De Zé McGill no blog Revista Foda-se: (transcrito no Noblat)
Domingo, dia da mães, e a senhora minha mãe diz que queria ir ao show do Caetano Veloso. Eu acordei de ressaca, todo errado, não conhecia o disco novo e não me animei muito. Mas, como era dia das mães, topei na hora. Lembrei também que nunca havia assistido a um show do CV e que acho fodaços os discos do início da carreira dele. Cheguei sonolento ao Canecão.
E demorei a reconhecer a música de abertura: “A voz do morto”, registrada no disco de raridades Cinema Olympia, onde ela aparece tocada pelos Mutantes. Eu estava largado na cadeira e fui logo me ajeitando. Em seguida veio “Sem cais”, que também é a segunda faixa de Zii & Zie, o novo álbum. A linha de baixo, numa onda quase dub, me deixou chapado, ao mesmo tempo que me despertou. Guitarrinha criando clima cool, bateria cheia de classe, e a banda Cê, que acompanha Caetano desde o disco anterior, garantia a felicidade da mamãe. Eu já estava bem acordado.
Pedro Sá (guitarra), Ricardo Dias Gomes (baixo) e Marcelo Callado (bateria), além de figurarem entre os músicos mais talentosos e criativos do Brasil do novo século, também são fãs dos discos do início da carreira do Caetano. E só isso já sugeria que o repertório traria surpresas agradáveis. Mas eu não esperava “Maria Bethânia” (do primeiro disco dos anos de exílio, Caetano Veloso, de 1970), “Irene” e “Não identificado” (do incrível disco de capa branca, Caetano Veloso, de 1969). Esta última, com bateria demolidora de Callado. Aí, mamãe já merecia um beijo.
Caetano pode ser chato, você pode até implicar com ele. Mas é gênio. E talvez seja hoje o melhor cantor brasileiro em atividade. E bota atividade nisso. Além de virar os olhinhos para declarar sorrindo que “Eu sou neguinha”, o cara corre pelo palco feito um Mick Jagger da Bahia (em doses menores de energia), e cativa feito um David Bowie do Pelourinho. Ademais, conserva o (bom) hábito de saber surpreender musicalmente. Se bem que, ao final de “Não identificado”, uma madame da mesa ao lado, certamente surpreendida pela ausência dos maiores sucessos do baiano no roteiro do show, se empolgou e pediu “Leãozinho”. Perdidinha, coitada.
“Base de Guantánamo”, também do disco novo, é prova de que a torneira criativa musical de Caê não fechou. É quase um mantra, quase The Police, quase Cuba. Os backing vocals da banda são coisa fina e a letra fala mal dos norte-americanos. Eu sou norte-americano (nasci lá nos EUA), minha mãe também, e os dois gostamos da música. Tem gente que reclama que Caê faz questão de emitir opinião de forma explícita o tempo todo, até nas letras. Por mim, deixa ele falar e cantar o que quiser... Ele acerta muito mais do que erra.
Acertou na escolha de “Incompatibilidade de gênios”, de João Bosco, mais uma de Zii & Zie, que provocou corinho da plateia durante o bis. Acertou no cenário (de Hélio Eichbauer), em que uma asa-delta colocada praticamente sobre a cabeça do baterista parece que vai levantar vôo. E acertou em cheio no recrutamento da banda Cê.
Tudo bem, a letra de “Lapa” é meio esquisita. Precisava mesmo comparar o bairro carioca a um “rapaz gostoso”? Mas valeu muito ter ido. Mamãe ficou feliz. Eu também fiquei. E a ressaca sumiu. Às vezes, os melhores shows, os melhores filmes, os melhores encontros são aqueles em torno dos quais não se cria expectativa em excesso.
Ok, Mick Jagger da Bahia foi forçação, eu sei.

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