MIEZE, 21 May 2009 (PLUSNEWS) - Elas só discordam em relação à idade do marido.
Em tudo mais, Isabel Biaque, 34 anos, e Saviana Nailon, 40 anos, são amigas - é assim que se referem uma à outra. Casadas com o mesmo homem, elas dividem tudo: o tempo do marido, os benefícios, o sexo.
Biaque é a primeira esposa - está casada com João Nicossa há 16 anos e mora na vila de Mieze. Teve seis filhos, quatro dos quais morreram. Estava casada há "muitos anos" quando começou a notar sinais de que o marido tinha outra mulher. Confrontou-o, mas ele não admitiu.
"Ele não queria deixar tudo claro, fazia o jogo do empurra", lembra.
Já Nailon, que hoje tem quatro filhos e mora na mesma vila, sabia que estava dividindo o companheiro com outra mulher. A relação, porém, ficou muito tempo sem definição até que ela fosse considerada esposa de facto.
Depois de perceberem que ambas ocupavam o mesmo posto, conformaram-se. Dividiam o marido, mas viviam em casas separadas, de maneira diplomática e sem conflitos.
Em 2006, Nicossa, que é funcionário público, foi transferido para o distrito de Meluco, na mesma província. Foi aí que as duas começaram a se aproximar. Quem as conhece diz: "Quando o marido vem visitá-las, o que ele encontra são irmãs."
As duas mulheres são unânimes em dizer que não existe ciúme entre elas, nem quando o marido retorna de Meluco. Sua volta é anunciada às mulheres pelas crianças e ele então avisa onde passará a primeira noite em Mieze.
"Se dessa vez ele começar dormindo na casa da amiga, da próxima vez começa dormindo na minha", diz Nailon, sem entender por que algo assim seria razão para briga.
O número de noites passadas nas duas casas deve ser igual e é acompanhado de perto. Pelas manhãs, elas checam para saber onde o marido dormiu. Se não foi em nenhuma das casas, as duas pedem satisfações.
A regra se aplica também a dinheiro e alimentos trazidos para casa: se uma receber 500 meticais (US$ 10) do marido, a outra deve receber a mesma quantia. Para se certificar de que não houve diferença, Biaque e Nailon conferem entre si.
"Se ele deu 500 meticais a ela, por que vai me dar apenas 300? Por que vai dar mais a ela se eu também tenho criança?", pergunta Biaque.
Divisão igualitária
Nicossa é muçulmano, como a maioria da população na província de Cabo Delgado, no norte de Moçambique. Segundo o Alcorão, um homem pode ter até quatro esposas, desde que seja capaz de prover igualmente - material e sexualmente - a todas.
Embora proibida pela legislação moçambicana, a poligamia é largamente praticada na província. Por limitar o número de parceiros, ela é apontada como uma das razões para a seroprevalência local de 10,6 por cento, abaixo da média nacional de 16 por cento.
O problema de tais relacionamentos é se uma das partes for infectada. No triângulo Biaque-Nailon-Nicossa, foi Biaque quem começou a ter dúvidas sobre sua saúde.
Grávida de quatro meses de seu sexto filho, em 2004, ela tinha dores no corpo, nas articulações, na cabeça. Já não andava e defecava na cama.
A criança nasceu doente. A condição de Biaque só piorava. Ela então pediu ao marido que a levasse ao hospital para fazer testes, inclusive de HIV.
Diante do pedido, ouviu: "Se alguém descobrir o segredo de SIDA, é consigo sozinha, não comigo."
Ela não teve medo. Foi ter com Maria de Fátima Bacar, presidente da Associação Ajuda ao Próximo, que congrega pessoas seropositivas, para acompanhá-la ao hospital. Fez o teste, que voltou positivo. Contou a Bacar e depois ao marido, que não acreditou.
Numa sociedade onde o medo de perder o lar ainda é um dos grandes empecilhos para que mulheres abram sua condição aos parceiros, Biaque não hesitou quanto à decisão.
"Contei a ele porque as dores eram demais e os sintomas estavam a piorar. Eu decidi ser honesta para salvar minha saúde, mesmo que ele me abandonasse", diz.
Ela recomendou que Nicossa fosse fazer o teste também. Para sua surpresa, ele aceitou. Biaque foi com ele à clínica e quando o resultado voltou positivo também, ele não se assustou.
O bebé morreu pouco antes de completar um ano.
Com seus próprios diagnósticos em mãos, Biaque e Nicossa contaram a Nailon, a segunda esposa, sobre o resultado. Ela também estava doente, com corpo fraco e dores de cabeça que não davam trégua. Os três foram juntos ao Centro de Saúde. Era uma quarta-feira. O teste também voltou positivo.
"Eu já tinha ouvido falar que havia uma doença chamada SIDA, mas foi aí que eu descobri que a SIDA existia mesmo", lembra Nailon.
Tratamento e amizade
Biaque começou com os antiretrovirais logo depois do diagnóstico. Nailon só começou em 2007, dois anos depois. Hoje as duas estão saudáveis e trabalham na machamba. A única reclamação delas é a malária, que insiste em atacá-las.
O marido também tem uma terceira esposa em Meluco, da qual souberam por meio de comentários. Nicossa nunca falou sobre ela.
Recentemente, as duas ouviram a notícia de que a terceira mulher havia sido operada de uma infecção comum entre seropositivos. Foram até Meluco e viram o marido a conversar com a moça. Deram bom dia e foram embora. Não sabem se ela também tem o HIV.
A amizade entre as duas se fortaleceu depois do HIV. Hoje, uma acolhe a outra em dias de doença. Se uma não pode ir à clínica pegar os medicamentos, a outra vai em seu lugar. Elas também participam juntas das actividades da Associação Ajuda ao Próximo.
"Nunca tivemos raiva uma da outra, nem do nosso marido. Aconteceu. Nós apanhamos o vírus. Só", contam.
Ao final da conversa, as duas já tinham entrado num consenso também quanto à idade do marido. "Quarenta e dois. Está no bilhete de identidade", diz Biaque. Nailon concorda e sorri.
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