sim a peça no original. Nada daquilo que alguns viram numa releitura que o Zé Celso colocou até o Caetano Veloso para tirar a roupa em cena. O desafio proposto pelo diretor do Nós do Morro, Guti Fraga, foi justamente colocar essa moçada de cara com o verdadeiro e original teatro grego. Estou passando uma metodologia totalmente nova para eles.
Karamesini relaciona a relação dos gregos com os palcos ao vínculo quase que umbilical do brasileiro com o futebol e o samba. Nascido e criado respirando teatro com a mesma fixação de quem acompanha a Copa do Brasil ou o desfile das campeãs, iniciou seus estudos aos 22 anos com um dos maiores nomes das artes cênicas da Grécia, o diretor Sotiris Hatzakis.
Bastante conceituado em seu país – e também no exterior, já tendo ministrado oficinas na Filadélfia – a versatilidade de Karamesini transita do infantil Pequeno príncipe à recriação da clássica comédia The lover, de Harold PInter, e ao espetáculo de dança Dreamstream, baseado na obra de James Joyce. Hoje, com 40 anos, trocou os ares mediterrâneos de seu país para “vivenciar algo único e apaixonante”, como define a vida em um morro do Rio. Tal como um Samurai da também milenar cultura japonesa, passa adiante os conhecimentos adquiridos por seu mestre.
– Queria ter essa experiência, essa troca, e está sendo algo muito forte. Agora estou vendo os dois lados, que aqui não é só alegria e samba. Os dias no morro são de trabalho duro – define. – Aqui me sinto seguro, participando voluntariamente de um projeto social de arte sem fins lucrativos. Não sinto que a violência que existe no Rio seja menor que nos Estados Unidos.
Ao dar de cara com a realidade antes só conhecida através de relatos, sites e filmes, o diretor compara as caricaturizações de ambas as culturas.
– Tem um anúncio na TV que mostra um monte de gregos quebrando os pratos, quebrando tudo em casa - descreve. – Claro que nós não somos assim, mas tem um pouco disso. Assim como lá fora eu ouvia falar que Brasil é só futebol, samba e mulheres de bunda grande.
COMENTÁRIO: Fiquei emocionado com a notícia. Há algum tempo acompanho (à distância) a trajetória do 'Nós do Morro'.
Tive a honra de poder trabalhar e conviver durante um ano (1979) com a comunidade da Vila do Vidigal. Shirley e eu trabalhamos como voluntários junto à "Associação de Moradores da Vila do Vidigal". Foi um dos lugares mais lindos em que eu já trabalhei na vida. Eu prestava atendimento aos sábados pela manhã em um barraco que era a sede da Associação. O visual lá do alto, na 'varanda' do barraco, era deslumbrante. Coisa de fazer inveja a qualquer cobertura triplex da Vieira Souto. Nas noites de terça feira tinha reunião da Associação. Nós parávamos o carro na "Estradinha do Vidigal" (hoje tem o nome de Avenida Presidente João Goulart) e atravessávamos por entre as casas até a Associação. Nunca fomos incomodados.
Lá para os lados da Estradinha morava o polêmico compositor Sérgio Ricardo (aquele que fez fama quebrando e arremessando o seu violão contra o público em um dos festivais da Record na década de 60).
Durante alguns anos depois que voltamos para Curitiba chegamos a trocar cartões de final de ano com o pessoal do Vidigal.
Um dos moradores, àquela época, se dedicava a tocar o projeto de um grupo de teatro amador. Todos os anos, no "Dia da Resistência" o grupo encenava lá mesmo na Vila uma peça de teatro escrita por eles relatando a saga da comunidade resistindo e triunfando contra uma tentativa de despejo por parte dos órgãos governamentais do Rio.
Saudade dói...
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